Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013

Diálogo sobre a desigualdade social

"Vamos começar o nosso diálogo socrático sobre a desigualdade social seguindo algumas das lições do nosso longínquo mestre".

 "Muito bem, estou de acordo, mas se me permites poupemos aos nossos leitores aquela parte em que Sócrates se encontra com o seu interlocutor e lhe pergunta de onde ele vem e para onde vai. Ora, todos sabem de onde vens e, quanto a mim, fico-me aqui por estas linhas"

 "Pois bem, sei das tuas limitações espacio-temporais. Mesmo assim, tens feito alarde das tuas posições marxistas (não ortodoxas, como gostas de assinalar) críticas da desigualdade. Não estás sozinho nisso. Aparentemente, não falta gente de direita e de esquerda a falar contra a desigualdade social"

"Começamos pelo termo, pois é muito frequente as palavras serem uma fonte de enganos, apesar de sem elas não nos podermos entender. Quem se afirma contra a desigualdade é defensor da igualdade. Não estás de acordo?"

"Bem, isso não oferece a menor dúvida"

"Também te parece que a desigualdade social implica desigualdade no rendimento"

"Claro. O essencial é mesmo a desigualdade económica. Os liberais é que parecem querer convencer-nos que os pobres são assim por inclinação ou por preguiça incurável"

"Defendes então a igualdade de rendimentos, isto é, que toda a gente deve ganhar a mesma coisa"

"Sou a favor de alguma igualdade de rendimentos, mas não de uma igualdade absoluta"

"Sejamos rigorosos, não há mais ou menos igualdade, só há igualdade. A desigualdade é que é graduável. Devo, então concluir que és defensor da desigualdade..."

"Eh lá, isso agora ofende-me"

"Mas então se recusaste a igualdade, só podes ser a favor da desigualdade."

"Bem, o que eu pretendo é que a desigualdade diminua"

"Então tu e todos os outros paladinos são de uma forma geral defensores da desigualdade e não propriamente da igualdade. Mas revoltam-se contra o grau de desigualdade e querem diminuí-la?"

"Mas diminuir muito, quero enfatizar isto"

"Só te fica bem e podes crer que os teus companheiros de luta dessa nobre causa não serão tão diferentes assim. Tanto mais que tu és um dos beneficiados com a desigualdade de rendimentos no teu país, pois ganhas três vezes o salário médio em Portugal. A questão que te quero pôr é se achas realmente que a tua praxis vai no sentido de luta contra a desigualdade."

"Bem sei que sou um privilegiado, apesar de me estar sempre a queixar de falta de dinheiro e andar à procura de expedientes para aumentar o meu rendimento. Mas tenho lutado contra o sistema capitalista que causa tudo isto, tenho feito manitestações e greves e voto sempre nos que lutam pelo socialismo."

"Lembro-me que, há cerca de quinze anos, o teu sindicato argumentou que os vossos salários tinham que subir porque tinha aumentado o salário mínimo e a razão entre o vosso salário e o mínimo tinha-se degradado e tu participaste na vitoriosa greve que alterou a estrutura da tua carreira e aumentou estrondosamente o teu vencimento. Achas que essa luta aumentou ou diminuiu a desigualdade de rendimento?"

"Acho que diminuiu porque nós queríamos ganhar o mesmo que pessoas com as nossas qualificações académicas já ganhavam noutros setores"

"Achas então que a luta contra a desigualdade faz-se reivindicando aumentos que nos aproximem dos que ganham mais do que nós e impedindo que diminua a distância que nos separa dos que têm menores rendimentos?"

"Bem, quer dizer, cada grupo luta por si."

"E eu não estou contra isso. O problema é enquadrarem isso com um discurso ideológico que fala de igualdade real, contra a igualdade fomal da democracia burguesa. Por ti próprio, verificas que isso é falso. A única maneira de compreender as lutas dos trabalhadores atualmente é o que tu disseste "cada grupo por si". Queremos ser um corpo especial, com uma carreira própria, para aumentarmos as hipóteses de sucesso na reivindicação de mais regalias. E nisso não diferimos de todos os outros grupos corporativos. Não vemos um comunista chegar ao pé de nós e dizer: vocês já ganham muito relativamente ao resto do povo, deixem-se de reivindicações, agora vamo-nos preocupar só com os jovens desempregados e com os desempregados de longa duração. A hipocrisia está aí: querer sustentar uma praxis corporativa com o palavreado duma luta por um socialismo igualitarista.

publicado por Redes às 18:00
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2 comentários:
De INDIGNADO a 15 de Outubro de 2011 às 22:22
http://youtu.be/FCj-2s98jfk


De paulo prudêncio a 16 de Outubro de 2011 às 23:11
Viva Luís.


Muito interessante este diálogo. É acutilante e polémico, qb.


Vou levá-lo para o meu blogue.


Abraço.


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