Terça-feira, 31 de Maio de 2011

Observações à prova de aferição de Língua Portuguesa do 2º ciclo

Os testes das provas de aferição têm sido exemplares no que respeita ao engenho investido nos itens para obter desempenhos relevantes. Este último não foge a essa regra.

Contudo, experimento alguns problemas tanto no enunciado como nos critérios de correcção. Não pretendo que estes problemas fossem detectáveis a priori. O crítico é sempre beneficiário dum trabalho anterior.

Citação ou transcrição, com que regras?

Algumas tarefas do dito teste parecem apontar para meros requisitos formais que no contexto não se parecem justificar. Creio que é o que acontece na questão 2. que refere "regras de transcrição". Senti um certo desconforto com esta tarefa por não encontrar nem no manual que utilizo, nem no programa de 91, nem tampouco no novo, nenhum conteúdo referido sob a designação "regras de transcrição". Mas no de 91, aparece o seguinte processo de operacionalização:

Transcrever de registos magnéticos depoimentos ou entrevistas.

Os linguistas conhecem bem esse item essencial ao trabalho de campo. Mas nas regras de transcrição que consultei não encontrei referência à utilização das aspas. Pensei: "não quererão falar de citação?".

Será então muito relevante se os alunos põem aspas ou não? Quando ponho palavras dos outros num texto meu tenho de o marcar de alguma maneira para não se confundir com o meu. Uma das maneiras de o fazer é com as aspas.

De facto, a tarefa refere-se a discurso oral ficionalizado. Mas se se trata de transcrição no sentido linguístico, os meninos teriam de o ouvir e não de lê-lo num texto escrito.

A exigência das aspas é aqui uma inutilidade formal porque pelo enunciado da pergunta já se percebe que o que se regista por baixo são palavras do texto ouvidas por uma personagem.

Sem texto próprio do aluno, não há necessidade de assinalar o texto citado.

"Personificação" - explicar ou classificar?

Na questão 3., pede-se ao aluno que explique porque é que um determinado trecho é uma personificação. Na correcção, exige-se apenas que o aluno indique o comportamento referido no texto como humano ou próprio de "pessoa" para justificar a etiqueta de "personificação".

Tratava-se dum riacho que pela insignificância do seu caudal no verão era objecto da troça dos rapazes. Quando se tornava caudaloso no tempo das chuvas, era ele que troçava deles. As respostas de alguns alunos que tentam explicar o sentido da personificação - que é o rio que se enche de água e surpreende os que antes gozavam com ele - é desvalorizada.

Creio que a personificação é apreendida negativamente por muitos alunos, apenas como algo inadequado, por isso, abundam as definições pela negativa, aquilo em que a personificação é por o objecto "não ser pessoa". Adquirimos uma maior compreensão da linguagem quando mostramos o que a personificação quer expressar, o seu sentido no texto.

Um enunciado difícil

Na questão 10., destaca-se a frase:

O rio recebia a água da chuva que lhe engrossava a corrente.

E pede-se:

Escreve uma frase em que utilizes o nome sublinhado, mas com um significado diferente.

Na elipse que se segue à conjunção, houve alunos que entenderam "uma frase". E lá escreveram frases diferentes em que "corrente" tem o mesmo sentido.

Outros entenderam que a coordenada "mas..." relaciona-se com "o nome sublinhado". E escreveram frases em que "corrente" tem um sentido diferente.

Outros ainda entenderam que tinham que substituir "correntes" por uma expressão sinónima.

Quando li o enunciado à procura da explicação para esta diversidade de respostas, pareceu-me que a frase era sintaticamente ambígua. Mas não é esse o caso. O problema está em os alunos não estarem familiarizados com uma coordenação adversativa interna ao grupo nominal. O que é certo é que foram muitos os que não compreenderam que tinham que criar um contexto em que "corrente" tivesse outro significado.

Se o enunciado fosse "Escreve uma frase em que a palavra corrente tem um sentido diferente do que tem na frase acima", haveria provavelmente maior diversidade nas "correntes" apresentadas.

As ordens (ou pedidos) têm que ter vocativo?

Na questão 16. apresenta-se o seguinte relato:

Quando chovia, a avó pedia à Altina que fosse buscar bacias para a água.

E pede-se ao aluno que "imagine" a avó a dirigir-se directamente à Altina. Uns alunos põem vocativo, outros, não.

Quando chovia a avó pedia:

- Ó Altina, vai buscar bacias para a água!

Ou:

Quando chovia a avó pedia:

- Vai buscar bacias para a água!

Ora, se a Altina estivesse ali ao lado e fosse a única pessoa, era provável que a avó não utilizasse o vocativo. Com que base é que se penalizam as respostas sem vocativo?

No caso de uma transformação pura do discurso indirecto em directo, o destinatário do pedido da avó deveria estar nas palavras do narrador e não nas da personagem:

Quando chovia a avó pedia à Altina:

- Ó Altina, vai buscar bacias para a água!

O facto de ser um pedido, poderia ser indicado de várias maneiras, com uma "partícula de realce" ou com algum tipo de indirectividade:

Quando chovia a avó pedia à Altina:

- Vai lá buscar bacias para a água!

 

Quando chovia a avó pedia à Altina:

- Ó Altina, podes ir buscar bacias para a água?!

 

Quando chovia a avó pedia à Altina:

- Ó Altina, não te importas de ir buscar bacias para a água?!

Finalmente, sendo este acto discursivo da ordem do iterativo e não um facto singular que tenha acontecido num único momento, a sua passagem para o discurso directo não me parece um exercício muito adequado, pois a avó terá pedido à Altina para ir buscar as bacias de muitas maneiras diferentes, a não ser que tenha uma espécie de fórmula mágica que utilize sempre que comece a chover.

publicado por Redes às 22:59
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Quinta-feira, 19 de Maio de 2011

O Partido dos Animais e da Natureza

Paulo Borges e o seu PAN (Partido dos Animais e da Natureza) apresenta algumas propostas políticas que subscrevo inteiramente, mas discordo fundamentalmente dos pressupostos ideológicos, patentes na própria designação do partido. Não faz qualquer sentido um partido da natureza, porque a natureza é uma totalidade perfeitamente indiferente que tudo abarca e nada exclui. Não encontro nenhum elemento ético na constituição da natureza. Nao creio que nos possamos afastar ou aproximar da natureza, nem tampouco que a natureza possa inspirar qualquer espécie de ideal. A oposição homem / natureza é uma falha filosófica. Foi naturalmente que o símio se fez homem e foi a sua herança genética que lhe permitiu construir computadores, enviar foguetões à lua, fazer o holocausto e destruir a floresta amazónica.

Se se puser o problema da sobrevivência humana, a perspectiva ecológica, a perda humana que significa o desaparecimento de espécies animais, ganha todo o cabimento. Não precisamos de defender os outros animais do sofrimento, gostemos mais ou menos deles. Eles nunca reconhecerão essa solidariedade que é uma questãozinha da espécie humana. Nunca farei uma manifestação contra as touradas, embora as ache desprezíveis. Lamento que seres humanos se divirtam com o sofrimento dos touros, por causa daqueles e não por causa destes que são criados para fazerem bons bifes.

Noutros ecossistemas, os touros são bons para serem comidos pelos leões e por outros predadores, que aliás também se divertem a fazê-los sofrer, prática em que são pródigos os predadores mais jovens nos seus jogos de aprendizagem da nobre arte da caça.

Os animais nunca são coisas, porque as coisas verdadeiramente sem vida não se podem comer. Os animais são objectos da cultura humana e é esta que lhes define os papéis. Desde a domesticação das plantas e dos animais, a caça deixou de fazer grande sentido. É nas culturas mais atrasadas que o animal, besta e monstro, é apresentado como troféu do guerreiro ou do caçador. Alguns rituais como o da matança do porco parecem evocar um tempo em que a luta entre o homem e os outros animais era uma questão de sobrevivência.

Repudio completamente toda e qualquer equiparação que se faça em termos de direito entre o homem e os outros animais, pela simples razão de que só os homens têm sistemas de leis e de direito e eu pertenço à comunidade humana. Exemplo dessa equiparação é a feita por Peter Singer que acha que pode pôr lado a lado animais com comportamentos e sistemas neurológicos mais avançados e seres humanos diminuídos nas suas capacidades pela doença. Uma pessoa com Alzheimer, por exemplo, não pode ter menos direitos que qualquer outro e não se pode atribuir mais direitos a um chimpanzé por ser eventualmente mais inteligente pela simples razão de que o direito pertence à comunidade e essa pessoa com Alzheimer, que já não diz coisa com coisa e nem sequer é capaz de fazer algumas tarefas perfeitamente ao alcance de um chimpanzé, é uma pessoa que tem o mesmo ADN dos seus familiares que nunca deixarão de a ver como humana. Nenhum ser humano pode ser sujeito a um teste cognitivo para aferir da sua humanidade.

Dito isto, aceito de bom grado que seja proíbida a captura e o tratamento cruel a essas criaturas que são nossos primos na história evolutiva e nos fazem lembrar muita da nossa humanidade.

Acho que a doutrina do PAN só se torna coerente, se acreditarmos na transmigração das almas.

 

publicado por Redes às 22:27
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Português ou Língua Portuguesa?

As editoras parece não terem percebido que a disciplina de Língua Portuguesa já não existe nem no 1º, nem no 5º e nem no 7º ano. No programa que vai iniciar em 2011, a disciplina da nossa língua chama-se Português. Estranho que muitos manuais continuem a ter no cabeçalho "Lìngua Portuguesa".

publicado por Redes às 01:22
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