Sexta-feira, 1 de Junho de 2007

Gramática generativa

Penso que o fracasso da primeira tentativa de introdução da gramática generativa se deveu a vários motivos alheios ao valor científico e pedagógico da teoria propriamente dita que se tem afirmado como um dos principais paradigmas do estudo da linguagem no nosso tempo. Acho que a gramática generativa foi apropriada por teorias psicológicas e pedagógicas que se revelaram erradas. Paradoxalmente, uma dessas teorias era rival científica do generativismo e usava um étimo similar na sua designação - psicologia genética. Mas este adjectivo, como derivado de "genes" está mais adequado a Chomski do que a Piaget, que pretendia referir a origem das estruturas cognitivas noutras, anteriores.
A psicologia genética piagetiana redundou pedagogicamente em construtivismo, o movimento que nos diz que o que interessa é a experiência de aprender e de descobrir e não tanto o objecto dessa aprendizagem.
Reli recentemente as quinhentas páginas de Teorias da linguagem, teorias da aprendizagem 1 , o acalorado debate que decorreu entre Piaget e Chomski, em 1975, com partidários de um e doutro lado. Defensores de Piaget como Bärber Inhelder suavam para demonstrar que a linguagem era descoberta a partir das experiências da fase sensório-motora e encontravam o muro das lacónicas e claras posições dos adeptos das teorias generativas: há uma gramática que está em nós, uma faculdade da linguagem que nos permite descobrir a língua existente no nosso meio social, familiar. Não há lugar para a descoberta de uma qualquer génese da linguagem a partir de outra coisa qualquer (como a interacção com os objectos e com o meio).
A teoria generativa no ensino enfermou dos mesmos problemas do construtivismo pedagógico, em geral: eliminação de terminologias e definições a aprender e a decorar e centralização da aprendizagem na experimentação de frases, exactamente como em ciências da natureza se pretendia que o jovem utilizasse o método científico para descobrir o seu meio. Como isto falhava, precisamente porque as árvores de frase são um modo de representação e não um método de descoberta, os profesores, a maior parte dos quais não sabia o que era a gramática generativa, caía noutro erro: procurar no vocabulário da gramática generativa, os equivalentes dos termos da gramática dita tradicional. Assim, o sujeito, era o sintagma nominal, o predicado o sintagma verbal e, por aí adiante.
O que nos interessa é que a gramática generativa e várias outras teorias linguísticas e da filosofia da linguagem mostraram que vários conceitos gramaticais e maneiras de ensinar estão errados e que devem ser alterados.
No que respeita à sintaxe, por exemplo, como mostra Chomski em Syntatic Structures 2, o conceito de frase dominante anteriormente era o de uma cadeia, na qual se vão inserindo palavras. Chomski mostrou que tal conceito era erróneo e insuficiente para explicar como os falantes produzem frases, porque não dá conta da inserção programada de constituintes em pontos diferentes e em simultâneo na frase.
A mesma sequência de palavras pode corresponder a frases diferentes, como pode ver no seguinte exemplo. Imagine um anúncio dum programa da Antena 1: "Júlio Machado Vaz conversa sobre sexo com Alexandra Lencastre"
Como o verbo "conversar" é usado frequentemente com o sentido elíptico de "conversa com os espectadores", uma interpretação mais picante desta sequência poderia sugerir que o tema da conversa seria "sexo com Alexandra Lencastre", com a Alexandra ausente.

Uma interpretação mais austera seria uma conversa com a Alexandra como interlocutora:


A gramática que eu aprendi na escola não dá conta das diferentes integrações de um grupo de palavras na frase a concretizar diferenças de sentido.

1Lisboa, Edições 70, 1977.
2 Publicada pela primeira vez em 1957 (Paris, Mouton e The Hague)
3 O exemplo apresentado é uma adaptação de Pinker, Steven, The Language Instinct, London, Penguin, 1994, p. 103.
publicado por Redes às 21:48
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6 comentários:
De Paulo G. Trilho Prudêncio a 3 de Junho de 2007 às 23:56
Ufa... Um belo exemplo de simplificação. Tem tanto de erudito como de divertido: brilhante. [] Paulo.


De Ana da Palma a 9 de Junho de 2007 às 16:14
Pois...a questão da pragmática também não era contemplada pela gramática no meu tempo.
Olha recebi uma pequena iguaria! Não sei se já foi traduzida, mas intitula-se Echolalies . Essai sur l'oubli des langues " de Daniel Heller-Roazen , Paris, Seuil , 2007. O original foi publicado em 2005 em Nova Iorque, com o seguinte título: Echolalias : On the Forgetting of Language , pela Zone Books em 2005.
Ainda não acabei de ler, mas trata da evolução das línguas. Começa com a referência a um trabalho de Jakobson sobre o imenso leque de sons que um bebé pode reproduzir e que perde ao adquirir uma só língua, por atrofia das capacidades fónicas...muito interessante! As referências utilizadas para demonstrar o objectivo do autor são variadíssimas e remetem para a mitologia, a psicanálise, a teologia, a literatura e a linguística.


De Redes a 10 de Junho de 2007 às 01:06
Aqui trata-se de gramática. Há uma interpretação mais aceitável em função de convenções não-linguísticas. A pausa a meio pode ajudar a determinar qual das duas frases possíveis se trata.
O esquecimento no bebé corresponde a uma selecção da língua a adquirir. É uma pequena confirmação do "LAD" (language aquisiction device) que está muito activo nos nossos primeiros tempos de vida.
O esquecimento histórico das línguas tem a ver com a história política, as dominações, colonizações, invasões, adaptações e factos de evolução fonética.
Deve ser uma obra muito interessante!


De George a 10 de Dezembro de 2007 às 06:46
Queridos amigos, vocês criticam o modelo da Gramática Ge(ne)rativa, mas vocês realmente sabem os fundamentos filosóficos e matemáticos que fizeram Chomsky elaborar sua proposta nesses moldes? Acho bom vcs pesquisarem mais. O ideal do fazer metodológico em lingüística não está, necessariamente, atrelado aos nossos modelos de representação da língua , e cada matriz lingüística é totalmente coerente dentro do modelo em que se dispõe a conceitualizar.
p.s. amigo(a) do comentário crítico, eu considero relevante fazer observações sobre o modelo ge(ne)rativo, mas acho mais importante ainda saber escreve adequadamente o nome dos cientistas, o certo é Chomshy (sem i). E em segundo lugar o modelo ge(ne)rativo jamais foi uma proposta pedagogista, isso ocorreu bem depois que Chomsky desenvolveu o modelo dele, a proposta inicial era descrever a Aquisição de Linguagem Humana.


De Redes a 22 de Janeiro de 2008 às 02:28
Obrigado pelo comentário.
É essa deriva para a didáctica da língua que é problemática.


De Redes a 22 de Janeiro de 2008 às 02:31
Correcto: é Chomsky.
Obrigado.


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