Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2005

Para acabar de vez com a nomenclaturaPolítica

Já todos sabemos isto: eles circulam entre os cargos disponíveis de acordo com um "top", um "ranking" que têm combinado entre eles. Nós, cá em baixo, limitamo-nos a votar por grosso, depois da parte do retalho, tratam eles. Quem estiver abaixo, esteja onde estiver, dá o lugar a quem vem descendo. Por exemplo, Fernando Gomes cai da cadeira de ministro, e Nuno Cardoso afasta-se e dá o lugar. Será o que acontecerá entre Carmona e Santana.

O objectivo destes senhores pode ser bem mais prosaico do que imaginamos. Pode ser, por exemplo, cumprir o número de anos necessário para ter acesso a uma choruda reforma. Então vá de deixar a Câmara Municipal, por uns tempos, a um ascendente sequioso de poder, e reivindicar a cadeira de deputado ao otário que a ocupa por substituição, só para "fazer tempo".

Na hora de cozinhar as listas, todos sabemos que, em cada partido, há lugares cativos que existem por causa do dito "ranking", e há os novos que o Secretário-Geral ou o Presidente quer impor, quer em lugares elegíveis, quer em lugares não elegíveis. E, só por fim, os que são recomendados pelas distritais.

Enfim, cada um vai, subindo, ganhando o seu lugarzinho, pondo-se em bicos de pés, quando necessário, para ver se entra no "ranking". Muitos estão há dezenas de anos nisto, nesta coisa dos vasos comunicantes das autárquicas, para as legislativas e, destas, para as europeias, sem que nós nos consigamos lembrar do seu rosto, do que nos disse e do que fez para que tivéssemos votado nele. Só nos lembramos da cara do secretário-geral e pouco mais. E assim se faz uma carreira, com as amizades certas e com algum mérito, talvez.

Que aconteceria se os vasos fossem cortados? Se quem estivesse numa câmara, não se pudesse candidatar a deputado por estar comprometido com um mandato? E, se o quisesse fazer, tivesse que abandonar de vez o cargo autárquico? Se perdesse a eleição, voltaria ao seu trabalho anterior à função autárquica, mas não recuperaria o lugar.

No mínimo, os cargos públicos deveriam ser desempenhados inteiramente e, uma vez eleito para um novo cargo, haveria lugar a uma única decisão, por um ou por outro. Mas isto é apenas o que eu considero o mínimo de decência. Pois, por minha vontade, quem ocupasse um cargo público elegível, não se poderia candidatar a outro.

publicado por Redes às 00:08
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Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2005

SócratesPolítica

Sou bastante conservador nos meus hábitos eleitorais. Em vez de procurar saber quem devo eleger, tento, antes, descobrir se é a altura de deixar de votar em quem costumo. E nunca se me ofereceu situação mais fácil do que a actual. Não é por o nome Sócrates me levar para um dos terrenos em que gosto de estar: o da reflexão, do debate, da crítica.


Por esse lado, votaria neles todos, um de cada vez, está claro: Sócrates, Platão, Aristóteles, São Tomás, Bacon, Espinosa, Descartes, Voltaire, Kant, Hegel, Marx, Nietsche, Wittgensetein, etc. Porque foi assim que fiz a minha formação filosófica: historicamente. Sempre convencido de que o último arrumava todos os anteriores. Devo dizer que nessa altura tinha parado em Marx, que com uma das "teses sobre Feuerbach" tinha arquivado todos os filósofos anteriores.


Nada mais falso. Depois de me ter distanciado de Marx e dos seus seguidores, recuperei o tempo perdido, olhando para muitos dos anteriores, e outros, posteriores, que estavam marginalizados.


Não que isso venha ao caso com este Sócrates. É só a questão do nome. Não sei se ele passou por isto que eu disse. Em todo o caso, parece-me que não é tema que possa discutir com Santana.


A verdade é que gostaria de pensar um bocadinho sobre política, gostaria que fosse mais difícil decidir para exercitar o meu gosto pela reflexão. Não, não é preciso.


Sim, num dia, em que até o Bloco de Esquerda se inclinou reverentemente perante a vidente de Fátima, não é mesmo possível pensar.


É só esperar e votar.

publicado por Redes às 23:24
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Sábado, 12 de Fevereiro de 2005

O regresso dos examesEducação

teach.jpg

(Imagem retirada de http://www-pors.hit.no/~trondc/teach.gif)


Paulo Portas, na entrevista que concedeu a Judite de Sousa, declarou que o pior que podia acontecer era o próximo ministro da educação ser “mais um teórico”. No seu programa, propõe-se o estabelecimento de exames de final de ciclo, que justifica dizendo: “não concebo o ensino sem notas e sem exames”. Defender os exames, para o líder do PP, não é, pois, teoria. Para o PP, a paixão pela educação faz-se, talvez, por... crenças, convicções. Se uma página da história da educação em Portugal corre mal ou gera muitas decepções, a solução para o PP é voltar atrás. E este regresso ao passado parece ser um valor em si próprio, o que é sintomático desta campanha que se diz 'pelos valores'.


A questão é que valores educativos são os do PP. Neste caso particular, os exames implicam também uma preferência, uma prioridade que resulta e evidencia valores.
Como se sabe, os exames foram abolidos com base no argumento de serem considerados um meio de selecção social. A ideologia pedagógica dominante nas décadas de 70 e 80, reprovava o papel da escola como meio de confirmar e legitimar privilégios de classe e reproduzir as desigualdades sociais. Nessa altura, no nosso meio estudantil universitário, a crítica era feita em termos da oposição entre avaliação contínua e exames.


Como resultado desta onda em que pontuam as chamadas ciências da educação, como os respectivos ramos especializados da psicologia e da sociologia (onde se destacam as obras de Bourdieu), não só os principais exames nacionais foram abolidos no currículo escolar, como os professores foram pressionados a dar mais relevância à avaliação de diagnóstico e à avaliação formativa do que à avaliação sumativa (terminologia que entrou – e bem - no vocabulário educativo pela mão de Benjamin Bloom).


Isto é, o professor avalia mais o resultado do seu trabalho do que o desempenho dos seus alunos. As notas resultam hoje de uma mistura de coisas de ordem diversa, como as atitudes, os valores, o comportamento e o aproveitamento. A escala de classificações no ensino básico foi reduzida de 0 a 20 para 1 a 5, diminuindo a amplitude da expressão de diferenças entre os alunos. Inventou-se a distinção abstrusa entre retenção (ao nível do ano lectivo) e reprovação (no final de ciclo). Na primeira, o aluno não transita de ano lectivo, depois do professor ter cumprido uma série de procedimentos, que começam no segundo período, no outro o aluno não transita de ano lectivo, por uma decisão feita no 3º período.


Percebe-se facilmente que o valor que preside a este estado de coisas é o da igualdade de oportunidades, ou talvez, o da igualdade pura e simples, na medida em que se tenta escamotear as diferenças individuais. A expressão “facilitismo”, que o vulgo, que não sabe ldquo;eduquês”, utiliza, refere precisamente esta situação: hoje é muito mais ácil concluir o nono ano de escolaridade sem saber muito mais do que antigamente era necessário para a quarta classe. Caricaturando a situação, podemos dizer que a escolaridade obrigatória passou de quatro para nove anos e que hoje os alunos têm mais do dobro do tempo para aprender as mesmas coisas do que antigamente.


Se isto é verdade para um número apreciável de alunos que prossegue de nível em nível sem aproveitamento, não o é para muitos outros que seguem com sucesso os programas do segundo e terceiro ciclos que são bastante exigentes. Mas convenhamos que todos os testes confirmam isto: muitos alunos progridem no sistema sem um desempenho satisfatório.


Contudo, esta facilidade em cumprir a escolaridade obrigatória revelou ser um presente envenenado: todos fazem a escola toda, mas ela perdeu valor. Porque quase todos a fazem sem dificuldade, o mercado de trabalho deixou de dar valor a essa marca e muitas famílias que passam por dificuldades económicas e sentem a necessidade de pôr os filhos a trabalhar, não vêm na escola um meio de os preparar para o desempenho de qualquer profissão.


Assim, se é verdade que preparamos alguns jovens para prosseguir estudos, continuamos a ter muitos jovens sem qualquer reparação para nada no final do ensino básico. O abandono escolar continua a ser um flagelo, precisamente porque não conseguimos convencer as famílias da utilidade da escola. Como os professores do secundário e do superior se queixam da qualidade dos novos alunos, temos que conceder que também a preparação para o prosseguimento de estudos deixa muito a desejar.


A instauração da avaliação sumativa ao nível do ano de escolaridade e os exames de final de ciclo vêm precisamente contra este conceito de igualdade substancial que se pretendeu impor no sistema educativo.
Valorizar-se-á o mérito absoluto dos alunos relativamente aos programas oficiais e não o seu percurso de aprendizagem nem o esforço desenvolvido em ultrapassar as suas dificuldades. Como resultado, os que não têm mérito suficiente para ultrapassar essas barreiras serão eliminados. A qualidade dos sobreviventes será superior. Com este darwinismo educativo, os professores terão turmas mais homogéneas e alunos mais competentes para seguir programas mais exigentes. A qualidade subirá.


O aumento da competitividade no sistema educativo, talvez traga um melhoria das aprendizagens de todos e não só dos sobreviventes, pois todos sabem que, para ter sucesso, é preciso trabalhar mais. Mas é líquido que uma maior selecção resultará em maiores taxas de insucesso escolar. E a sensação de insucesso levará ao abandono escolar, a não ser que se criem soluções profissionalizantes antes do fim da escolaridade obrigatória. Se não se fizer isto, podemos ter como certo um aumento do abandono escolar.


O exame resultará pois em coisas contraditórias: mais insucesso, mais abandono escolar e... maior qualidade dos sobreviventes. Quanto aos que ficam pelo caminho, podeis estar certos que são os que pertencem a estratos sociais de mais baixos rendimentos, os que têm dificuldades a todos os níveis, na habitação, no emprego dos pais e até na alimentação. Talvez seja nestas variáveis que se deve investir para realizar efectivamente a igualdade de oportunidades: removendo os obstáculos que impedem as crianças de ter sucesso.


O sistema de avaliação tradicional baseia-se na turma como forma de organização e no ano como unidade de valiação. Não se cumprindo as condições de passagem de ano, é necessário repetir tudo, mesmo as disciplinas em que o aluno teve sucesso.
Quando um aluno repete um ano lectivo, ninguém tem em consideração o ponto em que aluno ficou. Esta noção de repetição, de “repetente”, parece-me anacrónica face aos avanços da pedagogia (pense-se por exemplo em soluções do tipo da “aprendizagem de mestria”). Será que o Estado não consegue criar soluções organizativas e pedagógicas para as escolas que criem simultaneamente maior qualidade, maior efectividade dos programas e que sejam simultaneamente inclusivas, que não sejam um simples regresso ao passado?

publicado por Redes às 18:07
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