Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

Metas de aprendizagem - extensão e complexidade

Parece-me que há um problema com a extensão e repetição de fórmulas que afasta o utilizador das metas de aprendizagem. Constata-se logo, numa primeira observação, a enorme quantidade de itens e hierarquias entre as diversas metas. Pelo articulado, depreendo que tal profusão se deve à intenção de inserir nas metas todos os passos da aprendizagem. Acharia mais útil que esta  informação estivesse à parte como orientação metodológica aqui e nos próprios programas oficiais.

Exemplifico. Desenvolver a consciência fonológica é um passo essencial e também uma consequência da aprendizagem da leitura, como numerosos estudos - de que lembro alguns do professor Alexandre Castro Caldas - provam. Mas as metas de aprendizagem estão na consciência fonológica ou na leitura e na escrita?

A desgraça da leitura foi o desprezo pela fonologia nos métodos de aprendizagem idealizados nos anos sessenta pelo construtivismo, que se baseavam na ideia da descoberta da escrita, expressão de um estudo célebre desta área que é o de Ferreiro e Teberovski (ver FERREIRO, Emília e TEBEROVSKI, Ana. Psico-gênese da Língua Escrita. Porto Alegre: Artes. Médicas, 1986), em que o sentido e o contexto (o global) dominavam a aprendizagem inicial da leitura esquecendo que os nossos sistemas de escrita alfabética não se fundamentam essencialmente nisso.

O resultado era haver aprendentes que não conseguiam dar o salto da leitura de frases e palavras inteiras conhecidas para palavras novas ou pseudo-palavras. Enfim, não dominavam a técnica da decifração nesta arte milenar que remonta aos antigos fenícios.

A haver metas para a leitura no 2º e no 4º ano de escolaridade seria a descrição ,num pequeno trecho, do desempenho da leitura que se deve esperar no final desses anos e não todos os passos. Parece que se receia que o professor não trabalhe ambas as vias de acesso à escrita: as unidades distintivas (fonemas e grafemas) e as unidades significativas (palavras e frases).

Parece-me que esta obsessão de pôr a metodologia em tudo torna mais difícil a utilização das metas de aprendizagem.

Eis o articulado que referi:

    • Consciência Fonológica

        O aluno suprime, acrescenta ou troca sons (fonemas) numa das sílabas da palavra.

        O aluno reconstrói palavras por combinação de sons da fala (fonemas).

        O aluno segmenta fonemicamente qualquer palavra.

        O aluno conta os sons (fonemas) de cada sílaba das palavras.

        O aluno produz palavras e pseudo-palavras através da manipulação de sons da fala (fonemas).

        O aluno identifica mudanças nas sílabas ou nas palavras por substituição, supressão ou adição de um som da fala (fonema).

        O aluno identifica grupos consonânticos no interior da palavra.

        O aluno identifica grupos consonânticos em posição inicial de palavra.

        O aluno altera o acento da palavra gerando nova palavra ou pseudo-palavra.

        O aluno identifica a sílaba tónica.

        O aluno identifica as sílabas que estão antes e depois da sílaba tónica.

    • Reconhecimento e Escrita de Palavras e Letras

        O aluno ordena alfabeticamente palavras.

        O aluno identifica e escreve todas as letras maiúsculas e minúsculas do alfabeto.

        O aluno faz a correspondência som/grafema para todas as letras do alfabeto e todos os dígrafos.

        O aluno soletra (as letras de) palavras dissilábicas.

        O aluno reconhece globalmente palavras frequentes e menos frequentes.

        O aluno reconhece globalmente palavras frequentes.

        O aluno reconhece os grupos consonânticos mais frequentes do português.

        O aluno usa o conhecimento de sequências gráficas frequentes para ler palavras desconhecidas (e.g.: casa/casamento; lê/relê).

        O aluno usa a correspondência letra/som para ler palavras desconhecidas.

        O aluno usa o conhecimento das sílabas para decifrar palavras desconhecidas.

        O aluno escreve palavras e frases.

Não creio que um documento desta extensão possa ser considerado estanque. Acho que a prática deve conduzir à sua reformulação. Aqui fica posta a público esta observação de alguém que tenta honestamente utilizar as metas de aprendizagem.

publicado por Redes às 15:13
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2 comentários:
De anónimo a 11 de Janeiro de 2011 às 05:15
Fui leitor intensivo na infância, adolescência e juventude. porque era um solitário sem amigos e só tive TV em casa quando já tinha 20 e tal anos. Suspeito que só li porque não tinha TV nem companhia. Acho que há mais de 10 anos que não termino um livro de ficção. O último que li com prazer foi "O perfume" de Patrick Suskind. Lêr exige esforço de concentração e as histórias não prendem. Os escritores fazem malabarismos no estilo e o enredo é vulgar ou vagamente perceptível. Só me lembro de, quando jovem, ter gostado de um livro pelo estilo de escrita: "A tarde do senhor Andemas" (salvo erro), de Marguerite Duras. Isto tudo dito, lêr é fundamental mas mais das vezes chato. Além de que, quando se conhece um intelectual, a sua arrogância, snobismo, má criação e gosto por humilhar os simples é geralmente tão evidente que as mais das vezes apetece puxar do revólver. Como o outro. É insuportável a psicopatia da cultura! Aderem não porque SAIBA BEM mas porque FICA BEM. A cultura como adorno. A flor na lapela é tão grande que faz efeito de couve.


De Redes a 11 de Janeiro de 2011 às 23:38
"A cultura como adorno. A flor na lapela é tão grande que faz efeito de couve." - bela frase! Creio que lemos também por isto: associações, comparações, metáforas e não só por causa do enredo. Parece-me que nenhum filme substitui um romance. Mesmo em termos de conhecimento científico, o audio-visual não substitui a escrita. Muitos grandes cientistas, de Einstein a Hawking foram também escritores de ciência.


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