Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Ana e a árvore da vida (3)

Episódio 1 - Filha de Eva (se ainda não o leu, clique aqui)

Episódio 2 - A visita de Henoch (se ainda não o leu, clique aqui)

Episódio 3 - O Éden revisitado

Uma dor no peito repentina e aguda clamou pela mão de Dan que logo acorreu e se encerrou sobre o grosso cajado do velho Adão. Os olhos entreabriram-se a custo e era um velho zangado, recortado sobre o azul do céu que Dan via na origem da sua dor.

"Que fazes aqui a dormir ao relento? Foges aos rituais de Hennoch? Vai para ao pé dos outros. Vamos começar a colheita".

Adão, sem esperar qualquer resposta, virou-se para um jovem que o acompanhava, e pediu esclarecimentos num tom mais baixo: "Sabes quem é este rapaz?". "Não sabes, pai? É Dan, o noivo da Ana", respondeu o outro, ao mesmo tempo que se afastavam.

Nesta altura, já Ana ia longe. As aldeias de casas de tijolo das gentes de Adão viam-se já muito pequenas no horizonte. Pensava em Dan. Tinha pena de o deixar só, perdido. Dera-lhe em segredo o propósito da sua viagem e ele prometera nada revelar a ninguém. Entre tantos jovens a casar, raparigas que vão e raparigas que vêm, Henoch preocupado com o ritual, Adão a confundir tudo, sem o protesto de Dan, Ana esperava que ninguém desse pela falta dela. Apenas Eva entenderia a sua ausência como recusa e, com a solidariedade de mulher que não teve escolha, permaneceria em silêncio. Saíra ainda de noite, para ter a certeza de que daria as costas ao nascer do Sol quando chegasse a uma zona desconhecida.

A tiracolo, levava a sua grande saca de recolecção, cheia de frutos e pães que retirara dos preparativos para a festa e um odre que enchia de água sempre que podia. Além da saia de lã comprida, levava consigo uma pesada manta, para se proteger durante a noite. Felizmente a época era boa. As árvores e arbustos dos caminhos estavam cheias de frutos e bagas doces, havia searas à espera de colheita de onde poderia roubar grãos que teria que mastigar assim mesmo, já que não disporia da sua pedra de moer para fazer farinha e preparar uma papa ou mesmo cozer pão. Não, ela sabia que, para sobreviver nesta aventura, teria que saber comer como o gado ou os animais selvagens.

Andou dias assim. Entretanto, a nossa caminhante viu com apreensão o fim das terras férteis, demasidado distantes dos rios e dos canais que os agricultores abriam. Racionou a água que bebia às gotinhas. Procurava durante o dia um abrigo para dormir e continuava a caminhada um pouco antes do pôr-do-sol. Apanhava pequenos animais como lagartos e gafanhotos que lhe repunham a força necessária para continuar. Os dias passavam nisto e, quando, por vezes, se anunciava o fim do deserto, verificava depois que tudo não passava de meia dúzia de árvores e dum charco de água e que mais deserto penoso apareceria à frente para prosseguir.

Ana já andava perdida, como que sonâmbula, quando, ao chegar ao ponto mais alto duma montanha do deserto, foi surpreendida por um espectáculo inigualável: um vale verdejante no cruzamento de quatro braços de um rio. "Se isto não for o Éden que mais poderá ser?"

Quando desceu e se aproximou do vale, percebeu que o acesso não seria fácil. Escondeu as suas magras posses debaixo dumas pedras na proximidade do rio. "Lembrou-se da história da nudez no Éden e manteve a saia enrolada à cintura para poder nadar, coisa que aprendera nos pequenos canais perto de casa, não fosse o Senhor surpreendê-la nua no jardim". Tentou entrar num ângulo onde se cruzavam os dois braços de água. "Será este o lado nascente, por onde eles saíram?". Altos canaviais e arbustos espinhosos interpunham-se entre ela e o rio de águas limpas. Serviu-se da faca de obsidiana que levava consigo para cortar pequanos ramos e conseguiu ultrapassar a barreira e lançar-se à água. 

Assim que mergulhou e viu o fundo do rio, o espectáculo deixou-a horrorizada: dezenas e dezenas de esqueletos humanos presos no fundo lodoso despontavam, ora uma caveira, ora uma mão que parecia pedir socorro, ora uns pés que pareciam querer mover-se em direcção à superfície. "Será que ficarei aqui como eles?"

Conseguiu chegar a terra. Assim que se apeou da água, desenrolou a saia, espremeu-a, sempre a olhar à volta, e vestiu-a. Quanto à parte de cima, paciência! O xaile ficara junto da manta. Receava avançar: "Aqui deveriam estar os querubins". Viam-se apenas alguns animais, aqui e ali. Parecia apenas comum natureza verdejante, mas selvagem. Ana entrou por ali adentro. Era um vale muito maior do que parecia visto do monte. Muitas árvores carregadas de fruta que Ana, faminta, não deixou de aproveitar.

Meteu-se por um emaranhado de arbustos que lhe parecia ir dar a uma clareira central. Sentiu-se presa. Afastou com as mãos os ramos para pôr a cabeça e ver aonde aquilo ia dar. Um barulho de cortar o ar, misturado com cheiro a enxofre, levou-a a recolher-se e a encolher-se toda para dentro do arbusto. "Meu Deus, ia ficando sem cabeça". Ficou a observar por entre os ramos. O estranho objecto voltou e Ana reconheceu-o das histórias de infância: "A espada flamejante!". Ela continuava numa circunferência imutável à volta duma grande árvore, sem convicção a dar golpes em inimigos imaginários, como se estes também se dispusessem num círculo perfeito à volta da árvore.

Ana depressa compreendeu que poderia aproximar-se e observar melhor a árvore. Bastava penetrar no círculo imaginário, logo a seguir a uma passagem da espada. Cortou os ramos necessários e ficou com uma abertura suficiente para passar. Esperou que a espada passasse e correu na direcção da árvore. Ofegante sentou-se apoiada no tronco, à espera.

"Será que a espada sai da sua rota para me matar?" Preparada para fugir ao menor sinal, Ana nem conseguia olhar para a árvore. Mas não. Ela continuava no mesmo caminho, "Mas, espera aí", pensou Ana, "agora está a andar mais devagar". Até que por fim parou, esfumou-se e, nesse ponto, apareceu um homem. Ana olhava-o da árvore, isto é, do centro do círculo, o homem a aparecer no ponto em que se esfumava a espada, a cerca de cem metros de distância.

Durante uns minutos, o homem permaneceu imóvel, como se estivesse preso àquele lugar. Então, começou a avançar lentamente na direcção de Ana que, paralisada pelo medo, mantinha-se sentada com as costas apoiadas na árvore. À medida que se aproximava, Ana observava-o. Era extremamente belo. Trazia uma saia comprida de lã e vinha em tronco nu. Musculado, alto, olhos azuis e cabelos cor-de-ouro.

Assim que chegou perto, tapou os olhos com a mão esquerda e com a direita apontou para Ana: "Por favor, levanta-te e tapa-te". Nas mãos de Ana, apareceu o xaile que deixara na outra margem. "Tu és um querubin?", perguntou Ana, a ganhar confiança. "Sim". "Então, porque não tens asas?". "Sou Haziel. Este é o aspecto que tenho perante os seres humanos".

"Que me vais fazer?", perguntou Ana. "Nada". "Não me impedes de tirar o fruto da árvore?". "Não, serve-te".

Foi então que Ana olhou para a árvore. Estava ressequida e não tinha qualquer fruto, apenas umas folhas de um verde acastanhado. "Que lhe aconteceu?", "Ficou assim desde que a primeira mulher veio cá e comeu frutos e deu-os aos amigos".

"A minha mãe nunca cá voltou", respondeu Ana. "Ah, tu és uma filha de Eva! Não, referia-me a Lilith". "Lilith?" "Quando ela veio, eu fiquei paralisado, incapaz de me mexer por causa da beleza dela". "E os querubins do lado nascente?". "Oh, esses desapareceram muito antes da visita de Lilith. Foram atrás das filhas dos homens". "Mas não foi Eva, a primeira?", "Não! O senhor criou os animais, macho e fémea, e o Homem também. Nem a mulher precede o homem nem o contrário. Um não existe sem o outro. Só criou Eva da costela de Adão porque a primeira só estava com Adão quando lhe apetecia e não procriava dele. Depois, fugiu do Éden. Alguns anjos que tinham a tarefa de a  trazer para o Jardim foram seduzidos por ela e perderam-se. E a mim ia-me acontecendo o mesmo. Deixei-a comer o fruto como se estivesse hipnotizado a vê-la. Quando reagi, já ela se tinha ido embora e agora volto para o Senhor. Já não há nada aqui a fazer. Se queres saber mais sobre isto, fala com Lilith. Consta que está na Terra de Nod. Mas aviso-te que os perigos são maiores do que a própria morte de que queres fugir". "Não era para mim, era para o meu pai", ia Ana dizendo, enquanto Haziel desaparecia no ar agora sim, com umas belas asas.

 

Imagens extraídas de "Lilith", Wikipedia. A primeira, uma gravura de John Colier do final do sécul XIX, a segunda, um relevo mesopotâmico do séc. XX a.e.c..

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Sábado, 14 de Novembro de 2009

Ana e a árvore da vida (2)

Episódio 1 - Filha de Eva (se ainda não o leu, clique aqui)

 

Episódio 2 - A visita de Henoch

Havia aquela preocupação de Ana que era, ao fim e ao cabo, a dura aprendizagem da morte de todos os jovens quando assistem ao fim das gerações que os antecedem, com a particularidade de ela e os seus irmãos serem os iniciadores dessa tradição. Adão não conseguia esconder o mal-estar que constantemente o invadia. Eram muitas as memórias perdidas que lhe faltavam em momentos decisivos, cada vez mais frequentes as caminhadas pelos rebanhos, pelas terras agrícolas e pelas cabanas da sua gente em que tinha que pedir para parar e sentar-se ofegante, deixando o agora inseparável cajado apoiado numa parede ou numa árvore. Eva suportava-lhe os queixumes, os resmungos num silêncio culpado, como se ela não tivesse as suas próprias dores e tivesse que ajudar o marido a carregar as suas.

Num desses dias, fora anunciada a chegada de Henoch por um mensageiro que o precedera um mês antes. As visitas mútuas dos grandes patriarcas tinham-se institucionalizado uns séculos antes. Eram uma oportunidade de forjar alianças com o casamento de jovens pertencentes a diferentes grupos familiares, já que a regra de casar fora da família natural se tinha generalizado.

Quando Henoch chegou, com a sua enorme caravana, o dia foi de festa. Adão recebeu-o efusivamente e conversou longamente com ele. "Henoch, são poucos os anos da tua vida, mas já tens alguns cabelos brancos. Já estás a morrer sem o saber." Henoch encolhia os ombros e sorria. "Sou forte e sinto-me bem. Quanto ao resto, que seja feita a vontade do Senhor". A Adão perpassou na face uma expressão de amargura: "Não tivesse eu transgredido, seria outra a herança da humanidade". Henoch tentou demovê-lo desses pensamentos, o envelhecimento, explicava-lhe, era para os homens a sua natureza, a única realidade que conheciam. O que interessava é que cada um estivesse de consciência tranquila perante o Senhor. Adão ainda insistiu no tema. "Sei que é pecado, mas às vezes penso naquela árvore que estava no meio do jardim. Se eu lhe tivesse deitado a mão antes de ser expulso". Henoch, olhou para ele com uma expressão dura: "Que Deus te perdoe, Adão..."

Ana escutara aquele pedaço de conversa e uma ideia começou a germinar: "Falam da árvore da vida. Se eu conseguisse o fruto, dá-lo-ia ao meu pai".

Enquanto Henoch ali esteve, houve festas, banquetes, orações ao Senhor e sacrifícios oficiados por Henoch que percebia que a Adão restavam apenas alguns anos e queria que ele acabasse a sua vida na "graça do Senhor". Dos filhos de Henoch, o primogénito, Metusalém já era, ele próprio, um patriarca e vivia longe do pai. Vieram vários filhos com ele, alguns muito jovens. Dan, que tinha mais ou menos a idade de Ana, rapidamente se tornou seu amigo. Era forte, muito musculoso, cabelos longos, uns olhos negros com umas espessas sobrancelhas, que pareciam ler-lhe a alma quando nos dela os fixava.  Henoch e Adão observaram os dois em animadas conversas e trocaram um olhar entre si que foi como se tivessem assinado um contrato.

Quando se fez boa a ocasião, Adão falou com a filha: "Ana estás na idade de casar. Vimos que te dás com Dan. Vamos casar-vos antes de Henoch regressar a sua casa, pois irás com Dan". Ana ficou surpreendida com esta decisão, mas não teve coragem de argumentar, por causa do tom solene do pai que ela já ouvira dezenas de vezes com outros irmãos. Ficou magoada por o pai a deixar ir assim embora. Não podia revelar o que lhe ia na alma: "Não casaria antes do pai morrer". Mas só baixou a cabeça. Foi como se tivesse dito "sim".

Dan não cabia em si de contente. Sentia-se honrado por casar com uma filha do "Pai Adão". Ainda por cima, lindíssima, cabelos pretos, pele muito branca, com olhos verdes, elegante e atlética.

Ana começou a perguntar a toda gente "onde era o Éden".  Invariavelmente, todos lhe diziam que o caminho se tinha perdido. Já ninguém sabia lá ir. Mesmo Adão e Eva ficavam confusos com a direcção para onde se deviam dirigir. Não se recordavam e discutiam quando tinham que dizer se tinham vindo de poente ou de nascente, de norte ou sul, ou de algum ponto intermédio. Henoch disse que era pecado querer saber e que já muitos tinham desaparecido a tentar lá chegar.

Apenas Dan, querendo exibir os seus conhecimentos, lhe dissera algo mais. Estava muito nervoso e combinou encontrar-se com ela num sítio do campo, longe da casa de Adão onde poderiam ser surpreendidos por Henoch ou Adão. "Conheço um homem que tentou lá chegar,  arrependeu-se a tempo e voltou para trás. Viu os querubins. Ele contou-me a sua história. Sei que é no sentido do pôr-do-sol. Adão e Eva devem ter saído pelo lado nascente".

Conversaram longamente abraçados. "Estou preparada para te amar, mas não para ir contigo e Henoch. Ama-me agora porque nunca mais me verás". Acabou assim este episódio: sob um céu mesopotâmico de lua-cheia, dois corpos amantes entrelaçados, com a conivência duma primeva seara de cevada.

 

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Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Ana e a árvore da vida

A árvore da vida (parte central) de Gustav Klimt

(extraído de lapislavra.wordpress.com)

Episódio 1 - Filha de Eva

Ana recordava-se do tempo em que o pai era um homem muito forte. Para ela, o mais forte do mundo. Mas agora ele estava sempre a queixar-se de dores em todo o corpo. Eram os músculos que latejavam quando pegava em alguma coisa mais pesada, coisa rara para um patriarca tão rico e poderoso, tão cheio de filhos, netos, bisnetos e bisnetos dos bisnetos em que muitos já tinham zarpado em busca de novas terras cumprindo o mandamento divino de encher a terra. Era também o fôlego que perdia quando se punha por mero prazer a ajudar nas lides do campo, as dores que surgiam nas costas e nas articulações quando se baixava.

Um dia, Ana ouvira-o confessar: "Começo a acreditar na palavra do Senhor quando me condenou, "és pó e em pó te tornarás". Muitas vezes me perguntava o que Ele queria dizer com isso. Quando o meu Abel morreu, creio ter compreendido o que era voltar a ser pó. Mas passaram-se anos e até agora ainda não vimos o que é isso. Virá um anjo ou outro homem matar-me? Agora estou a ver que não, é  simplesmente este desaparecer aos poucos, cabelos brancos, rugas, perda de força, dores... até desaparecermos".

Ana nascera muito depois da morte de Abel, uma espécie de santo que toda a gente venerava, o grande iniciador do culto de sacrificar cordeiros ao Senhor. Abel morrera havia já mais de seiscentos anos e Ana era uma jovem mulher de apenas cem anos. Caim, o irmão mais velho, o fraticida, prosperava muito longe dali, na Terra de Nod, onde fundara, com o primeiro filho, a cidade de Enoch, de que se contavam maravilhas.

Seth, com quase oitocentos anos, de aspecto tão velho como o pai, aparecia de vez em quando. Era também um grande patriarca, com as suas terras e as suas famílias. Na verdade, Adão, já tinha perdido a conta aos seus descendentes, eram dezenas ou, mesmo, centenas, de milhar. A sua comunidade era ela própria composta por alguns milhares. A de Seth, também, e já havia centenas delas espalhadas pela superfície da terra, fundadas por netos e bisnetos de Adão e dos seus filhos.

Última filha, Ana, fora sempre mimada pelos pais. Eva dizia: "Depois desta, o Senhor selou-me o ventre". Em pequena, era muito curiosa, queria saber tudo o que tinha acontecido. "Pai, como falavas com o Senhor no jardim? Via-lo?". "Não, era apenas a voz dele que nos entrava pelos ouvidos e nos dominava duma maneira que mais nada se podia pensar ou ver", respondia Adão e, quando explicava isto fazia uma cara de sofrimento e esforço, como se estivesse naquele momento a acontecer aquilo, mas logo a seguir, falava-lhe ao ouvido como se fosse Deus, mas fazendo-lhe cócegas com a barba: "Onde estás, Ana? Porque te escondes?". Ana ria-se e respondia: "Ouvi a tua voz, vi que estava nua e escondi-me". E enfiava logo a longa saia de lã, não fosse o Senhor surpreendê-la nuazinha.

"A serpente não rastejava antes de falar contigo, mãe?", perguntava a Eva. "Não sei, filha, a primeira vez que a vi estava enrolada na árvore". "Falava?", "Falou daquela vez". "Não achaste estranho?", "Tudo era estranho para mim, desde que apareci naquele sítio, feita duma costela do teu pai. Não tive a sorte de ter uma mãe que me ensinasse as coisas assim aos poucos desde pequenina, como tu". "O fruto era saboroso?", "Não me consigo lembrar do seu sabor. Só me lembro daquela voz horrenda, paralisante, a condenar-me "Com dor, darás à luz filhos"".

Havia já alguns anos que Ana se interessava por rapazes. Eva, como nunca fora rapariga, deliciava-se sempre com este momento, em que de meninas passavam a mulheres, apesar de já ter sido mãe dezenas de vezes.  "Não sei o que é conceber sem dores. Não sei o que é isso como castigo, pois não o imagino de outra maneira."

O mesmo dizia Adão a propósito do trabalho: "Sou rico. A minha família trabalha para mim e já tenho outros que vêm de longe e procuram a minha protecção. Chamam-me Pai, mas já perderam a linha que vai de mim até eles. Já há centenas de anos que não preciso de trabalhar, mas gosto de o fazer. Também não entendo esse castigo,  "maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida". Não! Bendita é esta terra que regamos com o nosso suor!". Às vezes, olhava para os campos a perder de vista e pensava: "Isto é melhor que as árvores do Éden".

Tudo era misterioso para Ana, a história do pai e da mãe eram os seus contos de fadas. Procurava compreender tudo e buscava as respostas às lacunas que lhe apareciam. O senhor Deus que falara com os pais e com os irmãos não se mostrava à toa. Era algo nebuloso para ela. Nunca o vira. Era quase como "no tempo em que os animais falavam", embora nesta história apenas a serpente o tenha feito. "Porque é que Deus já não fala com o pai?". Havia quem dissesse que Deus falava com o primo Enos, filho de Sete, que organizava grandes cerimónias religiosas com a sua família e a sua vizinhança e com Henoch, um homem de apenas trezentos anos, trisneto daquele.

Lembrava-se de quando pequena, com dez ou doze anos, ter ouvido uma conversa entre o pai e a mãe, na cama: "Como era, antes de eu aparecer?" "Sim, como fazias, sozinho?" A isto, Adão respondia com evasivas: "Não consigo recordar-me desse tempo. É como se tu tivesses estado sempre comigo, não me imagino sozinho". "Mas estiveste trinta anos sem mim, que é a diferença entre nós!", "Passaram muito depressa, pois não me lembro de quase nada".

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Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Que fazer com este livro? (2) Zimler sobre Saramago

Fonte da imagem: clique nela

No Público, saiu um belo texto assinado pelo romancista Richard Zimler que expressa a intenção de criticar os dois lados da polémica. Saramago tem razão, mas uma razão irrelevante, dada a falta de novidade e a falta de motivo para o escândalo.

A violência e a crueldade divina nos textos bíblicos teria sido já, desde há muito tempo, objecto de reflexão aberta por pensadores judeus e cristãos. Todavia, o próprio facto da polémica demonstra que ele não tem razão. Senão, toda a gente encolheria os ombros e diria a Saramago, "Pois é! Só agora é que viu isso?".Ora, não foi esse o caso.

A leitura à letra, a crença nos próprios factos narrados, seja o pecado original, a história de Caim e Abel, o dilúvio, a concepção imaculada ou a ressurreição de Cristo não é e não foi no passado coisa só de crianças, como Zimler diz:

"Quando a narrativa bíblica conta que Moisés separou as águas do Mar Vermelho no Livro do Êxodo para que o seu povo pudesse fugir do Egipto, será que alguém com mais de dez anos acredita que ele possa ter murmurado algum abracadabra hebraico e produzido tal milagre?"

São milhões e milhões as pessoas que acreditam em factos deste género, tanto cristãos, como judeus! Mesmo entre os que distinguem a religião popular da doutrina católica oficial, a primeira com os seus santos milagreiros e as nossas senhoras que lacrimejam no canto da igreja e a segunda com os argumentos filosóficos sobre Deus,  são muitos os que colocam os factos bíblicos ao abrigo de qualquer crítica.

A resposta de Zimler à questão colocada por Saramago encontra-se no mesmo nível das de Tolentino Mendonça e de Carreira das Neves, com uma diferença essencial. Zimler afirma uma leitura alegórica dos factos narrados numa perspectiva de distanciamento cultural já que não crê num Deus pessoal, enquanto os outros dois acreditam que a alegoria é uma mensagem divina que tem como destino a humanidade, apesar de ter sido escrita por homens.

De resto, desconfio que a história desta questão no pensamento teológico, judaico e cristão, está mal contada por Zimler. Os escritores dos livros do Novo Testamento, por exemplo, quando se referem ao significado alegórico de certas passagens do Antigo Testamento, consideram os próprios factos acontecidos como o material da alegoria.

Por exemplo, no livro de Mateus, Cristo faz de Jonas uma metáfora de si próprio. Como Jonas estivera três dias na barriga da baleia, estaria ele morto três dias, no seio da terra, ao fim dos quais seria ressuscitado (Mateus, 12:39-40; Jonas, 1-2). Um acontecimento serve como ilustração de outro que há-de suceder.

Penso que este tipo de raciocínio é um dos processos fundamentais da leitura religiosa da Bíblia. Traçam-se paralelos entre narrativas em que umas funcionam como alegorias das outras, para compreender e até, para prever, factos a suceder. Assim, temos a Jerusalém terrestre face à Jerusalém celestial, o reino de Israel como figura do Reino celestial de Deus, (Apocalipse, 3:12); o sacrifício de Isaque por Abraão como significando o sacrifício do próprio filho de Deus permitido pelo Deus Pai.

É como se Deus escrevesse com a história, com os acontecimentos propriamento ditos, as alegorias do que está para vir e dos seus propósitos para a humanidade.

Parece-me que o judaísmo não difere do cristianismo neste aspecto. A filosofia, platónica ou aristotélica, limitou-se a acrescentar novos argumentos para provar as mesmas coisas e a colocar mais camadas interpretativas sobre as singelas narrativas bíblicas sem nunca contestar a sua verdade factual. Assim, por exemplo, Maimónides (1135-1204), um dos grandes sistematizadores da Mishná, afirma como princípios básicos do judaísmo a outorgação da Torah (os cinco primeiros livros da Bíblia) por Deus a Moisés e a verdade absoluta do que lá está escrito. Portanto, a criação do homem é como está lá, assim como o dilúvio, o êxodo e a conquista da Palestina.

Não é a perplexidade perante a violência que nos interessa, nem o facto de haver relatos de acções violentas. O que está em causa é a posição axiológica do narrador perante os factos narrados.

Quando Zimler escreve que o Antigo Testamento nunca teve como propósito constituir qualquer coisa de parecido com um manual de boas ou más maneiras está a arriscar-se num terreno muito escorregadio que consiste em atribuir um propósito a esse conjunto de livros, coisa que implica tanta hermenêutica que é impossível de confirmar ou contestar, a começar pela definição de uma orientação global para tantos e tão diversos textos.

Se se refere ao judaísmo, reconheço que esses livros não têm só orientação para a vida, mas têm muito mais do que isso. A relação entre Deus e o seu povo escolhido é também um tema muito genérico que inclui necessariamente as boas ou más maneiras.

Os mandamentos recebidos no tempo de Moisés, no monte Sinai, foram certamente resumidos e universalizados. Creio que os judeus chegaram ao princípio dos dois mandamentos – amar a Deus sobre todas as coisas e ao seu semelhante como a si mesmo - antes dos cristãos – ou talvez estes tenham sido apenas um ramo do judaísmo que se autonomizou. Hilel, um rabi que viveu entre 60 a.c. e 9 d.c. foi um grande defensor desta filosofia do altruísmo como o essencial do judaísmo.

As histórias bíblicas não são necessariamente para edificação moral, mas também não é esse o problema colocado por Saramago.

“Pegar no Antigo Testamento para criticar a brutalidade dos hebreus ou de outros povos da antiguidade é o mesmo que criticar Dostoievsky por escrever sobre um assassinato premeditado em Crime e Castigo ou criticar Anne Frank por descrever como a crueldade nazi afectou a sua família”.

Discordo deste juízo, pois nenhum destes livros é considerado como a "palavra de Deus" e ambos são narrativas na primeira pessoa. Num, o narrador narra os seus próprios actos, no outro, maldades alheias de que é vítima.

O primeiro deixa o leitor livre para ter uma posição crítica perante um narrador  que se questiona e vive o problema da culpa. No outro, o leitor recebe uma atitude ética da parte da própria narração. Ao dizer isto, Zimler confunde uma leitura profana da Bíblia com uma leitura sagrada.

Na história de David e Bate-Seba em que David põe um homem na frente de batalha para que ele morra em combate e lhe deixe a mulher disponível, há uma condenação divina do próprio rei (II Samuel 11-12). Não é o que acontece no caso de Job, Caim ou Sodoma e Gomorra. Nestes casos, é o próprio Deus que intervém e revela a sua indiferença e crueldade.

O problema é que Deus seja assim, parcial, impulsivo e castigador, que seja um Deus para quem apenas os poderosos contam, pois a família de Job está lá para sofrer e morrer e comprovar a excelência da sua fé. Será facilmente substituída por outra quando acabarem as provações. É também o caso das crianças e das mulheres de Sodoma e Gomorra, que tinham obviamente que estar presentes na cidade no momento da destruição, mas ausentes das considerações divinas, como Saramago lembrou na televisão.

Essa narrativa, esse Deus, é humano. Nem ele, nem os patriarcas, nem os chefes dos hebreus, são piores que os deuses e os chefes de outros povos. Custa-nos que esse livro que tem princípios de moral e justiça diversos, contraditórios e antigos, que a humanidade já ultrapassou, seja considerado sagrado e a palavra de um qualquer Deus, tido por superior a todos os outros.

No fundo, Zimler e Saramago estão de acordo. Este subscreveria isto, quase de certeza:

“Quem quer que deseje conhecer até onde pode chegar a abominação e a crueldade humanas e até que ponto Deus - ou o Destino - pode ser impiedoso bastar-lhe-á abrir o Antigo Testamento”

Referências

Em primeiro lugar o texto de Richard Zimler. Clique no título: Saramago e a insustentável leveza da ignorância

Como sempre, o blog Quem escreveu torto por linhas direitas? (veja-se aqui a interpretação do caso de Caim, a mesma que Saramago narrativiza - http://quem-escreveu-torto.blogspot.com/2007/09/caim-e-abel-o-primeiro-crime.html).

Entradas de enciclopédia sobre a história do judaísmo e rabinos famosos na Brittish Enciclopedia 2006 (DVD), Encarta e Wikipedia.

O muito útil Dicionário das religiões do grande Mircea Eliade.

Três versões da Bíblia em cima da secretária.

Mais alguns textos que a preguiça me impede de referir.

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