Quinta-feira, 29 de Maio de 2014

O triângulo das portas de Heitor (Lisboa, Plátano, 2010)

 

Heitor Lourenço oferece-nos em O triângulo das portas, uma história fantástica que tem como protagonistas um adulto e duas crianças, tio e sobrinhos. A história decorria já como uma brincadeira das crianças - na perspetiva do adulto. A entrada deste é feita quase como um ritual de iniciação, sem o qual não poderia desempenhar o seu papel na história. Um dos elementos estruturantes da narrativa é precisamente a oposição entre a seriedade dos adultos e a fantasia infantil que comentarei mais à frente.

No resto de pinhal que havia perto da casa dos seus pais, os sobrinhos do narrador engendram uma história feita de elementos conhecidos. Por exemplo, o Reino do Meio lembra-nos a Terra Média do Senhor dos anéis de Tolkien, o modo de acesso a esse mundo fantasioso e os papéis desempenhados pelas crianças - rei e princesa - remetem-nos para As crónicas de Nárnia de C. S. Lewis. Se neste, tal como no Quebra-Nozes de Hoffmann, o dispositivo de entrada é um guarda-fatos, aqui falta alguma clareza a esse respeito.

A história começa com indícios, isto é acontecimentos estranhos para o narrador, que, depois são interpretados como elementos que serviram para o introduzir no enredo. Uma ameaça da câmara municipal à sobrevivência do pinhal ficou a pairar sem resposta na história fantasiosa. Se algum paralelismo entre real e fantasia se anunciava ao leitor, o decorrer ignorou-o.

O Reino do Meio é ameaçado pelo Senhor dos Mortos. A natureza desta ameaça não é clara. A destruição pura e simples? A perversão do modo de vida do Reino do Meio? De que maneira? É verdade que na literatura fantástica é comum haver o perigo do mal destruir o mundo. A figuração dessa ameaça aparece na História Interminável de Michael Ende sob a forma do Nada, no Senhor dos Anéis é a perversão total da natureza, com a degradação das suas criaturas destruídas por seres monstruosos às ordens de Sauron, o senhor do mal, no Harry Potter é o triunfo da magia negra de Voldemort, em Nárnia é a dama branca do gelo e da neve que vem do conto da “rainha das neves” de Andersen para destruir a vida dos narnianos.

Neste caso, temos o Senhor da Morte a querer obrigar Cora, a princesa do Reino do Meio a casar com ele, a fim de se apoderar desse Reino.  O próprio narrador refere os mitos de Perséfone e de Orfeu e Eurídice como a fonte deste episódio e esse conhecimento é de enorme valia na luta contra o poderoso Senhor. Além da falta de uma figuração do que pode acontecer aos habitantes do Reino do Meio, caso vença o Senhor da Morte, sinto pouca consistência no mundo referido, isto é, falta o que poderíamos designar de efeito de realidade. Quando leio o Senhor dos Anéis, começo com uma descrição de um mundo totalmente diferente do meu - o dos Hobits. Eles ganham existência, graças à descrição que os faz aparecerem-me de carne e osso. São pequenos seres que despertam a minha solidariedade e ternura porque trabalham para sobreviver, vivem, morrem e têm conflitos uns com os outros, com personalidades complexas. Há um quotidiano no mundo dos Hobits, cujas regras são infringidas quando Bilbo coloca o anel que o faz desaparecer magicamente perante todos. Depois começamos a perceber como pode acontecer esse fato excecional. Quer dizer, aquilo que é estranho torna-se real para mim leitor, graças à riqueza da narração e da descrição.

Não me parece que os elementos que constituem o mundo fantasioso do Reino do Meio tenham essa consistência. Falta a dor do espaço que tem de ser percorrido. Parece tudo muito perto ou imediato, pela falta de acidentes, entre o Reino do Meio e o Vale dos Mortos. Aos seres fantásticos, quer aos bons, quer aos maus, faltam predicados, ações e limitações para serem amados ou odiados pelo leitor: os trombos, a serpente com cabeças humanas, os gnomos, as fadas, etc. Comparem-se por exemplo com os orcs ou os trolls do Senhor dos Anéis. O Vale dos Mortos aparece no Senhor dos Anéis com uma função positiva: permite a Aragorn atalhar caminho e chegar a tempo de salvar Gondor. É que também os mortos estavam contra o Senhor do Mal. Há males piores do que a morte.

Contudo, na mitologia grega, o mundo dos mortos, embora temido, não consitui uma ameaça. O problema foi Hades apaixonar-se por Perséfone, raptá-la e deixar a mãe desta, Deméter, furiosa e desleixada a ponto das plantas não crescerem mais e os homens passarem e morrerem de fome. Voltando ao problema de início, aparece muitas vezes a oposição entre o adulto, preso à realidade e a criança, livre no mundo da imaginação e da fantasia. A verdade é que as narrativas fantásticas para adultos não são menos fantasiosas do que as que se destinam às crianças. Todos nós precisamos e exultamos com a fantasia. Uma forma de resolver esta oposição é dizer que somos crianças toda a vida. Outra forma seria dizer que a fantasia é uma coisa muito séria.

Quanto à escrita, frase a frase, encontramos recursos interessantes e imaginativos. A relação entre tio e sobrinhos, nas contrariedades do dia a dia, na tentativa de aproximação do adulto às crianças e na entrada dele na brincadeira está descrita de uma forma cativante.

A ilustração de Tiago Araújo não ajuda a concretização da leitura. O tipo de simplificação gráfica parece “mal desenhado”. Não dá nova informação aos jovens leitores nem asas à imaginação.

Concluindo, O triângulo das portas acaba por ser uma história envolvente a que falta consistência narrativa e descritiva.

publicado por Redes às 23:31
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Segunda-feira, 26 de Maio de 2014

Eusébio ou Ronaldo? - a angústia de influência

Estou quase certo que Harold Bloom, o autor de The anxiety of influence - a theory of poetry (NY, Oxford University Press, 1997, a edição que tenho aqui) terá observado que a sua teoria não se aplica só à história da poesia de língua inglesa. No mundo dos desportos e das artes estamos sempre a ser inundados de rankings a destacar as figuras mais influentes. Os media internacionais publicam anualmente listas de campeões de influência, independentemente da área de atividade.

O problema dos jovens que se querem destacar é terem de disputar o seu lugar com os "poetas mortos". Aqui entramos numa competição muito séria em que é preciso desafiar o mito, tabu freudiano, isto é, é preciso matar o pai.

No caso do futebol, no nosso país, o pai é o Eusébio. Depois de rechaçar todos os futebolistas vivos, Ronaldo viu as suas pretensões a ser o melhor de sempre, serem recusadas de modo sisudo por muitos comentadores, como se fossem sacrílegas. Ainda vivo, vimos a expressão de incómodo por parte do rei, perante a ofensiva do jovem pretendente.

Sim, bateu recordes de golos de Eusébio! Então que lhe falta para ser considerado, ao menos, igual a ele? Asseveram-lhe que é impossível quase com um ar religioso, de censura a um pecado. Vimos depois um Ronaldo, de rabo entre as pernas, a prestar vassalagem ao ícone do Benfica, então ainda vivo, quase a pedir-lhe desculpa por ter ultrapassado mais um recorde.

Lembrei-me disto por causa da recente intervenção de Figo:

"Felizmente não estou no meio dessas comparações, porque é sempre subjetivo dizer quem é o melhor: Eusébio, Ronaldo, Figo, Maradona, seja quem for... Cada pessoa tem a sua opinião. Mas ninguém se pode comparar a Eusébio. É o rei" (http://www.dn.pt/desporto/interior.aspx?content_id=3415996)

Percebe-se a lógica inerente a esta declaração. Parece ser uma fuga à questão a que ele podia responder: "o Ronaldo é ou não melhor jogador do que tu foste?" Não, isso é uma questão de opinião (pois...), mas o maior e incomparável é Eusébio! Nada melhor do que falar do pai para calar uma competição entre irmãos, "ele é que era". 

(O rei a confortar um vencido)

Lembro-me de Bocage, a prestar a sua rendição a Camões:

 

Camões, grande Camões, quão semelhante 
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo! 
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo, 
Arrostar co'o sacrílego gigante; 


Como tu, junto ao Ganges sussurrante, 
Da penúria cruel no horror me vejo; 
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo, 
Também carpindo estou, saudoso amante. 


Ludíbrio, como tu, da Sorte dura 
Meu fim demando ao Céu, pela certeza 
De que só terei paz na sepultura. 


Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!... 
Se te imito nos transes da Ventura, 
Não te imito nos dons da Natureza.


Bocage, in 'Rimas'

 

Pois, Camões, aproximo-me de ti mas não chego lá. Mas pelo menos faço este soneto tão bem feito, ora vê lá!

Coragem, Ronaldo, ainda te hão de dar coroa, cetro e manto!

publicado por Redes às 22:22
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Sexta-feira, 9 de Maio de 2014

A literatura contra a leitura

Já tratei aqui do canone escolar, a propósito das metas curriculares. Resumo a minha opinião no seguinte: onde temos valores literários equivalentes, deve caber ao professor e aos seus alunos a responsabilidade da escolha. Quando o texto é uma obra de valor literário imcomparável, como é o caso de Os Lusíadas, é aceitável que o programa a imponha.

Com as metas e com o programa do secundário, viu-se em ação um outro critério que pode ser interpretado como o regresso do livro único. Registam-se não só títulos, mas também as próprias edições, de obras impostas aos alunos do básico e do secundário.

Tive curiosidade em ver como se fazia isto noutros países. Começarei pela França. Num documento governamental que trata do programa do secundário, quanto ao objeto de ensino do francês, decide-se o seguinte:

  • Para o romance e a novela do século XIX (naturalismo e realismo), propõe-se "Un roman ou un recueil de nouvelles du XIXème siècle, au choix du professeur".
  • Para o século XVII (classicismo), "une tragédie ou une comédie classique, au choix du professeur."
  • Para a poesia dos séculos XIX e XX, "Un recueil ou une partie substantielle d'un recueil de poèmes, en vers ou en prose, au choix du professeur."
  • Para estudar os géneros e formas de argumentação dos seéculos XIX e XX, "un texte long ou un ensemble de textes ayant une forte unité : chapitre de roman, livre de fables, recueil de satires, conte philosophique, essai ou partie d'essai, au choix du professeur."

A expressão mais repetida é precisamente esta: "au choix du professeur"

Neste programa, definem-se critérios para o professor seleccionar textos que contextualizam historicamente as obras que seleciona. As categorias empregues não referem generalizações histórico-literárias, sempre discutíveis, pois correm o risco de inserir os textos muito arrumadinhos numa meta-narrativa que conduzem a uma leitura meramente ilustrativa ou exemplificativa dos textos. Trata-se, pelo contrário de categorias analíticas.

Exemplifico: "Un ou deux groupements de textes permettant d'élargir et de structurer la culture littéraire des élèves, en les incitant à problématiser leur réflexion en relation avec l'objet d'étude concerné."

No nosso programa, são considerados como conteúdos tanto os textos literários como generalizações histórico-literárias. Por exemplo, os sonetos de camões já estão "lidos" no programa sob os tópicos:

A reflexão sobre a vida pessoal.

O tema do desconcerto.

O tema da mudança.

A leitura escolar, com este programa, tenderá a ficar reduzida ao reconhecimento destes tópicos nos textos. É aqui que me parece que o programa se antecipa à leitura que os alunos poderão fazer. Os nossos jovens nem terão que procurar outras palavras. Trata-se apenas de reconhecer pr exemplo que um certo poema corresponde ao tema do desconcerto e da mudança.

Será que assim aprendemos a dar sentido, a descobrir sentidos ancorados nos textos quando o programa já fez esse trabalho? Não se tratará só de reconhecer as etiquetas?

O programa dá-nos pois os textos lidos de tal maneira que muitos alunos dispensarão a leitura.

 

Site consultado:

Programme de l'enseignement commun de français en classe de seconde générale et technologique et en classe de première des séries générales et programme de l'enseignement de littérature en classe de première littéraire

 

publicado por Redes às 15:21
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