Quinta-feira, 19 de Maio de 2011

O Partido dos Animais e da Natureza

Paulo Borges e o seu PAN (Partido dos Animais e da Natureza) apresenta algumas propostas políticas que subscrevo inteiramente, mas discordo fundamentalmente dos pressupostos ideológicos, patentes na própria designação do partido. Não faz qualquer sentido um partido da natureza, porque a natureza é uma totalidade perfeitamente indiferente que tudo abarca e nada exclui. Não encontro nenhum elemento ético na constituição da natureza. Nao creio que nos possamos afastar ou aproximar da natureza, nem tampouco que a natureza possa inspirar qualquer espécie de ideal. A oposição homem / natureza é uma falha filosófica. Foi naturalmente que o símio se fez homem e foi a sua herança genética que lhe permitiu construir computadores, enviar foguetões à lua, fazer o holocausto e destruir a floresta amazónica.

Se se puser o problema da sobrevivência humana, a perspectiva ecológica, a perda humana que significa o desaparecimento de espécies animais, ganha todo o cabimento. Não precisamos de defender os outros animais do sofrimento, gostemos mais ou menos deles. Eles nunca reconhecerão essa solidariedade que é uma questãozinha da espécie humana. Nunca farei uma manifestação contra as touradas, embora as ache desprezíveis. Lamento que seres humanos se divirtam com o sofrimento dos touros, por causa daqueles e não por causa destes que são criados para fazerem bons bifes.

Noutros ecossistemas, os touros são bons para serem comidos pelos leões e por outros predadores, que aliás também se divertem a fazê-los sofrer, prática em que são pródigos os predadores mais jovens nos seus jogos de aprendizagem da nobre arte da caça.

Os animais nunca são coisas, porque as coisas verdadeiramente sem vida não se podem comer. Os animais são objectos da cultura humana e é esta que lhes define os papéis. Desde a domesticação das plantas e dos animais, a caça deixou de fazer grande sentido. É nas culturas mais atrasadas que o animal, besta e monstro, é apresentado como troféu do guerreiro ou do caçador. Alguns rituais como o da matança do porco parecem evocar um tempo em que a luta entre o homem e os outros animais era uma questão de sobrevivência.

Repudio completamente toda e qualquer equiparação que se faça em termos de direito entre o homem e os outros animais, pela simples razão de que só os homens têm sistemas de leis e de direito e eu pertenço à comunidade humana. Exemplo dessa equiparação é a feita por Peter Singer que acha que pode pôr lado a lado animais com comportamentos e sistemas neurológicos mais avançados e seres humanos diminuídos nas suas capacidades pela doença. Uma pessoa com Alzheimer, por exemplo, não pode ter menos direitos que qualquer outro e não se pode atribuir mais direitos a um chimpanzé por ser eventualmente mais inteligente pela simples razão de que o direito pertence à comunidade e essa pessoa com Alzheimer, que já não diz coisa com coisa e nem sequer é capaz de fazer algumas tarefas perfeitamente ao alcance de um chimpanzé, é uma pessoa que tem o mesmo ADN dos seus familiares que nunca deixarão de a ver como humana. Nenhum ser humano pode ser sujeito a um teste cognitivo para aferir da sua humanidade.

Dito isto, aceito de bom grado que seja proíbida a captura e o tratamento cruel a essas criaturas que são nossos primos na história evolutiva e nos fazem lembrar muita da nossa humanidade.

Acho que a doutrina do PAN só se torna coerente, se acreditarmos na transmigração das almas.

 

publicado por Redes às 22:27
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6 comentários:
De Lúcio a 20 de Maio de 2011 às 09:48
Parabéns!


De Lúcio a 20 de Maio de 2011 às 09:52
Mas veja como o contra-argumento de Singer a que alude pode ilegitimar, por exemplo, a tão aplaudida legitimidade do aborto...


De Redes a 27 de Maio de 2011 às 01:47
O aborto é uma prática milenar. Defini-lo não é tarefa fácil. Há os que consideram que os DIU já matam seres humanos, sendo, por isso, uma instrumento abortivo.
Quando o aborto é da iniciativa da mulher, a questão que se coloca é o direito que ela tem sobre essa parte do seu corpo. Em que momento da gestação é que a comunidade se acha no direito de dizer à mulher: "Há aí um indivíduo que tem direitos. Por isso, não o podes matar".
Há quem ache que o feto faz parte do corpo da mulher até ao nascimento. Há os que acham que o feto é um ser humano logo a seguir à concepção, quando ainda é um ovo!


De Redes a 27 de Maio de 2011 às 01:49
onde digo "uma instrumento abortivo" quero dizer "um ..."


De Lúcio a 4 de Junho de 2011 às 19:25
Pois, se trilarmos esse caminho, enredamonos em grandes embaraços; o homicídio é desculpável se a vítima for um idiota e grave se se liquidou um Einstein?!... Pareceria que sim. Mas os critérios de despenalização do aborto conduzem aí.


De Lúcio a 4 de Junho de 2011 às 19:27

com hífen, claro.


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