Segunda-feira, 27 de Novembro de 2006

TLEBS comparadas.

Isto da TLEBS está a dar-me muito trabalho. Houve um momento em que me questionei sobre se devia seguir ou rejeitar a TLEBS, dilema que pus em discussão no meu grupo. O argumento forte para rejeitar a TLEBS, pelo menos este ano, era a falta de materiais didácticos adequados para os alunos. Mas ninguém quis tomar uma posição explícita, o que compreendo muito bem, pois isso poderia ser lido de duas maneiras:
- desobedecer a uma ordem governamental;
- confessar a nossa incompetência para produzir os materiais supletivos necessários.

Mas o que me está ainda a complicar mais a tarefa são os comentadores, isto é, essa espécie de intelectuais que sobre quase tudo escrevem, com espaço privativo, de destaque, nos grandes jornais. Quando os leio, vejo-me de tal maneira perseguido pelos seus argumentos, que tenho que verificar a sua justeza e formar uma opinião.

Uma dos argumentos contra a TLEBS apresentados pelo Vasco Graça Moura é que a nova terminologia iria criar problemas à aprendizagem de outras línguas. Dei-me então ao trabalho de verificar várias gramáticas de língua francesa, para começar a fazer a respectiva comparação terminológica.

Quando estudei inglês, em miúdo, um dos tópicos era o dos "countable and uncountable names", que agora entraram para a terminologia oficial portuguesa. Acontece que essa classificação dos nomes parece-me ainda mais relevante em Português do que em Inglês: os ingleses não variam o artigo definido no plural: "the boys eat the rice" é, em Portguês, "Os rapazes comem o arroz", mas um principiante que ignorasse que "arroz" também era um não contável em Português, bem poderia errar e pôr os dois artigos no plural,  "Os rapazes comem os arrozes". Assim é também em francês e muitas gramáticas que encontrei na Net incluem essa classificação.

Na generalidade das gramáticas pesquisadas, "cahier" seria classificado como um "nom" e não como um substantif, apesar de algumas colocarem as duas designações lado a lado: "nom ou substantif" - veja por exemplo, "Grammaire et ortohgraphie", http://membres.lycos.fr/clo7/grammaire/grammair.htm.

Lá, como cá há bastantes anos, os determinantes (déterminants) incluem os artigos (articles), os possessivos (adjectifs possessifs) e os demonstrativos (adjectifs démonstratifs), mas ainda incluem os indefinidos (adjectifs indéfinis) e os numerais, "adjectifs numéraux" que na nossa terminologia passaram para a classe dos "quantificadores", embora a função de quantificar os nomes lhes seja attribuída no texto dessas gramáticas.

As noções de "grupo nominal", "grupo adjectival", "grupo adverbial" e "grupo preposicional", totalmente estranhas às nossas gramáticas anteriores a 1974, são um item obrigatório da gramática escolar francesa, ou do Québec. Veja como em "Grammaire", se propõem exercícios sobre o grupo nominal para o primeiro ciclo ("group nom"), http://www.csdm.qc.ca/petite-bourgogne/signet/grammaire.htm.

Lá está, também, nalguns "sites", a classificação semântica dos advérbios num número um pouco extenso de subclasses que incluem as de modo, tempo, lugar, afirmação, intensidade, negação, etc.. Na leitura que faço da TLEBS, a distinção entre disjuntos e adjuntos não tem que preceder didacticamente estas ditas subclasses, pela simples razão de que respeitam a critérios diversos, bastante independentes.

Uma das caricaturizações feitas da subclassificação nominal é a da sua extensão: "gato" é um nome comum, cncreto, contável, animado, não humano, masculino singular". Em nenhuma outra disciplina se espera que se faça uma coisa destas, pois quando se pede uma classificação, enuncia-se um critério, seja um gás quanto à densidade em determinadas condições de pressão e temperatura ou quanto ao aspecto, etc.. Não temos que exigir que os alunos decorem todas as classificações, mas que saibam aplicar critérios. Várias das gramáticas que vi têm a classificação dos nomes de acordo com esses critérios. Veja-se, por exemplo, "La grammaire interactive" em http://grammaire.reverso.net/index_alpha/Fiches/fiche2.htm que inclui: próprio/comum, "Noms communs et noms propres"; contável/não contável, "Noms comptables et noms non comptables"; animados/não animados, "Noms animés et noms inanimés"; colectivos, "Noms collectifs". Trata-se de uma classificação  semântica inteiramente pertinente por causa das suas consequências sintácticas, por exemplo, no que respeita ao género dos nomes animados, ou no que respeita ao plural, no caso dos não contáveis, ou do uso do artigo indefinido no caso dos não contáveis.

Parece-me que, a TLEBS está nos aspectos mais relevantes de acordo com a gramática escolar francesa e Vasco Graça Moura não tem razão no que escreve.
publicado por Redes às 21:40
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20 comentários:
De Paulo a 30 de Novembro de 2006 às 21:01
Parabéns por este blog tão esclarecedor.
Tem de ser divulgado por todo o lado!


De Lena b a 1 de Dezembro de 2006 às 04:58
Demorei a comentar porque toda esta polémica acerca da TLEBS me parece completamente surrealista. Primeiro, porque, para ser levada a sério, teria de ter começado há dois anos e não apenas agora. Segundo, porque me parece que, de repente, toda a gente se transformou em linguista - até o Miguel de Sousa Tavares e aquele rapaz dos "gato Fedorento". Terceiro, porque, à medida que vou lendo os artigos desses "linguistas de bancada", cada vez me convenço mais de que querem transformar um assunto científico num problema político. E o pior é que estão a conseguir, pois a Ministra da Educação já afirmou recentemente, numa entrevista, que as reclamações deviam ser endereçadas ao anterior Governo, que tinha publicado o Decreto...
Mas agora a gramática também está ao serviço da oposição?!

As questões linguísticas levantadas pela TLEBS só são novidade na sua aplicação aos programas dos ensinos básico e secundário. De resto, trata-se do culminar de um trabalho de investigação iniciado há mais de 15 anos e que ainda se encontra em curso (alguma da nomenclatura está ainda em fase de aperfeiçoamento, bem como a base de dados que os autores divulgaram). É óbvio que qualquer professor que tenha feito a licenciatura numa das variantes de Línguas e Literaturas Modernas já teve contacto com a Linguística Descritiva durante a sua formação e estará, por isso, mais à vontade para compreender o alcance da TLEBS. A resistência vem, sobretudo, daqueles cuja formação académica não contemplou esse tipo de estudo. No meu caso pessoal, a dificuldade que senti, nos primeiros anos de leccionação, residiu precisamente no facto de ter aprendido, durante a minha formação académica, um tipo de análise linguística que não podia aplicar na prática lectiva, por estar desfasada dos programas curriculares do básico e secundário, que privilegiavam a gramática tradicional e normativa. Ora, se a língua é, pela sua natureza, um "objecto" dinâmico, a gramática tradicional e normativa depressa se torna obsoleta e incapaz de dar conta de todos os fenómenos que nela ocorrem. Daí a legitimidade da linguística descritiva. O que mais me espanta é o facto de ser precisamente um assunto em que a investigação universitária se aproxima da realidade quotidiana dos falantes que serve de rastilho a toda esta polémica. Mais: são os mesmos que bradam contra o desfasamento entre o saber académico e a vida real que clamam, agora, contra a aplicação prática do resultado da investigação. E com argumentos do mais disparatado que se pode imaginar, como o de que, supostamente, se quer obrigar as "pobres crianças" a decorar todas as classificações dos nomes, etc, etc, como se a linguística descritiva usasse os mesmos métodos de "análise" da gramática normativa, ou como se os métodos pedagógicos de hoje fossem os mesmos de há 50 anos!


De Redes a 2 de Dezembro de 2006 às 18:11
Lena, gostei do teu comentário.
Acho que temos que nos dar a este trabalho, porque há muitos colegas nossos que deliram com as críticas destes comentadores.
O que eu gostei mais foi do realce que deste a essa assimetria entre as didácticas. As autoras da TLEBS falam em jogo com a língua, mas muitos colegas nossos lêm a TLEBS como uma classificação que os alunos têm que "encornar". Por isso, ficam assustados!
Vê lá se eu estou a pensar mal. A primeira classificação dos advérbios é entre adjuntos, disjuntos, negação e conectivos. Se eu entendo que no 2º ciclo esse critério é demasiado complexo, posso ignorar essa classificação e trabalhar com a distinção entre advérbios de modo, tempo e lugar. Mais tarde, aprenderão que uns aplicam-se ao verbo (gorsso modo) outros também se podem aplicar à frase. E aí sim fará todo o sentido a distinção entre adjunto e disjunto.


De Lena b a 3 de Dezembro de 2006 às 03:50
Pois é, Luís. Podes ensinar às tuas crianças primeiro as noções semânticas e depois as sintácticas, já que estas exigem, naturalmente, uma maior capacidade de abstracção, só possível em anos mais avançados. Como tenho uma turma bastante interessada no 12º, dei-lhes o CD para eles instalarem nos seus PCs e agora estamos a explorá-lo, com a ajuda de fichas feitas por mim. Quando eles não percebem os conceitos, explico-lhes numa linguagem mais acessível e até agora não tem havido nenhuma rejeição.
Quanto às dificuldades de colegas em perceber a TLEBS eu também as tive quando li o decreto, resolvi-as quando comecei a explorar a base de dados e percebi que na base de tido isso está a Gramática Descritiva da Maria Helena Mira Mateus, Ana Maria Brito, Inês Duarte e Isabel Hub Faria. Claro que a base de dados não fornece orientações didácticas. Para isso, é preciso consultar essa gramática descritiva (e eventualmente rever os apontamentos da faculdade) e pensar (coisa que nem toda a gente gosta de fazer). Sabes que mais? Temos de admitir que há colegas nossos que não se sentem à vontade a produzir fichas de trabalho e preferem usar as que vêm já prontinhas nos manuais. Como agora, com estas mudanças, há ainda pouco material "prêt à porter", é natural que entrem em pânico, ou que tenham suspirado de alívio quando a ministra disse que estavam a estudar o assunto. Cá para mim, como ela vai querer contentar, mais uma vez, a opinião pública, ainda vem aí uma suspensão da TLEBS... Prepara-te...


De Redes a 3 de Dezembro de 2006 às 18:15
Se suspenderem a TLEBS, coloca-se um problema muito grave que é o caso dos milhares de professores que já aderiram. Será que constitucionalmente posso ser obrigado a ensinar um conceito que reputo ultrapassado e, mesmo, errado?
Dentro da TLEBS há noções que apenas podemos julgar mais conformes à linguística moderna, mas há outras que julgo corrigirem erros de muitos professores. Entre elas estão os exemplos que eu já dei das definições de sujeito e de predicado que vi em alguns manuais: é possível provar que são falsas.


De Paulo G. Trilho Prudêncio a 1 de Dezembro de 2006 às 16:34
Percebi. E aqui para nós, o VGM tem posições, sobre outras matérias, que até arrepiam.


De ameliapais02@gmail.com a 3 de Dezembro de 2006 às 11:31
Não concordo com a generalidade das suas posições, mas naturalmente, leio-as e respeito-as. Só gostaria que me dissesse se V.Graça Moura é um desses que designa de « comentadores, isto é, essa espécie de intelectuais que sobre quase tudo escrevem...».É que VGM é, que eu saiba, acima de tudo um bom escritor e poeta, um bom conhecedor da língua portuguesa que cultiva, um bom tradutor, um bom ensaísta. Não ganhou nome à custa dos media, mas pelo trabalho desenvolvido nestes campos -que nos da política, aí será outra história...
Eu sou daqueles que aprenderam gramática
tradicional - e que, como professora, experimentou a generativa - antes dela se tornar moda obrigatória - e depois a abandonou, justamente quando ela entrou em moda, por a achar perniciosa, e sempre ensinou o funcionamento da língua e penso ter ensinado literatura e nomeadamente Camões, de forma a despertar o gosto pela leitura e as inteligências dos meus alunos, ao longo de 36 anos...Ensinar a ler, escrever e a gostar de literatura é tarefa de cidadania, também...Não são incompatíveis um correcto ensino da língua com o estudo das suas realizações mais perfeitas - as que se encontram nos autores literários. Destruir tal gosto é o maior crime de lesa-língua, lesa-beleza e lesa consciência crítica e cidadania que pode cometer-se.Com ou sem aval de uma qualquer escola ou teoria linguística ou literária. Além do mais a língua é propriedade de todos os seus falantes e escritores ou simplesmente os que a escrevem e não apenas dos seus linguistas.
E ensinar Camões como fizeram os colegas de Portalegre, é bem pior do que dividir orações n'Os Lusíadas - experiência que não tive, pois tive um grande professor, infelizmente já desaparecido, com quem aprendi Camões, a liberdade de pensar e a vida. Mas se os colegas de Portalegre assim fizeram, certamente foi pelo cuidado posto em aplicar a nova terminologia.O que é estranho é que do Ministério e dos responsáveis autores da Tlebs não tivesse havido um parecer crítico...para mim, quem cala consente.
Já agora: a ideia de uma TLEBS vem do tempo do último governo PS -ode António Guterres e Ana Benavente - continuou a no governo Justino e foi herdado e posta em acto por Graça Seabra, a episódica ministra que apanhou com os disparates de um concurso anteriormente feito e da Tlebs...esta ministra apenas manteve tudo como estava - em nome da continuidade e não ruptura - preocupação que não teve com as sucessivas norma que saem do ME e com o estatuto novo que teve o mérito de, por uma vez, nenhuma estrutura de professores, subscrever...Ah, já agora, o tal abaixo-assinado é encabeçado pelo nome do decano dos linguistas portugueses...
Voltarei sempre ao seu blogue - gosto de ouvir opiniões diferentes, mesmo que, porventura, delas discorde.
Já agora: gostava de saber quem é o, suponho, colega...Por mim identifico-me como Amélia Pais, professora aposentada de Português e muito empenhada, como quando estava no activo.



De Redes a 3 de Dezembro de 2006 às 13:04
Sinto-me lisonjeado pelo seu comentário. Creio reconhecê-la de já ter ouvido falar do seu trabalho.
Escuso de fazer qualquer comentário ao valor do VGM. Também eu já li poesia dele de que gostei bastante. Sei tudo isso, que traduziu, por exemplo, Dante. Está nos meus planos ler essa tradução em conjunto com o original italiano (ou toscano?). A propósito, sei que Dante também foi um grande nome da gramática... italiana. Mas tudo o que eu disse restringe-se à Terminologia Linguística. Se quer saber, se acho que esse escritor de grande mérito faz comentários sobre tudo e mais alguma coisa, exibindo por vezes ignorância desses assuntos. Infelizmente acho que sim. E, neste caso, é evidente.
Essa questão entre linguistas e pessoas da literatura não me interessa absolutamente nada, desculpe-me. O que me interessa é a gramática. Não consta que Vasco Graça Moura, Alzira Seixo ou Eduardo Prado Coelho tenham produzido algum estudo ou obra de divulgação sobre gramática. As duas gramáticas da língua portuguesa mais relevantes são a do Celso Cunha e Lindley Cintra e a da Maria Helena Mira Mateus. O Lindley Cintra, como sabe, além de gramático, foi também um grande filólogo, com estudos de ordem humanística e histórica.
Como professor, interessam-me os estudos sobre gramática e sobre o ensino da gramática. Entre os linguistas que fizeram a TLEBS , há vários com estudos não só sobre Gramática como também sobre o seu ensino.
No que respeita aos colegas de Portalegre, acho errado generalizar a partir da leitura de uma estrofe. Eles poderiam fazer esse trabalho de análise gramatical, apenas em alguns momentos, e, depois, no essencial, fazer a leitura compreensiva e cultural do texto. Além do mais, esse trabalho demonstrado na apresentação em computador poderia ser feito apenas oralmente, ou só com um apontamento rápido no quadro, a seriar frases na sua forma canónica, a identificar funções sintácticas, para mostrar a sua inversão, com aquela ambiguidade muito interessante entre o falso Deus e o verdadeiro Deus. Mas repare que na acção tiveram de apresentar o percurso aos colegas e escolheram esse meio. O mais importante é a nossa preparação linguística, literária e cultural para ler Os Lusíadas, com os alunos.
Sou socialista (não do partido), mas, a política, neste caso, não me interessa. Vi como apareceu a necessidade de uma terminologia, num dos Encontros de Professores de Português em que participei já há vários anos. Hoje, vejo noções gramaticais erradas a ser ensinadas, sem qualquer suporte nem científico, nem didáctico. Eu, por exemplo, fiz alguns erros graves, em parte por causa desta confusão. Foi, na tentativa de os corrigir que estudei gramática e linguística, pois a minha formação inicial é histórica e, só depois, literária.
Acho que temos que colocar as coisas nos seus devidos planos. O meu é o da gramática, da sua necessidade e do modo como deve ser ensinada.


De Anónimo a 3 de Dezembro de 2006 às 15:43
Pois, colega, eu penso principalmente no ensino do português e nos alunos a quem devemos ensiná-lo, como língua e como literatura. Quanto ao resto, temos posições diferentes, apenas. E estamos,
felizmente, num país em que é permitido exprimir opiniões diferentes. E espero que continue a ser - esperei por isso 31 anos.
Se ainda, como me parece, está no activo, boa sorte. Que no seu trabalho se sinta bem, como eu - Eu fui mesmo muito feliz no ofício que me coube durante 36 anos e meio - e penso que não poderia ter escolhido melhor. Ainda hoje, aposentada, sou essencialmente professora. Um abraço


De amélia pais a 3 de Dezembro de 2006 às 15:46
O «anónimo» do comentário anterior sou eu.Falhou a assinatura.


De Lena b a 4 de Dezembro de 2006 às 00:35
Gostava de completar a minha posição com mais uma achega, se me for permitido.
Eu acho que o estudo da língua e o da literatura, embora pertençam a áreas científicas diferentes e, por isso, com uma metalinguagem conceptual própria, devem ser complementares, à medida que os alunos avançam na escolaridade. Enquanto nos níveis mais baixos, por exemplo, o texto literário pode ser abordado de uma forma mais leve e lúdica, nos mais avançados é também útil que os alunos apreendam alguns conceitos da análise literária. No que diz respeito à reflexão sobre a língua, considero útil que ela se faça quer sobre textos literários, quer não literários (ex: jornalísticos, discursos políticos, publicidade, cartas, actas, relatórios, etc.), dado que tanto uns como outros constituem realizações da língua com as quais os alunos contactam e contactarão no seu quotidiano. Não é apenas os estudos literários que ensinam a escrever, nem apenas a linguística, mas a combinação dos dois domínios. E tal como não considero a análise literária um simples inventário de processos estruturais e estilísticos, desgarrado da análise da significação do texto, também não me parece legítimo atribuir à análise linguística a função exclusiva de estabelecer ou "decorar" classificações "taxonómicas" sem se perceber o seu sentido. Fazer isso, tanto no estudo da língua como no da literatura, é prestar um mau serviço.


De Redes a 4 de Dezembro de 2006 às 11:04
De uma forma genérica, concordo contigo, embora queira ressalvar que o debate entre textos literários e não literários no ensino secundário é distinta do debate em volta da terminologia gramatical.
A nossa colega, Amélia Pais, provavelmente, repugna a utilização de textos não literários na disciplina de Português.


De Redes a 4 de Dezembro de 2006 às 11:09
Quero dizer:
De uma forma genérica, concordo contigo, embora queira ressalvar que o debate entre textos literários e não literários no ensino secundário é distinto do que se faz à volta da terminologia gramatical.
À nossa colega Amélia Pais, provavelmente, é que repugna a utilização de textos não literários na disciplina de Português.


De ameliapais a 8 de Janeiro de 2007 às 16:12
Quem lhe disse que me repugna o estudo dos textos não literários? Por acaso conhece-me para o afirmar?
Isso que vem agora com máxima força e desprezo pelos textos literários nos novos programas (bati-me contra eles quando, ainda no activo, fui chamada a opinar - e não por causa da Tlebs de que se falava mas ainda se desconhecida - e em vários sítios onde fui chamada a intervir - é que me repugna. De resto nem novo é: eu ensinei tipos de textos não literários anos a fio - a alunos de 8º e 10º anos. Mas não descurei nunca a literatura - que ajuda a formar a capacidade de lucidez dos alunos e a sua cidadania -como a filosofia, agora igualmente descurada nos programas...E sempre ensinei gramática - que eu aprendera desde a escola primária - e continuei a aprender, já como professora. E mais não digo -não gosto quando se especula sobre o que me repugna ou não. Lembro apenas que, como dizia creio que, se me não engano,há já uns anos, a Helena Buescu, quem sabe ler Gil Vicente e Camões saberá também ler um horário de caminhos-de-ferro - e o contrário já não é assim.
Respondi tardiamente, mas respondi. E por aqui me fico.


De Redes a 10 de Janeiro de 2007 às 21:52
Ainda bem que não tenho razão no que disse. Foi uma inferência errada da minha parte.
Estou do seu lado, quando defende a prioridade do texto literário cuja complexidade justifica plenamente a sua valorização didáctica. O romance, por exemplo, consegue integrar variadíssimos tipos de texto, como a carta, o discurso declarativo, o debate, o poema, o texto argumentativo e o anúncio publicitário.
Apesar disso, não estou certo da justeza da afirmação da Helena Buescu. O horário de caminho de ferro parece ter uma relação mais íntima com uma tabela de dupla entrada, como as que aparecem em Matemática, Estudos Sociais, Gramática, etc.. Essa aprendizagem faz-se melhor com o próprio horário escolar!
Vejo que concorda com a ideia de que os programas de Língua Portuguesa integrem os principais tipos de texto, assim como o conhecimento das situações da vida em que ocorrem.


De rendadebilros a 4 de Dezembro de 2006 às 21:53
Percebo ( quase) nada de blogues, algo ( pouco) de Língua Portuguesa. Li as suas opiniões que são claras e esclarecedoras. No entanto, continuo a ter dúvidas quanto a todas as mudanças por portaria, com a arrogância de quem diz que a Gramática de Lindley Cintra é para ir para o lixo e opiniões do género. Mais ainda: com tantos problemas em aprender a ler e a escrever, a compreender um texto ( saberá do que falo em relação ao 2º ciclo, por exemplo), quais as vantagens? para pôr os Professores a estudar de novo? Mas há novidades que não são novidade nenhuma, nem sei onde foram buscar essa ideia da novidade. Para citar um pequenino exemplo, a classificação dos substantivos em epicenos, sobrecomuns, comuns de dois já eu as estudei há mais de quarenta e cinco anos na 4ª classe. Agora ninguém aprende a ler melhor nem a escrever nem a compreender por saber mais gramática...que têm que decorar ... ou «tiram pelo sentido»? Mas é apenas uma opinião de uma Professora muito ignorante...com vontade de aprender, mas algo que faça sentido... Algumas "tiradas" da nova gramática não têm sentido nenhum. Se era para mostrarem "cultura" linguística também podemos pegar no Lindley Cintra e fazemos todos um figurão, enquanto não a deitarmos fora... E as frases... afinal voltaram já a ser frases e as orações voltaram a sê-lo... Este faz e desfaz não garante credibilidade... Acho eu... Mas quem sou eu , se já todos os Professores aderiram à nova moda. Parece que sou só eu o "velho do Restelo"... Grande Camões, grande Pessoa que não sabiam de TLEBS... Pena não ser eu como eles...Entretanto, vamo-nos divertindo com uma listinha de palavrinhas juntinhas ao nome...
Parabéns pelo seu blogue.


De Redes a 4 de Dezembro de 2006 às 22:32
Obrigado pelo seu comentário.
Não entendi essa do Lindley Cintra! Quem disse tal coisa? Não há que deitar para o lixo nenhuma gramática! A colega acabou de dizer que muita terminologia da TLEBS já estava nas suas gramáticas e está também na do Lindley Cintra!
O Lindley Cintra era um grande estudioso, era um verdadeiro gramático. Se ele tivesse feito uma gramática posterior àquela, já seria diferente. Não sei, mas acho que ele ficaria ofendido se soubesse que consideram a gramática dele como uma espécie de culto religioso. Mas, repare, até árvores de frase, ele tem!
Ouvi alguém lamentar que na TLEBS os complementos circunstanciais tinham sido substituídos por complementos e modificadores adverbiais e preposicionais. Mas, olhe que também já não estão na gramática do Lindley Cintra!
Como sabe, há muitas gramáticas diferentes, algumas com termos diversos, cada uma com as suas teorias, outras, com erros evidentes. Eu acho que é necessário pôr todos a falar da mesma maneira, que mais não seja por causa dos exames.
Incomoda-a assim tanto que em vez de oração, passe a dizer frase? Repare que depois joga melhor com a noção de frase complexa.
O Camões sabia a linguística toda ou quase - a da sua época. Para seguir o exemplo dele, temos que saber um pouco da que pertence à da nossa época! Ou acha que não evoluímos nada, desde então?
Não tem que juntar palavrinhas nenhumas ao nome. Uma coisa de cada vez. "Dos seguintes nomes, diz quais são contáveis e quais são não contáveis". Esperar que a criança decore o palavreado classificador de um nome é absurdo porque cada classificação tem o seu critério.


De rendadebilros a 5 de Dezembro de 2006 às 17:07
Sobre a Gramática do Lindley Cintra, ouvi uma dessas senhoras linguistas , certamente, muito competentes, a dizer, na televisão, isso mesmo, que era para deitar fora. Foi , provavelmente, uma precipitação, mas disse-o. E algumas disseram-no aos alunos que leccionam. Um destes alunos com quem falei usou este argumento para me convencer que esta Gramática é que está certa e é a melhor.
Não é realmente a Bíblia, mesmo a Bíblia vai tendo várias interpretações, consoante quem a lê, o momento, o lugar.
Creio que , a haver evolução e introdução de novas(?) terminologias, devia começar-se devagar ( as próprias autoras confessam que vai sendo alterada à medida que forem sendo percebidas algumas incoerências - a palavra é minha-) e pelo 1º ciclo. Ninguém começa a casa pelo telhado.
E a mim já nada me incomoda... se lhe pareceu isso, desengane-se. Se calhar, o meu problema é mesmo este - só penso nos alunos que, com terminologias novas ou velhas, vão continuar a ter muitos problemas, nomeadamente, na pronúncia das palavras, na compreensão de textos... provavelmente, a culpa não é deles, nem dos Professores, nem dos Pais, nem das Terminologias. Se calhar, o problema é a época em que vivem . Tanto lhes quer dar que o tempo escasseia para tanta actividade e novidade... Mas não foi sempre assim? Com terminologias novas ou não, que eles aprendam a saborear as palavras e a deliciarem-se com a Língua Portuguesa... Afinal, pode parecer, mas nem estamos em desacordo. Estou só um bocadinho cansada de experiências...
A si, que parece muito jovem e activo, só me resta felicitá-lo mais uma vez por este blogue e agradecer-lhe as suas palavras e o tempo que me dedicou.


De Redes a 5 de Dezembro de 2006 às 22:16
Os linguísticas da FL de Lisboa têm muito respeito pelo Lindley Cintra. Tanto que a foto dele aparece na página do Departamento de Linguística.
O que eu tenho ouvido algumas destas linguistas dizer é que esta polémica mostrou que alguns comentadores ignoram a Gramática, pura e simplesmente, qualquer que ela seja.
De resto, concordo consigo, a mudança de terminologia não vai resolver muitos dos problemas do ensino do Português. Trata-se apenas de fazer com maior correcção o ensino da gramática que é apenas uma das componentes do ensino da língua materna.


De amelia pais a 6 de Dezembro de 2006 às 21:36
http://www.fcsh.unl.pt/docentes/cceia/terminologias.htm
- a ler


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