Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2006

Fraccionários

Na minha leitura do ensaio de João Peres sobre a TLEBS, eu especulava:
«Quanto aos fraccionários que ele considera que se deveriam incluir, também eu andei de volta deles. Concluí que não estavam considerados como subclasse por não serem palavras, mas grupos nominais. Quando dizemos "um quarto dos alunos", "quarto" parece ser um nome.»
Contra esta minha observação, interveio tempodividido, com mais um dos seus elípticos, mas produtivos, comentários:
«E em: "cada vez que" - exemplo, na TLEBS, de conjunção subordinativa temporal no domínio das classes de palavras - "vez" parece-lhe o quê?»
Fui assim levado a reconsiderar a possibilidade de os fraccionários serem uma subclasse dos quantificadores, como locuções:
«
Não há a menor dúvida que há argumentos sólidos para questionar a ausência dos fraccionários, entre os quantificadores... Seriam locuções, então...»
Tenho agora nas minhas mãos a recente Gramática de Clara Amorim e Catarina Sousa, com apoio científico de Mário Vilela e Alina Vilalva, publicada pela Areal. Na página 198, reproduzem-se argumentos similares aos meus para rejeitar a inclusão dos fraccionários e dos multiplicativos na classe dos quantificadores:
- em "um quarto de litro de vinho", "quarto" é um nome;
- em "meio frango", "meio" é um adjectivo.
- em "dei-te o dobro do tempo para fazeres o teste", "dobro" é um nome.
(Estes exemplos são meus, mas feitos de acordo com os da referida gramática)
publicado por Redes às 22:01
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Domingo, 17 de Dezembro de 2006

Artigo a metro do Sr. José Júdice

Num artigo, publicado no jornal Metro, lido por milhares de pessoas no dito meio de transporte, o Sr. José Júdice resolveu também pôr a sua colherada na Tlebs. Que melhor objecto erótico-sentimental poderia ele encontrar para preencher o seu espaço de prosa dedicada a milhares de encarregados de educação que por aquele meio de transporte transitam? Depois de dissertar sobre as experiências dos nazis nos campos de concentração, que coisa mais tlebática poderia haver, foi o senhor José Júdice, com um entreolhar malicioso para o leitor, procurar um exemplo similar do que no tempo dele fazia rir a juventude, umas passagens dos Lusíadas, talvez, adivinhemos, o Canto IX. Que coisa tlebática teria esse potencial erótico? Adivinhe, caro leitor! Nada mais, nada menos que o termo "conjunção coordenativa copulativa". Quando li isto fartei-me de rir porque, imaginem, dei por mim a colocar aqui o Sr. José Júdice a cu pular com o "e" e o "também", não fosse o termo "cópula" ser desconhecido da generalidade dos leitores do Metro. Talvez não seja esse o caso e aconteça que muitos dos seus leitores se lembrem de ainda na década de 70 estarem a decorar as conjunções coordenativas copulativas para um teste de Português.
publicado por Redes às 20:59
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Carta ao Sr. José Nunes, promotor de uma petição para revogação da TLEBS

(O texto, ao ser aqui editado, sofreu algumas modificações de forma)

A sua petição leva-me a colocar as seguintes observações:
 
- a Terminologia Linguística vem-nos dizer quais são os termos gramaticais mais adequados, direi mesmo, mais certos.
- a Terminologia Linguística foi experimentada antes de ser generalizada.
- quando se faz uma experiência pedagógica, não há "cobaias", há apenas a experiência que todos temos que fazer em todas as coisas na vida, essa coisa que muitos quereriam perene, mas que também acaba um dia, com melhores ou piores experiências.
- a Nomenclatura Gramatical de 1967 está actualmente errada. Continuar a aplicá-la é impossível para mim, porque estudei e sei que está errada. Não ensino coisas que sei erradas aos meus alunos. Há mais de 20 anos, que estamos quase todos ilegais!
- dou-lhe exemplos de coisas que quase todos os professores do 1º e do 2º ciclo ensinam que contradizem a NGP de 67: artigos, possessivos e demonstrativos como petencentes à classe dos determinantes; grupo nominal, grupo verbal e grupo móvel; frase simples e frase complexa.
- além disso, há imprecisões conceptuais e rupturas no ensino da gramática que a TLEBS vem resolver. Por exemplo, devido a uma lacuna programática no 2º ciclo, há professores que dizem que o predicado é o verbo; outros que dizem que o predicado é o verbo com os seus complementos (obrigatórios ou acessórios). Exemplifico:
Na frase,
"O governo revogou a Tlebs",
(1) uns dirão que o predicado é "revogou";
(2) outros dirão que é "revogou a Tlebs"
Os que optam por (2) estão de acordo com o que os professores do 1º ciclo ensinaram sobre os grupos de palavras da frase, já referidos acima, nominal, verbal e móvel. Os que optam por (1), entram em ruptura com o 1º ciclo. É como se dissessem: esqueçam isso do grupo móvel, do verbal e do nominal que isso agora não interessa para nada.
Quem tem razão? Agora o senhor julgue. Trata-se de gramática muito simples:
  • O verbo "revogar" exige um complemento.
  • "Revogar" é revogar "alguma coisa" que se acrescenta ao verbo.
  • É isso mesmo, o complemento directo, "a Tlebs" tem que fazer parte do predicado, porque é um grupo de palavras que está agarrada ao verbo.
Mas o senhor, com esta petição, quer que a má experiência continue.
 
Vale a pena continuar uma má experiência?
 
Reconheço que a intervenção da Professora Maria Helena Mira Mateus nesse programa da Antena 2 cria confusão. Além de não responder de uma forma assertiva a algumas das questões colocadas pelo jornalista - tenho a certeza que poderia fazê-lo -, revelou insegurança, quanto a mim injustificada.
 
Por exemplo, a propósito da distinção entre complementos e modificadores, peço-lhe que verifique se o seguinte trabalho é ou não é exequível para os alunos do 3º ciclo.
 
  • Vamos analisar a frase "Camões esteve em Macau".
  • "Em Macau" é um complemento ou um modificador?
  • É um complemento se o verbo exigir a sua colocação. É um modificador se o seu acrescento for opcional e não obrigatório.
  • "Em Macau" é um complemento porque o verbo "estar" exige um grupo de palavras à sua direita.
 
Agora teste a antiga NGP:
  • Acha que "em Macau" é uma circunstância de lugar de "estar"?
  • O que significa "estar" sem especificação de lugar ou qualidade, ou tempo, ou o que quer que seja?
  • Ele exige um complemento para significar alguma coisa!
  • Repare que a palavra "circunstancial" significa "acessório", "facultativo".
  • Por um lado, temos o acontecimento, por outro, temos circunstâncias de "tempo", "lugar", "modo" e um número quase ilimitado de outras "circunstâncias" (Como me lembro de tentar decorá-las! Companhia, instrumento, intenção, finalidade, causa, etc.)
 
Não tenho a menor dúvida que na frase abaixo, "em Macau", seria aceitavelmente, um complemento circunstancial de lugar, isto é uma circunstância da acção:
 
"Camões escreveu parte dos Lusíadas em Macau."
 
Seria um modificador, diríamos hoje, uma vez que reservamos a palavra "complemento" para as palavras que respondem a uma exigência do verbo.

Penso que, neste debate, todos podemos entrar desde que tenhamos a humildade de ouvir e testar os argumentos de todas as partes. É impossível intervir sem tratar da coisa propriamente dita: a gramática.
publicado por Redes às 20:36
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Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2006

João Peres apresenta uma crítica da Terminologia

(Agradeço ao Paulo Prudêncio esta referência).
João Peres, linguista da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, apresenta um extenso ensaio de crítica da TLEBS. Para o ler, vá a http://jperes.no.sapo.pt/peres_elementos_tlebs.pdf.
Prefiro, por agora, fazer observações pontuais, na difícil digestão desta leitura.
1.João Peres concorda com a introdução da classe dos quantificadores, mas faz críticas contundentes à definição das subclasses e à inclusão de certos determinantes indefinidos  e relativos (como "certo", "outro", "cujo"). Não sei se tal problema não decorrerá da prioridade dada a critérios diferentes (comportamento sintáctico versus semântico). Parece-me evidente a dificuldade em explicar a um aluno que "cujo" quantifica o que quer que seja.  Mas, por outro lado, em certas expressões "certos", não nos diz, que, pelo menos, não são todos?
Quanto aos fraccionários que ele considera que se deveriam incluir, também eu andei de volta deles. Concluí que não estavam considerados como subclasse por não serem palavras, mas grupos nominais. Quando dizemos "um quarto dos alunos", "quarto" parece ser um nome.
2. Nas páginas 21 a 23 do documento PDF acima referido, João Peres critica imprecisões conceptuais das definições de subordinante e de subordinada. Concordo inteiramente com ele, mesmo numa perspectiva sintáctica, generativa, pois a subordinação faz-se frequentemente em relação a um dos constituintes da frase e não relativamente à própria frase.
(1) Os alunos que tiveram positiva no último teste estão dispensados do trabalho final.
A frase assinalada está subordinada a "os alunos" pois, a frase "os alunos estão dispensados do trabalho final", pura e simplesmente não existe.
Quero dizer que eu sempre entendi isto assim, pelas próprias árvores das frases.
(2) Não me agrada que andes à chuva.
A frase assinalada é o sujeito da frase como um todo. A frase "não me agrada" não é frase nenhuma, portanto não pode ser subordinante.
Tanto em (1) como em (2), a subordinante é a frase toda.
Gostaria de saber o que diriam as linguistas que fizeram a TLEBS, a respeito da crítica de Peres, nestes dois casos. A objecção da simplificação didáctica não é aceitável aqui, dada a complexidade de algumas definições da TLEBS. Entretanto, vou continuar a ler o texto de Peres, com a seguinte curiosidade em mente: "Que TLEBS faria ele?"
A minha problemática não se situa entre TLEBS, objecto que ainda estou a digerir, e não-TLEBS, mas sim em "Como ensinar gramática da língua portuguesa, hoje?". A este respeito, tenho-me entretido a comentar o que a TLEBS e os seus críticos dizem.
publicado por Redes às 14:37
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Sábado, 9 de Dezembro de 2006

Carlos Ceia - mais um a zurzir na Terminologia

Carlos Ceia, professor de literatura da Universidade Nova de Lisboa, acrescentou mais uma peça ao debate em volta da TLEBS. Fustiga o modo como a TLEBS foi aprovada em portaria. Sobre isso, a única coisa que me ocorre dizer é que, como professor de Português, há muito que sinto a necessidade dum documento oficial a explicitar termos e conteúdos de gramática para o ensino básico.

Para ler o artigo do Carlos Ceia, clique em: http://www.fcsh.unl.pt/docentes/cceia/terminologias.htm.

Carlos Ceia reconhece vantagens à TLEBS:

"Começo por estes, por serem de fácil arrumação num único parágrafo: a construção de uma base de dados terminológica de fácil consulta a todos os utilizadores e a tentativa de construção de uma terminologia linguística como meio de criar um vocabulário abundante na descrição técnica e científica da língua, reduzindo a um denominador comum as metalinguagens oblíquas que os professores de Português e os construtores de manuais escolares foram criando ao longo das últimas décadas, ao sabor muitas vezes da sua imaginação individual, em vez de agirem em obediência a descrições científicas do funcionamento da língua."

Nesta citação, há uma ênfase nos conteúdos a ensinar. Ora, o desenvolvimento da linguística não conduziu apenas a uma descrição mais apurada da língua, mas também a propostas metodológicas para a língua materna. Novos termos a utilizar arrastam mudanças conceptuais que influem tanto na didáctica como no conteúdo.

Ceia contesta que se faça um documento regulador dos termos gramaticais destinado apenas ao ensino básico e secundário. A Nomenclatura de 67 foi aprovada num outro regime político. Acho que, no actual regime, seria um abuso o Governo pretender impor uma terminologia aos media ou à Universidade ou ao cidadão comum. Tampouco, a terminologia gramatical é a própria língua. É um conteúdo científico e didáctico que apenas às escolas interessa.

A intervenção de Carlos Ceia é legítima neste âmbito - o escolar - pois quer como cidadão, quer como universitário, pode estar preocupado com o que se ensina nas nossas escolas. Mas quanto ao seu magistério, os universitários podem propor os termos gramaticais que quiserem. Terão apenas que garantir que os futuros professores de Português conheçam criticamente aquela que é adoptada pelo Ministério da Educação.

Ceia compara as duas gramáticas, a do Lindely Cintra e a da Maria Helena Mira Mateus, para dizer que a que o ajuda a compreender como funciona o Português e a escrever sem erros é a primeira. Para mim, são as duas válidas, apesar da Gramática da Maria Helena Mira Mateus ser mais actual. Depois de a ter lido, concluí que ela resolvia problemas científicos que existiam na gramática do Lindley Cintra, graças a uma muito séria actualização científica. Contudo, reconheço alguma razão a Ceia no que respeita ao facto da gramática de Lindley Cintra ser mais apropriada para orientar o uso da língua. Isso deve-se à enorme quantidade de material linguístico, à enorme profusão de exemplos e de classificações. Mas isso mesmo é dito no preâmbulo da Gramática da Maria Helena Mateus quando declara que não pretende ser normativa. São, ambas, companheiros insubstituíveis para os que se interessam a fundo pelo estudo da nossa língua.

Mas Carlos Ceia confunde as duas designações de "gramática", a gramática como competência do falante e a gramática como descrição científica dessa competência:

"Em si mesma, a questão da actualidade de uma gramática não é uma necessidade absoluta, porque uma gramática pode durar séculos, porque as suas normas gerais se podem aplicar aos diferentes usos da língua e suas constantes renovações."

Não é porque os usos linguísticos se alteraram que necessitamos de uma nova gramática, mas porque o conhecimento que temos sobre o funcionamento da nossa língua progrediu. Ninguém necessita de saber que uma frase portuguesa tem, geralmente, sujeito e predicado, para fazer frases correctas, com sujeito e predicado. Ninguém precisa de saber quais são "as partes do discurso" para as utilizar.

A gramática é necessária como reflexão e como norma culta do uso da língua. Acreditamos que o conhecimento gramatical explícito contribui para uma melhor competência linguística, na medida em que o aluno conhecerá melhor "padrões" e "variações", tornar-se-á capaz de produzir textos com uma maior complexidade e mais rigorosos nos planos da sintaxe, da morfologia, do léxico e etc.. Digo "contribui", porque sei que há outros contributos essenciais, como a leitura, a participação em debates, a escrita, literária, escolar, científica, etc..

Carlos Ceia parece opor-se a que o texto literário - dá o exemplo de uma questão de exame d'O Memorial do Convento - seja objecto de uma análise gramatical. Mas isso é o que tem sempre acontecido. Usam-se os textos literários para análise gramatical. Basta ver Lindley Cintra: para cada caso, vai buscar uma frase tirada duma obra literária. Não faz o mesmo a Gramática da M. H. M. Mateus, que se socorre de frases gramaticais possíveis na língua portuguesa, ajustadas ao assunto em análise e não de exemplos literários.

Supostamente, os exercícios de gramática deviam ir de encontro à necessidade de compreensão da obra lida ou da análise da sua complexidade textual, mas, quando se trata de avaliar, usa-se o texto presente para analisar e classificar o que se quiser.

No exemplo apresentado, - “2.2. Identifique, classificando, os três diferentes actos ilocutórios presentes no texto.” - acho que o juízo feito por Carlos Ceia não tem nada a ver com o conceito investido na tarefa. O exercício podia ser analisar o sujeito e o predicado de uma certa frase e teríamos o mesmo problema. Pelo contrário, a distinção entre tipos de actos ilocutórios tem uma relação muito mais próxima com o sentido do texto do que, por exemplo, as funções sintácticas.

A verdade é que raramente a gramática é necessária para a compreensão da leitura. Vem, é claro, a propósito, quando a frase é complexa e extensa e o leitor se perde, identificar funções sintácticas, coordenações, subordinações. Mas para adquirir a competência para estes casos, é necessário obter conhecimento metalinguístico com frases mais simples. Talvez seja melhor então fazer a aula de gramática com a linguagem do dia a dia e não com frases de textos lidos. Se é isso que Carlos Ceia propõe, acho que concordo com ele. Porque vários estudos têm mostrado que a consciência metalinguística se forma desde o início no sujeito falante e está presente em muitos géneros populares como as lengalengas e os trava-línguas e é inteiramente pertinente analisar e propor frases com os mesmos paradigmas, para reconhecer as "partes do discurso", por exemplo.

Infelizmente, mais à frente, Ceia, parece defender que a gramática deve estar relacionada com o texto literário. Depois da denúncia que faz do exercício gramatical sobre o texto de Saramago, ficamos sem preceber como é que devemos usar a gramática.

Se Carlos Ceia acha que a "implicatura conversacional", a "pressuposição", assim como "os actos ilocutórios" não contribuem para a compreensão da língua que falamos, eu diria, de qualquer língua, é porque discorda da validade científica ou filosófica destes conceitos e tem que o demonstrar.

Os actos ilocutórios são uma teoria muito interessante que, diz muito simplesmente o que fazemos quando falamos: informar, ordenar (ou pedir, ou solicitar), exprimir sentimentos, comprometer-nos, declarar realidades novas (como por exemplo, baptizar, proclamar), etc. Se um aluno do secundário, estudou isso, eu acho que tem validade a sua aplicação na análise de texto, especialmente se vier a propósito da compreensão do texto.

Carlos Ceia parece pretender que a definição de "nome" de Dionísio Trácio é mais fácil do que a da TLEBS (que não é nenhuma). Dizer que nome é "aquilo que significa uma substância, e que pode ser própria ou comum” seria mais fácil para os alunos. Eu imagino-me a dizer isso aos meus alunos! Talvez se rissem, e perguntassem "o que é substância"? O dicionário da TLEBS não tem sequer definição de nome. Também não uso as definições da TLEBS que reconheço terem de ser científicas. Trata-se só de termos e definições e não têm qualquer tratamento didáctico. A definição que dou de "nome" não é para eles escreverem. Nunca lhes irei perguntar "O que é um nome?", para efeitos de avaliação. Mas vou-lhes dizendo: os nomes são as palavras que designam as coisas, as pessoas, os seres vivos, os lugares, os materiais, mas também as ideias, os sentimentos, etc.. E dou exemplos. Mas compreendo muito bem Dionísio Trácio que fez ciência da linguagem adequada ao seu tempo.

Ao contrário do que sugere Ceia, as distinções entre contável e não contável, animado e não animado e humano e não humano são distinções semânticas que têm consequências sintácticas, tal como a distinção entre próprio e comum. Além disso, são de compreensão fácil e algumas têm uma tradição antiga no ensino da gramática do inglês e não são menos pertinentes na nossa língua. Não espero é que nenhum professor vá exigir aos pequenos que as apliquem todas de chofre a um nome, como parte obrigatória da sua classificação.

A ciência admirável dos gregos está hoje ultrapassada em muitos aspectos. Por exemplo, Ceia dá o exemplo da definição de pronome por Dionísio Trácio para a contrapor à definição da TLEBS: “uma palavra empregada no lugar de um nome, revelando pessoas definidas”. A definição da TLEBS é, como já dissemos, científica e operativa. Ora, eu sei que no meu nível de ensino não posso usar a do Dionísio Trácio porque sei que está errada e a da TLEBS porque é inacessível.

Para mostrar que a primeira está errada, basta mostrar os seguintes exemplos:

(1) Aquele rapaz de que te falei estava ali. O que faz ele?

(Nesta frase, "Ele" substitui "aquele rapaz de que te falei").

(2) No Natal deram-me um livro.

(me substiui um grupo preposicional, "a mim", que numa língua com declinações corresponderia a um nome no dativo, mas não na nossa).

(3) O que querias dizer com isso?

(isso está em vez da frase anterior, dita pelo interlocutor)

Compreendendo o que a TLEBS diz sobre o pronome, "que é uma classe fechada", eu sei que posso defini-la extensionalmente. Eles podem de facto aprender todos ou quase todos os pronomes. Podem ver através de exercícios de substituição, por exemplo, na análise de frases de tipo corrente, como usamos os pronomes e é isso que importa.

Por causa de Ceia comparar a nossa situação com a dos Estados Unidos fiz uma pesquisa na Internet. Não encontrei ainda referências satisfatórias sobre os EUA, para me poder pronunciar, mas no que respeita à Inglaterra, a ajuizar pelas propostas de exercícios de preparação para os exames do GCSE ou do Advanced Level (exames correspondentes ao final do nosso Básico ou Secundário, 16-17 anos), a gramática aparece totalmente informada de conceitos recebidos da gramática generativa: grupos de palavras ou "sintagmas" (noun phrase, prepositional phrase, etc.), nomes contáveis e não contáveis, classe dos determinantes, determinantes distributivos ("distributives" como "all, both, half"), quantificadores, modificadores, tipos de texto, noção de coesão textual, a separação entre as duas disciplinas, "english language" e "english literature", etc.. Para ver alguns "sites" sobre gramática escolar em língua inglesa, clique em:

Ceia parece opor a reflexão gramatical à leitura, à interpretação e à fruição do texto. Isso é um velho problema que se põe a qualquer exercício analítico, qualquer que ele seja. Já aqui falei da divisão em orações dos anastróficos versos de Os Lusíadas. Evidentemente, a análise centrada no significante distrai da história, do prazer rítmico e rimado que o conjunto da estrofe dá. Sobre isso, já ouvi, salvo erro, Umberto Eco, a propósito da dissecação do texto literário. Repito: qualquer análise!: nada mais aborrecido que a leitura das Confessions de Rousseau oferecida por Derrida na Grammatologie. Por isso mesmo, os nossos actuais programas de Português, obrigam o professor, em grande parte do tempo lectivo, a calar o comentário literário ou retórico, ou etimológico ou gramatical e ler apenas para compreender e fruir (Leitura Recreativa e Leitura Orientada). Temos feito tanto disso, que ignorámos a gramática!

A dado passo, Ceia cita uma obra que eu gostaria de ler: Stephen Pinker, The Language Instinct que é uma crítica ao ensino da gramática, mas que, curiosamente, na sua própria paráfrase, parece contradizer tudo o que ele disse antes, ao querer defender a gramática tradicional que se faz na leitura dos textos - contraditoriamente, como vimos. Não o tendo lido, tudo o que sei sobre Pinker, põe-no ao lado de Chomsky, com a gramática generativa e contra a gramática dita tradicional, normativa. Por isso, critica o ensino duma gramática alheia àquela que os alunos já têm, denuncia a imposição da gramática culta.

Há um erro de leitura do que é a TLEBS que não sei se é propositado, se uma negligência. A TLEBS deve fixar os termos certos que devemos utilizar. As definições que lá estão são para nós, não para os alunos. Implicam da nossa parte alguma formação linguística e bom senso pedagógico. Cabe a alguns de nós a tarefa produzir gramáticas e manuais, para tornar mais fácil o trabalho de todos.

publicado por Redes às 19:17
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Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2006

Uma objecção de VGM: as três conjugações

[A Portaria n.º 22 664]" Refere as três conjugações (B2.1.2), mas esquece-se de dizer qual é o tema (em "a", em "e" e em "i") que respeita a cada uma delas. Ficará à vontade do freguês?"

De "As vestais", artigo no DN, de 6 de Dezembro. que me foi enviado pelo A. J. Soares, a quem agradeço.

De facto, na Nomenclatura de 1967 há uma referência explícita aos três temas verbais no item relativo às três conjugações. Mas pode-se considerar uma excepção, pois não há lá praticamente nenhuma definição.
Tal como a Nomenclatura de 1967, também a Portaria é uma lista de termos. Podemos fazer objecções do mesmo género relativamente a qualquer outro item da Nomenclatura, uma vez que esta é ainda mais exígua do que a agora aprovada. Por exemplo, porque é que o paradigma em -o, do verbo pôr não aparece na Nomenclatura?
VGM exagera a nossa ignorância, de pobres professores: teme que nós interpretemos mal as "três conjugações". Quem sabe se não vai algum professor dizer aos meninos que a primeira conjugação é a do paradigma do verbo partir.
No Dicionário..., há, além da lista de termos, a definição de cada um. No item B2.1.2, define-se tema verbal e as três conjugações são referidas na definição de vogal temática e, mais à frente, num item dedicado.
A Terminologia aparece concretizada para os professores com o dicionário, que, embora não seja uma gramática e, ainda menos, um programa ou um manual, é bastante esclarecedor.
Para o caso em apreço, julgo que ninguém teria que o consultar. Mas que fazer com objecções destas?
publicado por Redes às 22:35
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Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2006

Língua versus literatura

A polémica entre a Inês Duarte e o Vasco Graça Moura sobre os programas do secundário foi apenas a espuma de superfície duma problemática muito mais complexa em que intervieram professores da Faculdade de Letras, dum e doutro quadrante.
Os argumentos mais importantes andam à volta da tipologia de textos, conceito directriz dos novos programas.
Inês Duarte defende que é necessário que a disciplina de língua portuguesa treine os alunos na leitura e na produção de diferentes tipos de texto. A leitura literária não é suficiente para criar uma competência mais geral que poderia ser transferida eficazmente para textos de outros géneros. No momento presente, não estou em condições de ajuizar sobre esta tese.
O que repugna aos professores de literatura é a subordinação do texto literário a um tipologia específica. Ora o texto literário não se pode caracterizar linguisticamente. Esse é um dos motivos que temos para considerar insuficiente a função poética de Jacobsen. O texto literário, como nos diz Victor Aguiar e Silva é-o por pertencer a um sistema de comunicação em que é lido como tal.
Suponho que a caracterização linguística do texto enquanto "argumentativo" respeita a itens específicos e não à literariedade. É este "sermão" que tem marcas de texto argumentativo, independentemente da sua literariedade. Porque continuamos a ler Vieira? Não certamente para discutir se ele tinha ou não razão nas teses que defendia. Hoje, é lido por motivos literários. Mas que há de errado em considerá-lo "argumentativo", sem recusar a sua literariedade?
Há uma motivo poderoso que é a inserção do texto numa história, num sistema de comunicação literário, numa etapa da nossa história cultural. Isto para mim é muito importante.
Voltarei a este assunto...
publicado por Redes às 19:43
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