Quinta-feira, 29 de Abril de 2004

Sem rede

Escrever é sempre um risco. Ao contrário do dizer que se desevanece constantemente no fluir linear do discurso, a palavra escrita conquista a dimensão da superfície e torna para sempre, presentes, em simultâneo, o antes e o depois, o começo, o meio e o fim. Não deixará subterfúgios, nem escapatória para racionalizações, justificações ou acertos a posteriori. As premissas estarão ao lado das conclusões. As teses e posições defendidas poderão sempre ser reavaliadas, mas, uma vez escritas, tornadas públicas já não pertencerão mais ao autor. Pelo contrário, será ele que se tornará um pouco parte daquilo que escreveu, na medida em que aquele que escreve é apenas um elemento da identidade do texto. No mínimo será origem, no máximo, Escritor. Seja como for, cada risco que traça, será sempre um risco que corre em vários aspectos: o jurídico, o literário e o político, entre outros. Por tudo isso, parece-me que passarmos do oral ao escrito, é como abandonarmos o chão seguro do espaço oral, privado, para, como um trapezista sem rede, nos lançarmos no espaço vão onde a queda se adivinha a cada instante.

publicado por Redes às 21:52
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7 comentários:
De Ana da palma a 10 de Maio de 2004 às 21:17
não sei.
será porque não sabem o que dizem...
será porque não pensam e pesam o que dizem...
será que se deixam encantar pela melodia da língua...
será porque a palavra registada ainda tem algo de mágico?
Lembro-me de uma história de uma princesa que tinha palavras sagradas escritas nas pálpebras. Ninguém podia olhar para a princesa, porque ao ver as palavras sagradas podia morrer...esta princesa morreu num pestanejar diante do espelho...


De Lus Filipe Redes a 10 de Maio de 2004 às 18:14
Se é assim, porque é que, tantos fala baratos hesitam quando escrevem?


De Ana da palma a 5 de Maio de 2004 às 23:33
Ouvi falar o texto com a tua voz...é possível?

Sempre gostei destas palavras: 'scripta manent verba volent' e agradaram-me ainda mais, quando soube que o seu significado era, exactamente, o contrário daquele que eu sempre pensei, pois só veio reforçar o que pressentia(... )- deixo para outro dia esta parte!.
Se eu digo aqui, agora, neste momento exacto, estas palavras: 'scripta manent verba volent', num tempo em que o papel, o livro, o ecrã fazem parte da minha(nossa) vida quotidiana, significam que as palavras escritas permanecem, resistem, são perenes (tanto no fluir do tempo, porque os suportes podem ser eternos, como no momento de leitura ) e que as palavras ditas( emprego a palavra dita, apesar de apetece-me dizer: o verbo) voam, desaparecem, espalham-se, são palavras que, pelo contexto da sua concretização, sofrem uma série de alterações. Mas estas palavras significavam, precisamente o contrário. O que era importante, naquele tempo, eram as palavras ditas em voz alta simplesmente porque se espalhavam!
Definitivamente... sem rede!


De rui a 30 de Abril de 2004 às 08:34
Força, Luís. Sou já há algum tempo um leitor do que quer que escrevas, o teu "sem rede" será uma referência das minhas leituras desobrigadas e atentas. Um abraço do Rui Correia


De Paulo Prudncio a 29 de Abril de 2004 às 23:14
Chama-se a isto começar em força. Quem é por bem e de bem nunca o faz sem rede.


De Anónimo a 18 de Janeiro de 2008 às 00:35
Li nas palavras Vergílio Ferreira e STEINER...


De Redes a 6 de Novembro de 2009 às 23:27
Obrigado,
Sou um pobre leitor de ambos.


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