Segunda-feira, 20 de Novembro de 2006

A TLEBS - um trabalho de rigor científico e didáctico, na voz da Alzira Seixo (3)

Tenho que tirar o adjectivo "disparatada" à voz da Alzira Seixo, não por ela ter sido minha professora e por eu a estimar muito, mas por se tratar de uma outra ordem de artigos, totalmente diversa dos anteriores, pela economia verbal e pelo nível teórico em que se situa.

Pouco me importa que a TLEBS seja ou não dominada pela perspectiva Teórica da Inês Duarte que conheço da Gramática da Maria Helena Mira Mateus, de inúmeros artigos e conferências, da polémica com o VGM, em que não tenho a menor dúvida em estar do lado dela e, enfim, considerar que o VGM polemiza quase porque tem de polemizar, generaliza  juízos que não têm razão de ser, e isto leva-nos, muitas vezes, a perdas de tempo.
Ora a TLEBS reivindica neutralidade teórica e quer-me parecer que a acusação da Alzira Seixo fica-se pelas palavras dela. Isto é, não nos diz como deveria ser.
Enquanto os linguistas estudam a língua como um objecto vivo, os literatos remetem para a tradição dos textos. Muitos dicionários, justificam as suas entradas, com passagens do cânone literário e o mesmo fazem muitas gramáticas.
Contudo, da mesma maneira que a gramática foi influenciada nos seus primeiros tempos pela tradição latina, forçando muitos conceitos a se adequarem às bárbaras línguas novilatinas, também hoje a linguística influiu em tudo, foi o paradigma do estruturalismo literário e, claro, veio também, alterar o nosso conceito de gramática.
Tudo se resume ao seguinte: havia incongruências, contradições, definições insatisfatórias na gramática tradicional que a linguística nos veio ajudar a resolver, alterando-os com a sobriedade científica que a norteia.
As disciplinas citadas pela Alzira Seixo estão implicadas neste trabalho: a semântica frásica, a teoria da enunciação, os actos de fala de Searle e Austin, a teoria dos argumentos ou dos casos de Filmore estão implicados no trabalho da Gramática da Maria Helena Mira Mateus.
Pouco importa que os estudiosos da literatura também os utilizem. A Semântica e a Filosofia da Linguagem não são de ninguém - são imprescindíveis para todos os estudos literários ou linguísticos ou gramaticais. Não sei se não se está a colocar aqui uma questão interdepartamental que a nós professores pouco interessa.
A crítica aos conceitos da TLEBS socorre-se de expedientes indevidos e fica-se pela generalidade. Por exemplo, Alzira Seixo critica-a por a Semântica estar ausente, mas não dá um só exemplo dessa falta.
Em certo momento, socorre-se de um termo extenso, "o advérbio de modo «supostamente», classificado como «advérbio disjunto restritivo da verdade da asserção»; imaginem uma criança a decorar isto!". Ninguém diz na TLEBS que esse termo, ou qualquer outro com essa complexidade, é para ensinar às crianças. Além disso, nunca vi "supostamente" como advérbio de modo! A terminologia vai de encontro à classificação desses advérbios como tendo a ver com a verdade da afirmação, portanto, como um advérbio de negação ou dúvida porque, quando digo "supostamente" estou a pôr em questão o valor da verdade do que digo a seguir. Não é novidade da TLEBS!
Quanto à preferência por nome ou substantivo, não sei o que dizer. Mesmo que a TLEBS optasse por substantivo, a verdade é que nós professores, já há mais de 20 anos que usamos "nome". "Substantivo", sim, seria uma grande mudança!
Em termos filsóficos, não concordo com Alzira Seixo. Não há uma substância específica das palavras que faça delas substantivos. Se eu digo "liberdade", "amor", "vaidade", "pertinência", qual é a sua substância, em termos aristotélicos, ou de qualquer outra índole? A substância de "amor" é diferente da de "amar", ou de "amado" ou de "amorosamente"? Precisamente o que distingue estas palavras é a sua função, o acto de nomear é diverso do de adjectivar, do de modificar o sentido de um verbo, de uma frase ou de um adjectivo.
Parece-me haver uma confusão entre a designação do tempo e modo verbal e o seu valor temporal e aspectual. O presente do indicativo serve para referir futuro próximo "vai chover", a intenção, "Vou ao cinema", o habitual, o repetitivo "estudo física", mas nunca o momento presente da enunciação.
Para isso, é necessário recorrer a perifrásticas do tipo "estou a estudar". Não se entende aqui a referência à estilística de Rodrigues Lapa, pois estes usos são do domínio comum, da língua viva e não do texto literário, mas também são deste, na medida em que neles transparece a língua viva, ou seriam textos mortos, sem interesse.
Não deixa de ser estranho que Alzira Seixo considere a TLEBS como radicalmente inovadora e não apresenta um só único exemplo de tal radicalidade: supostamente "supostamente" seria um advérbio de modo, mas consultei várias gramáticas tradicionais que o negam.
Acho que Alzira Seixo dá-se melhor com a teoria dos géneros literários do que com a gramática, seja tradicional, seja "radicalmente inovadora"!
(Não me tomem demasiado a sério, este foi um texto rápido da professora que admiro e prezo! Mas é pena que muitas pessoas de grande valor se desgastem nestes exercícios críticos cheios de fissuras.)
Para ler o texto da Professora Alzira Seixo, por favor veja na ciberdúvidas: http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/311006_6.html
publicado por Redes às 22:39
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4 comentários:
De helena a 21 de Novembro de 2006 às 17:59
Parabéns! Finalmente comentários sérios e didácticos a contestar o que os "intelectuais" andam a dizer. Só é pena que a imprensa só publique as vozes desinformantes e não dê espaço a quem questiona as coisas com seriedade, como é o caso.

Mas fiquei aqui com um ponto de interrogação às voltas na cabeça. O presente do indicativo *nunca* refere o momento presente da enunciação?
"Estou cansado." "Fico feliz por ouvir isso." "Amo-te." "Odeio-te."
É verdade que isto não é possível com a esmagadora maioria dos verbos, mas nestes casos trata-se do momento presente da enunciação. O que explica este comportamento excepcional é que ainda não descobri.


De Redes a 21 de Novembro de 2006 às 23:47
Óptimo! É isso mesmo que é a gramática! A discutir, a testar generalizações e a concluir, modestamente, provisoriamente...
Pelos exemplos que deste, não há a menor dúvida que não se pode dizer "nunca". Quando se trata de estados afectivos, o presente do indicativo indica o momento da enunciação: gosto de, aprecio, prefiro, amo, detesto... Mas quando se trata de acontecimentos, de acções ou de actividades, em geral, precisa de ser aquilo que os ingleses chamam "present continuous" que em português se faz com "estar a + verbo".
O que interessa é ressalvar que o Presente do Indicativo é uma designação formal que serve pare representar diferentes valores temporais e aspectuais.
A Alzira Seixo falava de a forma "vou" ter um valor de futuro. Acho que se trata da construção "ir + infinitivo", mas também só com o verbo "ir". Isso não quer dizer que não sirva também para o presente, em situações em que "vou" é o mesmo que "estou a ir". Se alguém me encontra no caminho e me pergunta: "Onde vais?", "vou ao Supermercado".
Concluindo: o meu "nunca" está mesmo errado.


De Paulo G. Trilho Prudêncio a 22 de Novembro de 2006 às 21:10
Sabedoria. Ufa!! Tanta sabedoria, meu caro Luís. Mas que belo texto, Devo dizer-te que admiro a Alzira Seixo. Conheci-a na conferência sobre o primeiro dos 100 livros do século XX: Proust e o em busca do tempo perdido. Estava acompanhada do Augusto Abelaira e do E. Prado Coelho. Foi fascinante. Nunca me esquecerei da sua paixão plea obra do Marcel Proust e do seu vasto conhecimento.


De Redes a 22 de Novembro de 2006 às 23:05
Alzira Seixo é uma grande conhecedora de Proust; mesmo se não o conhecesse como grande leitora que é, conhecê-lo-ia por dever de ofício, pois quase todos os teóricos da narrativa e do romance passam por Proust, especialmente Genette, o grande teorizador da relação entre tempo narrativo e tempo da história narrada.


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