Sábado, 8 de Janeiro de 2011

Quem compra a nossa dívida?

É uma conversa muito interessante no bolsa na bolsa ponto come (Veja aqui).

 

Francisco Louçã acusa os bancos portugueses de estarem a financiar-se no BCE a 1% para emprestarem ao Estado a 7%. Portanto, nós estamos a dar-lhes 6%. E isso é um grande problema para Louçã. Contudo, os bancos ao comprarem a nossa dívida estão a prestar um serviço à Nação. Eles podem comprar dívida alemã que dá menos juros, mas é mais segura, ou a grega que dá mais rendimento mas é ainda menos segura.

Será que podemos acusá-los de nos estarem a roubar? Isto é de facto um negócio dos diabos. Os governos não podem financiar-se directamente no BCE. Na verdade, eles devem financiar-se com os impostos dos seus cidadãos. Quando pedem empréstimos, é porque estão a gastar demais. Quem está mal não é quem empresta mas quem pede.

Os juros estão altos? Ora um dos factores que os fazem altos é precisamente o facto da estrutura da nossa dívida ser em 75% estrangeira. Assim, poderíamos até acusar os bancos portugueses de não investirem o suficiente no Estado, não fosse o caso de o montante da dívida nacional ser demasiado grande para os nossos bancos e de eles, como quaisquer agentes económicos, também temerem pelo risco de incumprimento.

Quanto mais se investe na dívida, maior a procura, menor o juro. Assim, porque os acusamos? Ficamos contentes por saber que o BCE nos veio comprar dívida, o que faz na intenção de ajudar os estados europeus nesta crise.

Quanto a Louçã, paciência, é vítima dum paradoxo da teoria económica marxista. Creio que nunca conseguirão abeirar-se da economia real sem preconceitos. Quando não se limitam a ter um discurso analítico e crítico e querem intervir, não sabem o que dizer e fazer.

publicado por Redes às 02:59
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4 comentários:
De Paulo G. Trilho Prudencio a 9 de Janeiro de 2011 às 00:30
" (...) Quando não se limitam a ter um discurso analítico e crítico e querem intervir, não sabem o que dizer e fazer.(...)"


Viva Luís. Esta tua opinião tem tanto de pertinente como de fomentadora da impossibilidade da crítica pela crítica. Embora me reveja mais na tua ideia, temos de reconhecer que quem se posiciona na segunda posição presta um serviço à democracia e ao progresso das sociedades.


E bem: ter um discurso analítico é, desde logo, agir, dizer e construir.


Abraço.


De Redes a 10 de Janeiro de 2011 às 00:45
O discurso crítico deve mostrar coisas interessantes: por exemplo, para onde foi o dinheiro e a justeza e a equidade dos cortes.
A verdade é que está o país todo a viver acima das suas possibilidades.
Muitos querem salvar o seu rendimento e ignorar o resto do país.
Posição de esquerda, se é que significa alguma coisa, é questionar o desemprego, as disparidades (os vencimentos dos gestores, a miscigenação entre interesses públicos e privados, etc.).
O ataque aos bancos pelo BE fundamenta-se na tese marxista-leninista de que é no capitalismo financeiro do nosso tempo que estão os maiores exploradores.
Os bancos são presos por ter e por não ter cão: se não compram dívida não ajudam o país; se compram, estão a roubar-nos.


De Redes a 10 de Janeiro de 2011 às 01:06
Posto isto, acho que tens razão. Acho pedagógico que Louçã nos mostre como os bancos trabalham no sistema europeu. O que eu quis mostrar é que é uma fatalidade que façam isso.
Como mostrei, eles não têm que investir em dívida, nem especialmente na portuguesa. Fazem-no por interesse.
Mas o problema de Portugal é o inverso do que Louçã nos mostra: é não haver quem compre a nossa dívida. Quantas mais compradores, menores os juros.


De Redes a 11 de Janeiro de 2011 às 00:25
Quanto mais compradores, menores os juros.


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