Sábado, 1 de Abril de 2017

Deve o exame condicionar a leitura orientada?

Dedico este trabalho à Vitória de Sousa,

uma grande defensora da leitura e do leitor,

uma pessoa com quem espero ainda

poder aprender algumas coisas importantes.

 

A aprendizagem da leitura literária em Portugal baseia-se no seguinte paradigma: os programas prescrevem obras que são lidas uniformemente em todas as escolas, em todos os níveis de ensino.

Ao ser questionada esta perspetiva autoritária e arbitrária do cânone e do ensino da literatura, respondem‑nos invariavelmente com o problema dos exames: todos têm que ler os mesmos textos para que todos sejam sujeitos à mesma prova.

Sinto-me desconfortável com a ideia de Portugal ser, de entre os países que pesquisei, o único cujos programas de ensino especificam escolhas que podiam ser feitas por alunos e professores, enquanto comunidades de leitores que deviam ter alguma autonomia. Para chegar a esta desagradável conclusão, li programas do ensino básico e secundário do Reino Unido, França, Alemanha, Brasil e Espanha, entre outros.

Será o exame um constrangimento válido para justificar a uniformidade da leitura no ensino secundário e a imposição dogmática dum cânone, ou mesmo, duma preferência literária?

Um país que tem um sistema importante de exames é o Reino Unido. Lá, a administração de exames é da responsabilidade de organizações independentes do governo, cujos serviços são requeridos pelas escolas. A AQA, uma dessas organizações, é responsável por cerca de metade de todos os exames de GCSE (correspondente ao 9º ano) e A-Level (10º a 12º ano) de todo o Reino Unido. No caso dos exames de A-Level, as especificações não se limitam ao exame propriamente dito, mas ao programa da disciplina.

Li agora com atenção dois cadernos de especificações o de English Literature para o GCSE e English Language and Literature para o A-Level. Nesta disciplina, restringindo-me à literatura, à escolha de textos e ao tipo de questões de exame, verifico o seguinte:

Para uma parte da narrativa ficicional (secção "imagined worlds", isto é, "mundos imaginados"), os alunos podem escolher uma de entre as seguintes obras:

  • Mary Shelley, Frankenstein;
  • Bram Stoker, Dracula;
  • Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale;
  • Alice Sebold, The Lovely Bones;

Para uma outra temática da narrativa ficicional ("writing about society", escrita sobre a sociedade), os alunos podem escolher uma das seguintes obras:

  • Jon Krakauer, Into the Wild;
  • Kate Summerscale, The Suspicions of Mr Whicher: or the Murder at Road Hill House;
  • F. Scott Fitzgerald, The Great Gatsby;
  • Khaled Hosseini, The Kite Runner;

Na parte relativa à poesia, os alunos podem escolher de uma antologia, poemas de um de quatro poetas:

  • John Donne
  • Robert Browning
  • Carol Ann Duffy
  • Seamus Heaney

Para o texto dramático, eles têm de escolher uma peça de entre as seguintes:

  • William Shakespeare, Othello;
  • Arthur Miller, All My Sons;
  • Tennessee Williams, A Streetcar Named Desire;
  • Rory Kinnear, The Herd;

A avaliação da disciplina compõe-se de 2 testes (peso de 80%), um de 3 horas e outro de 2, e de um ensaio realizado sob a orientação do professor obedecendo também a especificações (20%).

No primeiro teste de exame, a parte ficcional ("imagined worlds"), apresenta no enunciado várias questões, referentes aos textos mencionados acima, de entre as quais o aluno tem de escolher uma (que dirá respeito ao texto que preparou). Trata-se de uma questão de desenvolvimento com um peso de 35% desse teste. O mesmo acontece com as questões relativas à narrativa ("writing about sociey"), à poesia e ao drama.

A especificação poderá, numa próxima edição - esta que apresento é a relativa a 2017 -, incluir outros autores e outros textos canónicos de maneira a evitar a transformação da leitura numa estereotipificação ou numa reprodução de interpretações feitas na aula dum texto já repetido e massacrado em inúmeros comentários.

Em English literature (GCSE, correspondente ao nosso 9º ano), a escolha ainda é maior. Há uma secção dedicada a Shakespeare na qual o aluno poderá escolher uma peça de entre várias:

"Students will answer one question on their play of choice. They will be required to write in detail about an extract from the play and then to write about the playground as a whole".

A escolha será feita entre:

  • Macbeth
  • Romeo and Juliet
  • The Tempest
  • The Merchant of Venice
  • Much Ado About Nothing
  • Julius Caesar.

Há uma secção sobre o romance do século XIX em que os alunos terão que escolher um romance para responder a uma questão no teste, em que lhe será apresentado um extrato da obra que preparou para responder em pormenor e globalmente. 

  • Robert Louis Stevenson, The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde
  • Charles Dickens, A Christmas Carol
  • Charles Dickens, Great Expectations
  • Charlotte Brontë, Jane Eyre
  • Mary Shelley, Frankenstein
  • Jane Austen, Pride and Prejudice
  • Sir Arthur Conan Doyle, The Sign of Four

As obras que aqui se apresentam são por nós conhecidas mesmo que não tenhamos lido todas. Fazem, pois, parte dum cânone. A diferença entre este currículo e o nosso está na redução dos nossos programas a uma espécie de catecismo histórico-literário que vai ao ponto de prescrever partes de romances e de estabelecer interpretações para os textos indicados (vejam-se os temas de Camões lírico). Esta orientação constitui um convite ao desinteresse, em que o texto objeto se transforma no próprio conteúdo programático, matéria a decorar. Nenhum texto sobrevive a esta carnificina escolar.

Se o tema programático é o romantismo, pois que leiam os alunos um grande romance romântico à sua escolha. Se é o realismo, então que experimentem um grande texto realista de entre os melhores.

Isso mostra perfeitamente duas conceções diferentes sobre o ensino da literatura nos nossos dois países. Lá importa a leitura literária e o conhecimento histórico-literário requerido. Aqui importam os textos canonizados que têm de ser os mesmos para todos os alunos e todos os professores. É a lógica da antologia. Já que não é possível ler tudo, então que leiam um bocadinho de cada, como se em cada excerto estivesse toda a essência da obra e do autor.

Bibliografia consultada:

Clique no título dos documentos para os abrir.

AS and A-Level. English Language and Literature (especificações da disciplina e do exame)

A-Level. English Language and Literature - specimen material (exemplos de questões de exame)

GCSE - English Literature (especificações da disciplina e do exame)

publicado por Redes às 23:46
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Sexta-feira, 31 de Março de 2017

Bloomberg desvaloriza efeito de Trump no controlo das mudanças climáticas

As centrais de carvão continuam a fechar não por causa da política federal, mas porque os americanos já não as querem e preferem pagar mais por energia mais limpa - diz Bloomberg. Nem os estados nem as cidades deixarão de condicionar o mercado energético por princípios ecológicos por Trump ter rasgado os compromissos internacionais nesta matéria.

Bloomberg, um dos 10 homens mais ricos do mundo (10 vezes mais rico do que Trump), ex "mayor" de New York (12 anos no cargo), escreve hoje na sua coluna de opinião do NYT: "Climate Progress, With or Without Trump", NYT, 31/3/2017.

Também convém ler Krugman que nos esclarece que a indústria do carvão já não dá tantos emregos e já não importa significativamente para a economia da Virgínia Ocidental ("Coal Country Is a State of Mind", NYT, 31/3/2017).

publicado por Redes às 15:09
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Quarta-feira, 15 de Março de 2017

Tratados ortográficos internacionais

Na audição do Centro de Estudos de Linguística Geral e Aplicada no Parlamento (aqui), a 22 de fevereiro, duas semanas depois da ida da Academia de Ciências ao parlamento, foi esclarecido que as várias línguas "pluricêntricas", como o espanhol, o francês e o alemão, têm tido acordos internacionais sobre a sua ortografia. Trata-se de uma questão de facto sobre a qual têm mentido várias personalidades como Artur Anselmo e Bagão Félix e que tem sido objeto de análise neste blogue.

Só o Inglês não tem ortografia acordada - diz um dos representantes do dito centro (CELGA).

Também já comentei o caso do inglês.

Veja:

 

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Sábado, 11 de Março de 2017

Acordo Ortográfico: Declarações falsas sobre a ortografia de língua espanhola

É que o mínimo que se pode exigir é que estejamos informados sobre o que se passa com outras línguas internacionais.

Vejam por favor as declarações de Artur Anselmo sobre a ortografia nos países de língua espanhola produzidas na audição da Academia das Ciências de Lisboa​ na Assembleia da República na qual ele sugeriu que cada país tinha a sua ortografia própria, em resposta a Edite Estrela.

O mesmo faz Bagão Félix na RTP (c/ Isabel Pires de Lima e Carlos Fiolhais).

Infelizmente, isso não coincide em nada com a breve pesquisa que fiz. Essa ideia de diversidade ortográfica foi imediatamente desdita pelo primeiro artigo da Wikipedia com que me deparei. Há uma obra chamada Ortografía (2010) que é aprovada pela Real Academia em conjunto com as dos outros países. Para exemplificar, o espírito da coisa cito um trecho da introdução:

Por último, la ortografía representa un valor incalculable en la unidad de la lengua. Mientras los demás planos lingüísticos (fonología, morfología, sintaxis y léxico) se hallan sujetos a los parámetros de variación (geográfica, social, cultural, situacional), la ortografía es un código uniforme en el que todas las variables se diluyen. Aunque su pronunciación sea distinta, una misma representación gráfica unifica la voz literaria de Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa o Miguel Delibes. Su unidad y su vocación de permanencia convierten a la ortografía en un factor de unidad y de contención contra la dispersión y contra una evolución descontrolada del idioma.

Por este documento, observamos o seguinte:

  • Existe um esforço dos países de língua espanhola no sentido da unificação ortográfica.
  • Há uma Associação das academias de língua espanhola com sede no México. O documento acima referido foi produzido pela RAE em coordenação com a dita associação.

Caro leitor, ponho aqui a ligação para o referido documento. Se estiver interessado facilmente encontrará os sítios das ditas organizações.

De facto, a Ortografia está aqui disponível para consulta http://aplica.rae.es/orweb/cgi-bin/buscar.cgi. Curiosamente, consegui esta ligação, numa página da Acacemia Mexicana de la Lengua (http://www.academia.org.mx/ortogra).

Nessa mesma página, podem ver um artigo de José G. Moreno de Alba que compara o presente acordo ortográfico português com o processo de convergência ortográfica espanhola. Destacam-se os seguintes aspetos:

  • Em Portugal e no Brasil, o processo é controlado pelos governos, enquanto em Espanha e na América Hispânica, a ortografia tem sido controlada desde o século XVIII pela Real Academia Espanhola com muito êxito. Relata-se inclusive o caso considerado anedótico da revolta de Ramon Jiménez que escreveu um livro desafiando as regras da academia.
  • Considera-se a unidade ortográfica espanhola muito mais avançada do que a portuguesa.
  • A partir de 1999, as academias encontram-se a implementar uma nova reforma que conseguirá uma unidade ainda maior (a presente da Ortografía de 2010).

cf. Asociación de Academias de la Lengua Española (2010), Ortografía

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Aniversário da Revolução Russa (a boa)

Bertone de Sousa lembrou-a neste seu artigo: Os cem anos da Revolução Russa.

Estou inteiramente de acordo com a perspetiva que é apresentada aqui, mas, há trinta anos atrás, eu discordaria: poria as culpas todas em Estaline e tentaria salvar a imagem de Lenine e de Trotski.

A última machadada na minha tentativa de me pensar "marxista", foi o livro de François Furet O passado de uma ilusão. É triste, mas é verdade, a unidade democrática anti-fascista na Europa do pós-guerra, e um pouco por todo o mundo, não tem qualquer fundamento porque o comunismo não é mais democrático nem melhor do que o fascismo, embora tenha sido eventualmente útil e contribuído para converter os marxistas-leninistas europeus à democracia e ao parlamentarismo.

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Quinta-feira, 9 de Março de 2017

Encontro sobre o Acordo Ortográfico na Academia das Ciências - primeiras observações

Enquanto membro da Associação de Professores de Português, participei no encontro sobre o Acordo Ortográfico que a atual direção da Academia promoveu.

A iniciativa, realizada para discutir um importante aspeto da nossa cultura, é louvável e os presentes, ao que me parece, na sua generalidade, oponentes ao Acordo, estão de parabéns. O facto de estar pouca gente não é imputável nem à instituição nem à importância do tema, mas a dificuldades inerentes a eventos deste nível de exigência, pois já estive em encontros de grande qualidade com muito parca assistência. Se estão em causa ou não os meios de divulgação empregues, só a Academia poderá ajuizar.

A presidente da APP fez o histórico dos acordos ortográficos para acentuar a responsabilidade histórica da Academia na gestação da presente legislação ortográfica. Agora, com centenas de milhar de jovens ortograficamente formados com as novas regras, seria no mínimo uma falta de respeito, dizer-lhes que o estado português lhes pede desculpa por os ter levado ao engano.

A seguir, falou Maria do Carmo Vieira, com argumentos que já lhe conhecemos e sobre os quais já aqui escrevi e sobre os quais voltarei a escrever. Às objeções que lhe pus, respondeu sobre a minha pessoa, chamando-me de ignorante. Noutra entrada, tratarei disso. Limito-me a observar que a intolerância de que esta professora se queixa, de não ser ouvida, está patente na sua atitude ao reduzir os que não concordam com ela a simples "ignorantes".

Tratava-se das maiúsculas nas estações do ano. Segundo ela, todos teríamos de as continuar a utilizar porque num poema de Ricardo Reis as ditas estações são alegorias, referem entidades únicas. "Se é esse o caso, porque não se grafam com maiúsculas?" -, tinha eu objetado. Passam a ser nomes próprios, não é? Mas quando eu escrevo "Esta primavera vou ao estrangeiro", será "primavera" um nome próprio? Se a Primavera é o nome de uma deusa, que se escreva então com maiúscula.

Será por eu ter dito que isso não passa de uma convenção que ela concluiu que eu era ignorante da cultura clássica? Não é uma arrogância, por uma questão ortográfica, ajuizar do conhecimento de cultura clássica do seu oponente? Então, imagine a Carmo Vieira o que acontece ao dito poema ao ser traduzido para o alemão: todos os nomes, próprios ou não, aparecerão com maiúscula e a Primavera, deusa ou não, será igual a todos os nomes comuns! Perde-se a intenção alegórica de Ricardo Reis na tradução alemã? Ou em espanhol em que as estações do ano se escrevem com minúscula?

Então aqui está para fechar este assunto, uma ocorrência de "primavera" de Ricardo Reis lida por "nuestros hermanos":

 

Cada cosa a su tiempo tiene su tiempo.
No florecen en el invierno las arboledas,
Ni por la primavera
Tienen blanco frío los campos.

A la noche, que entra, no pertenece, Lidia,
El mismo ardor que el día nos pedía.
Con más sosiego amemos
Nuestra incierta vida.

A la hoguera, cansados no de la obra
Pero porque la hora es la hora de los cansancios,
No acerquemos la voz
Encima de un secreto,

Y casuales, interrumpidas, sean
Nuestras palabras de reminiscencia
(Para nada más nos sirve
La negra ida del Sol) —

Poco a poco el pasado recordemos
Y las historias contadas en el pasado
Ahora dos veces
Historias, que nos hablen

De las flores que en nuestra infancia ida
Con otra consciencia recogíamos
Y bajo otra especie
De mirar lanzado al mundo.

Y así, Lidia, a la hoguera, como estando,
Dioses hogares, allí en la eternidad,
Como quien compone ropas
Otrora lo compongamos

En este desasosiego que el descanso
Nos trae a las vidas cuando sólo pensamos
En aquello que ya fuimos,
Y hay sólo noche allá fuera.

 

http://www.fpessoa.com.ar

 

Que escândalo, não é? Escreverem "primavera" como nós fazemos agora!

Mas há mais, Maria do Carmo Vieira, se todas as utilizações da palavra "Primavera" forem grafadas com maiúsculas, não haverá diferença entre a "Primavera" alegórica, a única que nos visita todos os anos, da minha reles que aparece em "Esta Primavera não passeei nada". Numa tradução portuguesa da Odisseia, em todos os dias bons aparece a "Aurora de róseos dedos" justamente grafada com maiúscula.

publicado por Redes às 12:01
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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2017

O Acordo Ortográfico entre aspas

Vi de novo o Artur Anselmo a colocar o Acordo Ortográfico entre aspas. Sempre pensei que o dito documento é um texto legal aprovado no nosso parlamento. Por isso, não entendo onde estão as aspas: na validade legal (inconstitucionalidade?), no acordo (seria um desacordo?) ou no adjetivo "ortográfico" (seria antes um acordo disortográfico?). Enfim, cabe ao presidente da Academia das Ciências de Lisboa, a instituição que nos pôs este tratado nas mãos, dizer porque põe aspas no trabalho dos seus colegas.

Mesmo que o novo presidente da academia tenha votado de vencido, não sei como foi, não me interessam as questões internas da dita organização nem a posição pessoal anterior de Artur Anselmo, o que é certo é que foi a sua instituição que produziu este objeto em 1990. Então para mim, pessoa de fora que só vê a instituição e se desinteressa dos elementos que a constituem, é a Academia de Ciências de Lisboa que se vem arrepender 26 anos depois do acordo entre aspas ter sido concluído.

A comentar a ida ao parlamento do referido desacordado presidente, vimos Francisco José Viegas a esclarecer-nos com as perguntas do jornalista. Seria correto que escrevêssemos como falamos? Claro, essa é a tendência atual desde a década de 70 (foi o que me pareceu ouvir), em muitas línguas.

A primeira dúvida é o que significa "escrever como se fala" no que à ortografia diz respeito. É que pôr a questão nestes termos parece-me diferente de perguntar qual é o lugar da etimologia na ortografia, isto é, se os elementos ortográficos que deixaram de ter qualquer função devem ou não continuar a fazer parte da grafia das palavras.

Numa primeira interpretação, a palavra "casa", tanto poderia ser escrita com "s" como com "z". Ora, isso nunca esteve em causa. A palavra "mesmo", poderia ser escrita assim "mejmo", já que o "s" nessa posição, antes de uma consoante sonora, palatiza-se e sonoriza-se. As formas do plural, entre nós, poderiam acabar em "ch". "Vamos passear", seria grafado assim: "vamoch passiar", mas não em "vamos à escola", porque neste contexto o "s" sonoriza-se mas não se palatiza. Enfim, a ortografia seria uma espécie de transcrição fonética.

Como não é isso que está em questão, acho errada a formulação "escrever como falamos". Quanto à etimologia, José Viegas foi buscar o estafado exemplo Egito/egípcio. Como o próprio mostrou o "p" aparece magicamente numa palavra derivada. No oral, estamos perante um facto: o "p" caiu, em "Egito", mas não caiu em "egípcio". O que os partidários da ortografia etimológica querem é que o "p" morto na oralidade permaneça na escrita. Para manter a coerência morfológica, não deveria continuar lá? A verdade é que o étimo que é o mesmo passou na diacronia a ser representado por dois alomorfes "egipc" e "egit", pois, na verdade, as palavras têm história independente: "Egito" deriva do latim  "aegyptus" e "egípcio" de "aegyptius". Num contexto, "pt" passou a "t", noutro, passou a "pc". Portanto, não somos nós que aplicamos um sufixo para formar uma nova palavra.

O princípio da prioridade do fonológico sobre o etimológico na ortografia não é recente, como Francisco José Viegas pretendeu mostrar, mas secular. Já Gonçalves Viana e Vasconcellos Abreu na sua Ortografia Portuguesa de 1885, propunham o fim de todos os símbolos gráficos sem valor: th (por exemplo, thermómetro), ph (etnographia), ch (por exemplo, chimica, machinamechanica), y (lyrio, physica), mudanças que vieram a concretizar-se em 1911.

 

publicado por Redes às 22:21
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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2017

O reino de Walter Hugo Mãe em questão

"O Nosso Reino" - a infância narrada por Walter Hugo Mãe está em questão, pelo menos, para os adolescentes do 8º ano que ou conhecem já todas asneiras da obra ou estão com um currículo oculto deficente. Seria possível uma obra ser "realista" sem essas asneiras?

De acordo com os pais dos alunos duma escola da capital, os seus educandos não podem ler textos literários realistas sobre a infância e juventude. Isto é, não podem ver por escrito o que muitos dos seus colegas ou os pais deles nessas idades viveram. Essas coisas são apenas para ser vistas no Youtube, para gerar polémica e aparecer nos telejornais nacionais. Quanto a acontecer a personagens de uma obra lida na escola, nada feito. Uma obra literária deve ser limpa, cheia de bons exemplos, com palavras que não façam corar ninguém. Parece ser essa a ideia de literatura que os pais têm.

Os professores da escola terão com certeza escolhido a obra depois de a lerem. O Plano Nacional de Leitura não tem nada a ver com o assunto. Mas estou certo que quem a escolheu para figurar nesse "plano" também leu a obra e achou que o vocabulário asneirento que os alunos dizem quando os pais não estão por perto, a linguagem grosseira com que expressam a sua virilidade ou feminilidade nascentes, já podia entrar num texto que trata mesmo desse assunto.

Se tanto uns como outros estão preparados para defenderem as suas opções, porque dão o braço a torcer invocando erros ou uma autoridade superior?

Como não acredito que os professores da dita escola não estejam preparados para as ditas "asneiras", não compreendo também a fuga para o PNL. Nem entendo por que se tem que pronunciar o presidente da república sobre este incidente. "A escolha é subjectiva, discutível e criticável" - disse ele. Mas estão lá os professores que leram a obra para discutir e para responder às críticas. Onde estão as escolhas literárias objectivas, indiscutíveis e ao abrigo de qualquer crítica?

publicado por Redes às 20:18
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Defesa da escola pública nos EUA

A Tablet Magazine, uma publicação jadaico-americana de elevada qualidade, condena a escolha de Betsy DeVos para secretária de estado da educação da administração Trump. A revista critica a opção de  favorecimento das escolas privadas sob a égide da "free choice" e defende os professores sindicalizados das escolas públicas contra o abaixamento do rendimento e das condições de trabalho dos professores nas escolas privadas, religiosas e "charter". Veja "Protecting Public Schools"

publicado por Redes às 18:38
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Terça-feira, 20 de Dezembro de 2016

Bilinguismo e ortografia

Em O Português na hora di bai?, Nuno Pacheco dá-se conta, aparentemente surpreendido, da dualidade linguística fundamental das crianças africanas, como o serão também, as timorenses, divididas entre a língua materna e a da escola. Os países africanos são multilingues e os seus cidadãos, bilingues.

Que as crianças caboverdianas tenham de aprender o português como uma segunda língua e não como se fosse a primeira é um avanço que vai permitir a expansão do Português. Até onde vai esta lusofonia é uma incógnita, mas tome-se nota de que em Angola o português já está a matar as línguas africanas e a dualidade linguística a desaparecer.

O que interessa a respeito do acordo ortográfico é se há ou não uma ortografia comum aos dois países que têm o português como língua materna e como língua oficial (os tais milhões) extensível aos outros que têm a vontade política de manter o português como língua oficial e de cultura.

Se Portugal fizer marcha atrás no acordo, não sei que consequência terá isso para o Brasil onde milhões de crianças já foram alfabetizadas com as alterações acordadas. Não estou a dramatizar. Estou apenas a dizer que não sei. O que fica é uma irresponsabilidade e uma falta de solidariedade institucional e política que envolve na sua ação milhões de pessoas. As variações ortográficas em tão pouco tempo exibirão sobretudo essa flutuação da mediocridade governativa, já que, em si mesmas, importam muito pouco, pois não foi possível unificar ortografias que têm muito pouco de diverso.

publicado por Redes às 16:11
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