Sexta-feira, 5 de Outubro de 2012

Do que sabemos sem ter aprendido

 

Retirado de http://thesituationist.wordpress.com/tag/elizabeth-spelke/, pertence ao The Telegraph (http://www.telegraph.co.uk/)

 

“Os bebés já sabem muito quando nascem”, artigo que sai hoje, dia 5 de Outubro, no Expresso[i], constitui uma farpa nas crenças psicopedagógicas de muitos educadores e professores em Portugal. Elizabeth Spelke, uma psicóloga americana que tem estudado os conhecimentos fundamentais que os bebés possuem, confirma, com as suas pesquisas, teses diametralmente opostas ao construtivismo de orientação piagetiana que continua a predominar nas escolas de formação de professores e de educadores neste país.

No artigo, encontramos facilmente fatos inconsistentes com o construtivismo. Nós nascemos com capacidades cognitivas fundamentais que Piaget cria que se desenvolviam na criança, através da interação com o meio no chamado período sensório-motor. Seria esse o caso, por exemplo, do objeto que desaparece do campo visual da criança que levaria algum tempo a evoluir no sentido da noção da permanência do objeto, isto é, o desaparecimento dum objeto atrás de outro não significa para a criança a sua inexistência. Ora, como Elizabeth nos diz

“Os bebés parecem ter sido ‘construídos’ para dividirem o mundo percetível que veem em partes relacionadas que estão separadas uma a uma e que se movem como se estivessem ligadas, de uma forma contínua, mesmo quando estão fora da vista”

Um outro item muito pertinente é o reconhecimento da face humana. A teoria da equilibração entre acomodação e assimilação não é capaz de explicar a extraordinária capacidade dos bebés distinguirem a face humana de tudo o resto e aprenderem facilmente a distinguir rostos de pessoas diferentes. Simplesmente, nascemos com a capacidade de distinguir rostos uns dos outros. Chomsky deu o exemplo desta capacidade humana inata para a pôr em paralelo com a sua teoria da gramática universal que inicialmente designou de “generativa”. Veja-se, por exemplo, “Linguagem”, publicado em Linguagem – Enunciação no volume 2 da Enciclopédia Einaudi[ii] (p.51).

O mesmo acontece com o conceito de número que a psicologia genética apresentou como tendo origem nessa atividade sensório-motora. Spelke mostra um conceito original e inato que depois é precisado e desenvolvido. Para discutir este assunto, gostaria de revisitar a teoria de Piaget e Inhelder, mas prefiro avançar para outro domínio que me interessa mais – o da linguagem.

Estas pesquisas da psicologia e da neurociência têm, de uma forma consistente, comprovado a tese chomskiana de uma capacidade inata para o ser humano apreender as estruturas de uma língua. Os psicólogos de orientação piagetiana afadigavam-se a tentar provar que a linguagem se desenvolvia através da interacção com o meio e que obedecia a uma teoria geral da aprendizagem, a tal que refere os mecanismos de acomodação e asimilação, e que começa pela aquisição de uma função simbólica genérica. Contudo, relendo o célebre debate entre Chomsky e Piaget[iii], com vários intervenientes dos dois lados, descobrimos facilmente que os construtivistas não conseguem responder às objeções dos “inatistas”.

Ambas as teorias foram bem sucedidas e infiltraram-se na pedagogia como se entre elas não houvesse contradição. Duma forma geral, o pedagogo moderno era construtivista, isto é, acreditava que a capacidade de aprender se desenvolve duma forma relativamente independente do conteúdo a que se aplica. O que importava na educação era não apreender conteúdos e conceitos relativos aos objetos de estudo – a língua, os seres vivos, a história, a geografia, a matemática, etc. – mas sim de “aprender a aprender”.

Esta obsessão resultava na prática de colocar os alunos a descobrir coisas que o professor se inibia de ensinar diretamente, pois importava mais treinar os alunos como aprendentes.

Torna-se cada vez mais evidente que, por um lado, as capacidades cognitivas são inatas, embora tenham que se desenvolver em interação com o meio, e que por outro, não há nenhum “aprender a aprender” independente do conteúdo daquilo que se aprende. Por exemplo, não há nenhum “tempo histórico” que não passe pela memória de muitos fatos históricos nem generalização científica que não passe por conhecer muitos conceitos científicos.



[i] Expresso, 5/10/2012, Primeiro caderno, p. 23.

[ii] Noam Chomsky, “Linguagem”, in Linguagem – Enunciação, vol. 2 da Enciclopédia Einaudi, Lisboa, IN-CM, 1984, pp. 11-56.

[iii] Teorias da linguagem, teorias da aprendizagem, Lisboa, Edições 70, 1977.

publicado por Redes às 17:45
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