Terça-feira, 13 de Abril de 2010

Please, do the right thing

 

pope

 

Por uma vez, faça o que está certo - foi o que uma ex-vítima de um padre pedófilo exigiu ao papa Bento XVI. Ao falar assim, esta senhora não fez mais do que muitos fizeram na história da Igreja - exigir-lhe padrões de ética. Não seria de esperar o contrário?

Se a Igreja e o seu chefe máximo são o refúgio dos crentes na busca de Deus e do bem, contra o cruel mundo secular dos interesses e do pecado, não deveriam saber melhor do que ninguém o que é o Bem e o que é o Mal?

Infelizmente para os crentes, as religiões organizadas são boas a definir padrões de conduta, o que se chama "moral", mas são pobres no que se refere à ética. Todo o progresso moral da humanidade tem sido feito contra a Igreja, não só contra a Católica, mas contra praticamente todas elas.

Em nome de Deus, a Igreja permitiu e praticou todas as violências de que há memória.

Assim que se instituiu, nos seus primeiros bispados, a Igreja começou a mostrar a sua capacidade de violência. Veja-se logo no princípio do século V, a morte da filósofa platónica Hipatia às mãos duma turba chefiada por um santo padre da Igreja (São Ciril).

A reforma começa precisamente com Lutero a admoestar a Igreja pela prática da venda das indulgências. Nos séculos XV e XVI, a Igreja permitiu a Inquisição com todas as violências possíveis e imaginárias contra judeus, muçulmanos e outros acusados de práticas que, hoje, fazem parte dos direitos comuns dos cidadãos.

Se há homens da Igreja que se afirmaram pela defesa dos direitos do homem e dos povos, foi por sua conta e risco que o fizeram e não no seio da organização, como foi o caso de Bartolomeu de Las Casas no seu comovente testemunho acusatório do genocídio de mais de vinte milhões de índios pelos seus compatriotas.

A liberdade de culto e de consciência assim como a correspondente tolerância foram conquistas contra a Igreja.

Na luta contra a escravatura, não vimos a Igreja ao lado dos abolicionistas dos séculos XVIII e XIX.

Os direitos do homem afirmaram-se sempre contra os que na terra dizem ter uma relação especial com Deus.

É por isso que vejo agora com prazer, Dawkins, um paladino do humanismo ateu a tentar a prisão de Bento XVI em solo inglês sob a acusação de ter protegido padres pedófilos e de ter permitido a continuação dos seus crimes. Dawkins qualifica-o como

"a man whose first instinct when his priests are caught with their pants down is to cover up the scandal and damn the young victims to silence" (http://www.huffingtonpost.com/2010/04/12/richard-dawkins-arrest-th_n_533837.html).

Para nós, homens do século, trata-se apenas de julgar um crime de acordo com a lei e não de invocar a condenação divina. Quanto aos pedófilos, que sejam afastados de crianças, presos ou tratados, se for o caso, e não que sejam queimados como a Igreja fez a milhares que não o mereciam.

O facto é que a Igreja é apenas humana como todos nós e Deus não está lá mais do que em qualquer outro lado.

publicado por Redes às 23:00
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8 comentários:
De paulo guilherme trilho prudêncio a 14 de Abril de 2010 às 11:00
Viva Luís.

Nem mais. Oportuno e esclarecedor.

Abraço.


De Lúcio a 16 de Abril de 2010 às 00:06
"Igreja"? De que igreja fala?


De Redes a 16 de Abril de 2010 às 00:32
Falo da Igreja Católica. Não falo particularmente das outras igrejas cristãs.
Mas faço uma generalização que deve ser discutida. As mudanças dos padrões de ética não devem nada às igrejas organizadas. Contudo, quando aparece uma nova igreja dissidente, normalmente, há um apelo a uma revisão desses padrões de moralidade. Dou o exemplo da crítica à venda de indulgências por Lutero. Mas Lutero, teve pouco tempo depois de se comprometer com os príncipes alemães e a igreja luterana estruturou-se também como religião oficial.
A noção de que devemos ser tolerantes em relação às crenças religiosas de outras pessoas só foi conseguida no século XVI em França, na sequência de terríveis guerras e morticínios entre católicos e luteranos. O calvinismo tem também a sua história de violências contra pensadores, cientistas e outros religiosos.


De Lúcio a 16 de Abril de 2010 às 00:22
"Sobre aquilo de que não conseguimos falar, é melhor calarmo-nos."

Sábia máxima. Infelizmente, esquecida - até pelo escriba que dela faz lema.


De Redes a 16 de Abril de 2010 às 00:34
...


De Lúcio a 16 de Abril de 2010 às 11:36
Por certo Deus não está mais na Igreja (Católica - presume-se) do que noutro lugar. Contudo, toda a argumentação do escriba, eivada de um desatento maniqueísmo, parece sugerir que é sobretudo na Igreja (católica, pois!) que Ele não está.
As igrejas (também a Católica) como, de resto, todas as instituições, são produto humano - um modo histórico e particular de responder a solicitações; de organizar formalmente modos de sentir, modelos de intelecção e de normatividade. E todas elas são, por natureza, conservadoras, quase inertes - o contrário implicaria a sua irrelevância (se não, negação) e imediata supressão. Isso vale para as igrejas, para as sociedades, para os grupos humanos mais restritos. Vale para a arte e até para a ciência. Nunca a "massa" ou o colectivo inovou ou revolucionou - contrariando o pressuposto marxiano de que o escriba faz fé. As mudanças são sempre desencadeadas pelo indivíduo que, em qualquer domínio, tem de se haver (quantas vezes de modo trágico) com a colectividade que décadas depois lhe levanta a estátua no preciso local onde antes o supliciou.
Ainda assim, seria avisado reconhecer na Igreja Católica mais do que os aspectos negativos de que muitos dos seus membros (lideres, sobretudo) se revestiram. Séculos depois, cada um se sente um Salomão no juízo sobre o outro, preferindo ignorar que nos envergonhariamos se nos fosse dado assistir ao julgamento que a História fará de nós...
Seria avisado, por exemplo, reconhecer que o ideal laico (um princípio evangélico, não ateu) não se fez contra a Igreja mas contra o estado confessional - desde os primórdios, mas mais nitidamente a partir do séc XVII no espaço cultural e filosófico britânico onde a neutralidade confessional do estado é condição necessária da liberdade religiosa, ao contrário do que se propõe no modelo continental (francês, pois então) que fez escola e fede ainda entre nós - um estado laico anti-religioso, que se supõe tutor e pedagogo da consciência de todos nós, pobres ignorantes, vítimas inocentes nas mãos pérfidas da padralhada.
Seria avisado perceber, ainda, que nesta algazarra mediática o cinismo dos "novos puros" dificilmente se consegue esconder atrás das vítimas ("ex-vítimas", para usar a sua terminologia...) dos actos miseráveis de muitos padres. De resto, que moverá Dawkins, esse "paladino do humanismo ateu", perdão, esse campeão da justiça?



De Redes a 18 de Abril de 2010 às 18:48
Agradeço-lhe este magnífico comentário.
Embora me tenha referido à Igreja Católica, não quis sugerir que Ele não estivesse, sobretudo, lá. Creio que Ele não se mostra presente em nenhuma, embora os crentes de outras igrejas afirmem todos que a sua é aquela que tem a benção divina.
Subscrevo inteiramente o que escreve sobre o carácter conservador das instituições, em que a Igreja não foge à regra.
O que eu quis afirmar no meu artigo foi o atraso da igreja em relação aos nossos estados de direito e à consciência moral de milhares de pessoas. Ao recorrer a informação histórica quis mostrar que o estado actual não é a excepção. Pelo contrário, creio que Igreja Católica actual é muito melhor do que a do princípio da era cristã ou da medieval. Sublinho a adjectivação porque acredito no progresso humano.
O problema é que o Vaticano se considera excepcional no plano ético e é isso que lhe contesto.
Lamento ter dado a entender que eu defendo o pressuposto marxiano de que "as massas fazem a história". Observo a importância de indivíduos excepcionais. Realcei, por isso, Bartolomeu de las Casas e Lutero.
Não concordo com o relativismo histórico afirmado pois muitos dos pecados da Igreja Católica contrariam de modo evidente muitos dos seus textos sagrados e são contrariados por muitos indivíduos contemporâneos.
Aceito sem qualquer reticência a comparação que faz entre o laicismo britânico e o francês. Dum modo geral, a Revolução Francesa foi um episódio violento que, em pouco tempo, excedeu extraordinariamente os crimes e a intolerância do Antigo Regime.
Escrevi o que escrevi por acreditar pertinente a crítica das religiões e da moralidade que afirmam. Acredito que libertar pessoas das mentiras e dos logros das religiões é uma empresa positiva.


De Redes a 18 de Abril de 2010 às 19:00
Quando me referi à França do século XVI, pensava nos factos que resultaram no famoso édito de Nantes de 1598, após dolorosos e sangrentos episódios de intolerância religiosa. O édito passou a tornar-se um símbolo, embora em França, tenha sido revogado cerca de 80 anos depois, por Luís XIV. É sem dúvida possível encontrar exemplos melhores tanto na Inglaterra como nos Países Baixos.


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