Terça-feira, 2 de Janeiro de 2007

Predicativo do sujeito

Eu não estava a ser exacto quando, em resposta à colega Inês Pinto, nos comentários a Carta ao Sr. José Nunes, promotor de uma petição para revogação da TLEBS, afirmei o seguinte:
"À partida, não concordo com o dicionário da Terminologia Linguística, quando admite um sintagma preposicional como predicativo do sujeito. Para mim, tem de ser um Sintagma Nominal ou um Sintagma Adjectival."
Descobri isso ao encontrar na gramática do Lindley Cintra e Celso Cunha um exemplo de predicativo do sujeito do seguinte género:
(1) O homem estava entre a vida e a morte.
A parte da frase assinalada a itálico seria para mim um predicativo do sujeito aceitável.
As minhas objecções eram na verdade de ordem semântica e não sintáctica.
Também, perante uma frase como a seguinte,
(2) O carro é do meu pai,
eu não teria dificuldade em aceitar o grupo assinalado com predicativo do sujeito, porque reconheceria aí a transformação do grupo nominal "o carro do meu pai" numa frase em que o verbo copulativo se limita a fazer uma ligação.
Concluí, então, que tinha caído no mesmo tipo de armadilhas que denuncio ao criticar os colegas que dizem aos alunos que o sujeito é "aquele que realiza a acção". Se, em vez de (1), a frase fosse
(3) O homem estava entre o Rossio e os Restauradores,
eu diria erradamente que estava perante um verbo locativo e um complemento preposicional, mas a frase tem exactamente a mesma estrutura da anterior.
A minha dificuldade compreende-se por quase não aparecerem nas gramáticas casos de grupos preposicionais como predicativo do sujeito e, ainda menos, com o significado de lugar, como era o caso em apreço. Mesmo no meu exemplar da Gramática... da Maria Helena Mira Mateus, os exemplos de predicativo do sujeito são grupos nominais ou grupos adjectivais.
Mas agora parece-me aceitável que qualquer complemento preposicional que se ligue ao sujeito através de um verbo copulativo, seja um predicativo do sujeito. O que está em causa é o tipo de ligação que o verbo realiza. Com efeito, se iniciarmos uma frase da seguinte maneira
(4) Camões esteve...,
as perguntas possíveis são as mais diversas - ONDE? COMO? O QUÊ? - e o tipo de grupos que lhes podem responder são também dos mais variados - grupos nominais, adjectivais, adverbiais e preposicionais, revelando, portanto, a significação indefinida do verbo.
Se o início da frase fosse
(5) Camões morou...,
a pergunta suscitada seria apenas ONDE? e a resposta um complemento preposicional de lugar.
 Portanto, em "Camões esteve em Macau", "em Macau" é predicativo do sujeito.
publicado por Redes às 01:57
link do post | comentar | favorito
|
16 comentários:
De Pedro Manuel Mendes a 2 de Janeiro de 2007 às 17:20
No GramaTICa.pt, há uma discussão interessante sobre isto. Aparece lá um argumento óptimo para dizer que todos são predicativos do sujeito, baseado na possibilidade de coordenação.


De Redes a 5 de Janeiro de 2007 às 11:57
Sim, já li. Uma intervenção do João Costa, salvo erro.
Experimentemos:
(1) Camões esteve doente, em Macau.
(2) Camões morou doente, em Macau.
Em (1), podemos remover ou manter qualquer um dos grupos, "doente" ou "em Macau" e a frase continuar correcta, mostrando que ambos desempenham a mesma função.
Em (2), apesar de "doente" ser admissível, não cumpre a exigência mínima do verbo e temos que acrescentar um complemento preposicional ("em Macau"), mostrando que desempenham funções diferentes.


De Pedro a 2 de Janeiro de 2007 às 17:21
Já agora, descobri e já assinei a seguinte petição:

http://tlebs.professores.googlepages.com/home

Bom ano!


De Redes a 5 de Janeiro de 2007 às 11:42
Olá,
Também assinei esta carta - junto com mais 10 pessoas.
Acho que é um posição justa: queremos que a Tlebs seja revista e que não percamos uma orientação tão importante para o ensino da gramática.
Acho que a nossa obrigação é estudá-la, aplicá-la e criticá-la.
Não sei se muitos dos que contestam a Tlebs sabem que não há aula que não seja uma experiência pedagógica! Caem no paradoxo de só querer experimentar coisas que já foram experimentadas e que o não serão por isso mesmo.
Ora, o professor experimenta conteúdos, recursos e procedimentos no seu trabalho normal. Quando o faz, não é um cientista, é apenas professor. Quando o professor experimenta, não são os alunos que são cobaias, são todos os intervenientes que têm uma nova EXPERIÊNCIA.
Os resultados da experiência passam não como a confirmação ou a infirmação de uma hipótese científica, mas como um ganho pela positiva ou pela negativa que é divulgado na comunidade escolar sob a forma de ondas que se espalham e entrechocam, porque os professores não aplicam protocolos científicos de forma a tornar as experiências comparáveis. As variáveis são imensas a começar pelos próprios professores, pelo conhecimento que têm e pela sua maturidade pedagógica, pelos alunos, e pelas mais variadas condições de trabalho.
A inovação está sempre a aparecer e vem de todas as direcções: uso de recursos online, como webquests ou a plataforma Moodle , alterações nos conteúdos de várias disciplinas pelo avanço normal da ciência, recomendações sobre leitura compreensiva e leitura em voz alta, aperfeiçoamento de texto, tipos de discurso, individualização da aprendizagem, etc.


De joana a louca a 8 de Janeiro de 2007 às 16:14
Essa petição surge anónima.Porque será?Assim pouca validade terá...


De Redes a 10 de Janeiro de 2007 às 22:09
Não é uma petição! É uma carta dirigida à Sra. Ministra da Educação. Eu assinei-a com cerca de 10 pessoas. Colocámo-la na Net para dar conhecimento do que fizemos, para quem quiser proceder da mesma maneira, a possa imprimir, modificar ou não, e enviar, como manifestação de uma opinião partilhada. Repare que no "site" não há nenhum meio de assinar electronicamente o texto. Concordo consigo que era bom que as pessoas que concordam e enviam a carta dêem a cara que é o que eu estou a fazer aqui.
Achamos que o número de pessoas, embora tenha a sua importância, não é o decisivo. Os governantes têm que decidir em função dos resultados esperados e da sua própria apreciação do valor intrínseco dos vários argumentos.
É bom que as pessoas contra, a favor ou assim-assim, expressem a sua opinião.


De Redes a 10 de Janeiro de 2007 às 22:14
Digo "(...) para que quem quiser proceder da mesma maneira, a possa imprimir, modificar ou não, e enviar (...)"


De Paulo G. Trilho Prudêncio a 3 de Janeiro de 2007 às 22:49
Olá Luís. É um exercício muito interessante assistir ao desenvolvimento desta esclarecedora polémica. Que se eternize :)


De Fernando Oliveira a 12 de Janeiro de 2007 às 06:28
Voltei aqui, desta vez para colocar este comentário: tomei a liberdade de citar o seu blogue num texto acerca da TLEBS, que lancei ontem nas 'tretas e...outras'.
Parabéns pelos textos e pelos comentários que os mesmos têm merecido.
Bom fim de semana!


De nandokas a 14 de Janeiro de 2007 às 18:26
Grato pela sua visita ao 'post' acerca da TLEBS que publiquei no meu blogue.
Dos seus textos publicados no blogue de que é autor pode deduzir-se que a sua formação académica e a sua actividade de professor estão intimamente relacionadas com as questões do estudo e do ensino da língua portuguesa. O que não é o meu caso, visto que, quer pela formação académica quer pela actividade profissional, estou mais à vontade nas áreas da contabilidade e da gestão. Aqui a língua é importante pelo rigor das palavras a utilizar nas definições das considerações técnicas e dos princípios contabilísticos e na elaboração das peças de informação financeira. E, por isto, sinto-me como David perante Golias no que à questão da TLEBS diz respeito.
A minha posição foi tomada, por isso, apenas na condição de um cidadão comum. E até aceito que, na altura de considerar os prós e os contras, o coração tenha tido mais peso que a razão.
Para terminar, quero dizer-lhe que me sinto deveras lisongeado pelo conteúdo do comentário que se dispôs a publicar no meu blogue.
Fernando Oliveira


De Redes a 15 de Janeiro de 2007 às 00:07
Obrigado.


De JOANA A LOUCA a 16 de Janeiro de 2007 às 08:51
O SEM REDE FICOU SEM REDE DESDE 2 DE JANEIRO?iSSO INQUIETA-ME


De Redes a 17 de Janeiro de 2007 às 10:30
Wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen.

L. Wittgenstein

(Sobre o que não se pode falar, devemo-nos calar)


De joana a louca a 17 de Janeiro de 2007 às 12:34
Ah! Entendido - ainda bem que colocu a tradução-eu nºao sei akemão.Saberei de outras coisas.Pouco e ooucas, claro.Um pouco de portiguês - que ensinei sempre - textos e gramática.


De joana a louca a 17 de Janeiro de 2007 às 12:41
Ah!Agora entendi.Como não sei alemão, ainda bem que colocou a tradução.Aliás são muito mais as coisas que ignoro, do que aquelas que julgo saber.E das poucas de que julgo saber alguma coisa, estão a língua e a literatura portuguesa.


De Redes a 19 de Janeiro de 2007 às 23:32
Também não sei alemão por aí além. Vou sempre lendo e exercitando. Outro dia, li no blog Postal (http://postal.blogs.sapo.pt/) que Unamuno detestava ler traduções. Acontece o mesmo comigo. Não foi uma questão de purismo. Foram as falhas dos tradutores que me levaram a sentir falta de confiança e a ir buscar os originais - em francês, inglês, espanhol, italiano e alemão. Claro, faço-me à estrada sempre na companhia de dicionários.


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Julho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28

30


.posts recentes

. Processos de transformaçã...

. "Colectivos" - o partido ...

. Nicolás Maduro defendido ...

. Avaliação da Homeopatia

. Deve o exame condicionar ...

. Bloomberg desvaloriza efe...

. Tratados ortográficos int...

. Acordo Ortográfico: Decla...

. Aniversário da Revolução ...

. Encontro sobre o Acordo O...

.Blogs das minhas desoras

.Extreme Tracking

eXTReMe Tracker

.Wikipédia

Support Wikipedia

.arquivos

. Julho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Julho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Maio 2015

. Março 2015

. Janeiro 2015

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Outubro 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Outubro 2007

. Junho 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

blogs SAPO