Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013

Metas curriculares de português - uma manifestação de conservadorismo

As metas curriculares justificam-se pela preocupação de assegurar ao mínimo as aprendizagens a realizar anualmente.

O ministro Nuno Crato, antes de ser ministro, criticava os programas por estabelecerem as estratégias que os professores deviam aplicar, em vez de se limitarem aos conteúdos. Defendia a neutralidade pedagógica do programa.

Eu classificaria essa opção como liberal, pois daria mais liberdade ao professor que não teria que se preocupar em levar os alunos a "descobrir" e "construir" conceitos, o tipo de estratégias a que os programas aparentemente obrigavam. O professor poderia optar por estratégias de "direct instruction" e desenvolver as aplicações dos conceitos e algoritmos com os alunos. Podemos aprender de memória factos, regras e procedimentos e, mais tarde, compreendê-los. Lembro-me que aprendi de cor os reis de Portugal e o algoritmo da raiz quadrada e só mais tarde os compreendi. Essas duas aprendizagens valeram para a vida toda. Só compreendi o algoritmo da raiz quadrada no 3. ciclo, quando a vi representada geometrica e algebricamente num quadrado. Quanto à lista dos reis de Portugal, só a relativizei um pouco com a história universal do terceiro ciclo, quando sincronizei os nossos reinados com os acontecimentos da história europeia.

Mas muitos professores são adeptos de uma pedagogia dita construtivista que opta por didácticas mais demoradas, em que o caminho parece ser mais importante do que o fim, o aprender mais relevante do que o seu objecto. Não deveriam as metas permitir-lhes igualmente provar que conseguem atingir esses objectivos com os seus métodos?

Isso seria possível se as metas se limitassem a definir modestamente aprendizagens verificáveis. Um dos obstáculos a essa simplicidade é o facto das metas serem anuais. Muitas aprendizagens anuais são necessariamente intermédias e correspondem a patamares de uma didáctica pressuposta. Por exemplo, foram introduzidas metas da leitura que respeitam a uma didáctica da aprendizagem inicial da leitura e não definem de modo nenhum um desempenho na leitura. Ler pseudo-palavras não é nem pode equivaler a ler. Ou é um teste psicolinguístico ou um exercício que faz parte de uma certa didáctica. Eu aprendi a ler com um método alfabético, sintético, e não me apresentaram nunca pseudo-palavras.

As metas apresentam textos literários prescrevendo mesmo os autores e as edições, sem que essas obras correspondam a uma relevância histórica e cultural equivalente à sua obrigatoriedade. Ler esses textos não pode ser considerado um desempenho. Trata-se de uma imposição arbitrária.

Os autores das metas não resistiram a impor os seus pressupostos pedagógicos. Mais do que isso, impuseram as suas próprias opções estético-literárias, numa área que era até aqui do âmbito da liberdade do docente.

Em vez de liberalizante, as metas consagram uma atitude centralizadora e própria duma direita conservadora e não de uma direita liberal. E aqui não há nada de novo. Até agora, os programas têm enfermado da mesma doença de desconfiar dos professores e, receosos de não serem cumpridos, desdobram-se em detalhadas orientações metodológicas. As metas foram ainda mais longe, limitando ainda mais as escolhas dos professores.

publicado por Redes às 16:59
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