Domingo, 18 de Fevereiro de 2007

Entre o libelo e a atitude analítica

Há vários textos que não nos dizem verdadeiramente nada de novo. A única coisa que fazem é ruído. É o caso de várias das vozes que se opõem à Tlebs. Procuram apenas argumentos para desvalorizar esse importante documento e nesse afã, mostram, amiúde, ignorância linguística e, pior, gramatical, na acepção mais simples do termo. Confundem noções antigas com inovações, vejam-se os célebres casos: "nomes epicenos" e "conjunção coordenativa copulativa". Ignoram o que nós ensinamos actualmente: veja-se o escândalo a propósito das noções de "determinante" e de "nome". Ora a Tlebs é um reportório científico mas com finalidade didáctica. Como é que pessoas que ignoram o pano de fundo do ensino da gramática podem validamente intervir neste assunto?
Mas outras vozes há que têm um recorte mais analítico, reflexivo, e que, por isso, devem ser objecto da nossa atenção. Primeiro que tudo o ensaio do João Peres, já aqui referido, que tem objecções duma grande validade. Mas que, infelizmente, também tem uma outra dimensão: a do libelo, com conclusões que não servem para nada.
Agora encontrei um outro trabalho que quero recomendar a todos que por aqui passam: D´Silvas Filho faz um comentário que dá para ler, publicado  no Ciberdúvidas, (http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias.php?rid=680) e que tem uma página com muito aturado trabalho que ainda vai merecer a minha atenção (http://www.dsilvasfilho.com/index.htm).
publicado por Redes às 23:40
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O manifesto do Vasco Graça Moura

Li no Ciberdúvidas mais um artigo do Vasco Graça Moura sobre a Tlebs, publicado no DN em 31/01/2007. Trata-se de uma verdadeiro libelo. VGM parece assumir-se como o Gandhi da desobediência civil relativamente à Tlebs. Por um lado, diz que os professores têm formação, têm validade intelectual, mas por outro, oferece-lhes uma palavra de ordem bastante simplória, e, como vou mostrar, impossível de executar.

No artigo, VGM, retira do célebre ensaio do João Peres, já aqui muitas vezes referido, e de outras intervenções deste contraditório polemista, o que lhe interessa. Não diz nunca que quase todas as críticas feitas por si próprio à Tlebs são cruelmente rejeitadas ou desvalorizadas pelo João Peres. Dá assim a ideia de uma  solidariedade entre todos os que se opõem à Tlebs que é falsa.

Vasco Graça Moura conclui assim o seu libelo:

"No vazio instaurado, a si, caro professor, o que lhe resta é ir ensinando, provisoriamente, com base na Nomenclatura Gramatical Portuguesa de 1967 e na Gramática de Celso Cunha e Lindley-Cintra. Não serão perfeitas nem inteiramente satisfatórias, mas pelo menos não bloqueiam as suas possibilidades de se assumir a sério como professor de Português.

Até a TLEBS ser objecto de uma revisão decente, só resta um caminho: se o ministério se obstina em não repor a vigência da Nomenclatura, reponhamo-la nós!"

A minha primeira objecção é formal: necessitamos nós que alguém nos diga o que devemos fazer? Reivindico o seguinte: não sou menos do que o João Peres ou o Vasco Graça Moura no que respeita ao meu trabalho.

A segunda é: rejeito liminarmente o "nós" do Vasco Graça Moura.

Muitos professores ensinam há muitos anos. Tem ideias feitas sobre o que é ensinar gramática. Sabem que há contradições de conteúdo e terminológicas que têm com os colegas, os programas, etc. que a Tlebs ambiciona resolver.

Mesmo que quisessem, não poderiam seguir a palavra de ordem do VGM, pelas seguintes razões:
  • Muitos (como eu) só conheceram a Nomenclatura Gramatical de 67, por causa da Tlebs. Apenas sabiam vagamente da sua existência por referências feitas em vários textos.
  • A Nomenclatura não é seguida há mais de 30 anos, nem pelos programas oficiais, nem pelos professores, nem pelos manuais.
  • Que eu saiba, não há nenhum manual ou gramática escolar que cumpra essa Nomenclatura.
  • Lindley Cintra e Celso Cunha não cumprem a Nomenclatura. A gramática destes autores inclui muitos conceitos gramaticais que o Vasco Graça Moura criticou na Tlebs! Nem se percebe por que razão a aconselha.
Se eu me achasse no direito de propor uma palavra de ordem aos meus colegas, o que eu lhes diria, é o que eu faço:
  • Estudem a Tlebs.
  • Se ficarem convencidos da justeza de uma proposta que lá esteja, modifiquem o conteúdo e o modo do vosso ensino, apenas nessa medida.
  • Não caiam no engodo da polarização entre anti-tlebs e pró-tlebs. Isso é uma falsa questão que tem muita coisa escondida.
  • Sobretudo, ensinemos Gramática, com preocupação de actualização científica e adequação pedagógica e didáctica, isto inclui a Tlebs e muitas outras coisas.
publicado por Redes às 22:30
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Segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2007

TLEBS: Corrigir e voltar atrás?

Vem esta questão a propósito da TLEBS, que se diz que vai ser suspensa no próximo ano.
Acontece que, pela leitura da TLEBS, e pela polémica que ela suscitou, encontrei erros no meu ensino da gramática. Confirmei também que algumas das minhas concepções divergentes em relação a vários colegas meus, eram justas.
Vou dar exemplos de apenas três erros (há mais!) que eu não quero fazer.

Sujeito

Diz a gramática do Nunes Figueiredo e Gomes Ferreira (1) que o sujeito é o "o ser ou coisa sobre que se faz uma afirmação". É uma simplificação semântica que se pode eventualmente aceitar como conveniente, em termos didácticos, sobretudo, se depois ensinarmos correctamente como se determina o sujeito. No item seguinte, considera que podem desempenhar a função de sujeito, um substantivo, um pronome, um numeral, ou mesmo, uma frase.
Determinemos então o sujeito nas próprias frases fornecidas pelo autor da primeira gramática que estudei em profundidade (4º ano dos liceus):
1. O cão é um animal doméstico.
O sujeito é "cão".
Se substituirmos o dito substantivo por um pronome a frase fica:
2. Ele é um animal doméstico.
O sujeito passa a ser "ele". Mas repare-se que "ele" substitui o grupo nominal e não apenas o nome.
Vejamos uma frase com atributos e complementos determinativos:
3. O cão do meu amigo parece um animal selvagem.
Neste caso, o sujeito seria igualmente "cão", pois "do meu amigo" seria complemento determinativo. O predicativo do sujeito seria "animal", pois "selvagem"  seria um atributo. Quer dizer, não se considera o sujeito como um grupo de palavras à excepção do caso de uma "oração substantiva".
Esta maneira de considerar a sintaxe da frase, como uma linha sequencial em que os elementos se aglomeram sem qualquer hierarquia que não seja a distinção entre elementos fundamentais e elementos complementares da oração é a que resulta da Nomenclatura de 67 (2) que nunca cumpri no meu ensino.
A maior parte dos professores, suponho, ensina que
- em 1. o sujeito é "O cão";
- em 3.  o sujeito é "O cão do meu amigo".
Esta análise estaria de acordo com a Nova Gramática do Português Contemporâneo de Lindley Cintra e Celso Cunha (3) que está informada com as aquisições da gramática generativa, no que respeita à hierarquia dos elementos da frase, e não é "tradicional" no mau sentido do termo.
Não faz qualquer sentido a utilização da expressão gramática tradicional a não ser para a diferenciar da gramática generativa que se refere à competência linguística do falante. Há uma gramática que se adquire e outra que se ensina e que se estuda e que é uma continuação, um desenvolvimento da primeira e está ligada a usos linguísticos que eu creio mais sofisticados, ligados ao exercício da escrita e da leitura, como preparação para funções sociais cada vez mais exigentes. Ora, a gramática escolar que é uma coisa que se ensina e que é analítica e normativa, nunca foi alheia às aquisições do conhecimento linguístico. Chamar-lhe tradicional pode conotá-la com atraso. A necessidade sentida de criar a Nomenclatura de 1967 e de fazer a TLEBS prova que estamos perante uma realidade dinâmica, em constante evolução.

Predicado

Ainda de acordo com Nunes Figueiredo e com a Nomenclatura de 67, o predicado ou é o verbo ou é o verbo e a qualidade que se lhe acrescenta no caso dos verbos de significação indefinida. Os complementos directo e indirecto, assim como os complementos circunstanciais, são "elementos complementares da oração", não fundamentais, que se acrescentam ao verbo.
Assim:
- em 1., o predicado seria "é animal";
- em 3., "parece animal" (pois todos os outros elementos são complementares).
Vejamos como seria em frases com os complementos acima referidos:
4.  Ele foi para Lisboa.
5. A polícia judiciária do Porto interrogou o presidente do FCP.
6. O escritor dedicou o livro à sua mãe.
Teríamos:
- em 4. "foi" como predicado e "para Lisboa" como complemento circunstancial de lugar;
- em 5., "interrogou" como predicado e "o presidente do FCP" como complemento directo;
- em 6., "dedicou" como predicado e "o livro" e "à sua mãe", como complementos directo e indirecto, respectivamente.
A maior parte de nós ensina que o predicado é:
- em 4., "foi para Lisboa";
- em 5. "interrogou o presidente do FCP";
- em 6., "dedicou o livro à sua mãe".
Note-se que há uma contradição na gramática de Nunes Figueiredo quando reduz o sujeito ao substantivo e, mais à frente, na "transformação passiva" considera como sujeito o grupo nominal inteiro. Creio que foi forçado a isso pela própria lógica da passiva (4). É de acrescentar que esta redução do sujeito ao nome e do predicado ao verbo contradiz a própria definição semântica que dá das duas funções (5).
Conheço colegas que ensinam as duas funções tal e qual como Nunes Figueiredo, com o argumento de que "a gramática generativa acabou".
Para a TLEBS, fazem parte do predicado, os complementos e os modificadores do verbo e do grupo verbal. Antes de ter lido a TLEBS, predicado e grupo verbal eram a mesma coisa para mim, embora sob uma perspectiva diferente. Resumindo: só incluía no predicado os elementos obrigatórios, exigidos pelo verbo.
Alteremos 5. para exemplificar:
7. Ontem, a polícia judiciária do Porto interrogou o presidente do FCP.
Neste caso, eu não incluiria "ontem" no predicado. Com efeito, "ontem"  modifica o grupo verbal, mas não faz parte dele, pois não é exigido por "interrogou" que apenas exige um complemento directo. Depois de analisar a árvore da frase, cheguei à conclusão que a TLEBS estava certa. Em termos didácticos, também é mais simples dizer que é tudo o predicado. Além do mais a TLEBS coincide com Cintra e Cunha (6)

Subordinante e subordinadas

Outra mudança que eu acho que se impõe foi colocada pelo João Peres como uma crítica à TLEBS. Eu considero-a inteiramente justificada. Tudo se resume ao seguinte: as orações que desempenham funções sintácticas fundamentais da subordinante, integram-na.
Vejamos:
8. O Público diz que ontem a polícia judiciária do Porto interrogou o presidente do FCP.
Neste caso, não podemos considerar "O público diz" como subordinante porque esta expressão não é uma frase, pois falta-lhe o complemento directo que é "que ontem a polícia judiciária do Porto interrogou o presidente do FCP".
Penso que, em geral, a lógica está do lado da didáctica. Quanto mais lógico, mais simples. Se distingo frase (ou oração, se quiserem) de não-frase, não vou depois infringir a regra dizendo que uma expressão sem sujeito ou sem complemento directo é uma "oração" ou frase "subordinante". Duma forma geral, a falta de lógica apela ao decorar daquilo que o professor enuncia.
Agora pergunto: que autoridade tem o direito de me obrigar a ensinar coisas erradas que nem didacticamente se justificam? Mais: quem pode exigir aos professores formados pela TLEBS, que voltem a ensinar erradamente?

NOTAS

(1) Nunes Figueiredo, J. M., e Gomes Ferreira, A., Compêndio de Gramática Portuguesa, Porto, Porto Editora, 1975, p. 53.
(2) Nomenclatura Gramatical Portuguesa, Portaria nº 22664, Diário da República, I Série, 28 de Abril de 1967.
(3) Cintra, Lindley e Cunha, Celso, Nova Gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Sá da Costa,1992,  p. 122.
(4) Nunes Figueiredo, J. M., e Gomes Ferreira, A., p. 62
(5) Idem, p. 55.
(6) Veja (3)
Para a análise do João Peres referida acima, por favor, veja  http://jperes.no.sapo.pt/
publicado por Redes às 13:31
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