Sexta-feira, 8 de Novembro de 2013

Educação e desenvolvimento

Oficina de James Watt

 Oficina de James Watt (Wikimedia, endereço na imagem)

 

Desde que participei numa ação de formação sobre este tema, fiquei obcecado com a questão da relevância do grau de escolarização da população enquanto fator do desenvolvimento económico. Essa ação - desenvolvida pelo Centro de Formação do Professores do Oeste - era constituída por conferências dadas por importantes personalidades na cena da educação em Portugal.

Carlos Fiolhais, um dos oradores, apresentou evidências que me pareceram constituir uma prova muito forte do papel central da escolarização na génese da sociedade industrial. Pelo contrário, João César das Neves relegou essa demonstração para o campo da mera especulação histórica, considerando, embora, importante, a escolaridade básica.

A história tem desses problemas - tal como a criminologia, a etnologia e a medicina, trata do singular e não do geral como a física - como disse Aristóteles para a distinguir da literatura, trata do que aconteceu e não do que pode acontecer.

Pois a questão, em termos históricos, coloca-se assim: como é que devemos narrar a história da génese da sociedade moderna, isto é, o processo comumente designado por "revolução industrial"? Será que importa falar sobre educação e escola quando tratamos desse tema ou apenas de acumulação primitiva do capital, separação entre produtores e meios de produção, cercamentos, etc., como tem feito a história económica de orientação marxista ou marxizante?

É que se se comprovar que a escolarização foi um fator fundamental da primeira e das outras revoluções industriais, isto é, algo que as precedeu e não um luxo que resultou do aumento da riqueza proporcionado pela industrialização, podemos arriscar a generalização, ou se preferirmos, mais modestamente, a lição da experiência histórica da humanidade, de que vale a pena o estado investir na educação, como algo que gera desenvolvimento económico.

Para chegar aí, podemos tratar séries de dados e avaliá-los com correlações, uma ferramenta estatística importante, embora nem sempre seja possível criar as séries de dados relevantes para esse tratamento. Além disso, a evidência histórica não pode depender unicamente de instumentos de análise estatística, mas sim da arregimentação de séries de factos e da argumentação que implica sempre a comparação com outras séries, para relevar causas que resultam nos mesmos efeitos.

A primeira revolução industrial é, claro, um processo único na história, mas não a inovação tecnológica que está sempre a acontecer. E podemos questionarmo-nos em que condições é que ela acontece. Portanto, em que situação é que ela aconteceu no século XVIII, na Inglaterra, e se a escolarização da população foi importante nesse processo.

Na sua conferência, Carlos Fiolhais mostrou evidências arrasadoras da enorme diferença em termos de alfabetização e escolarização entre os países ibéricos, e o norte da Europa, com a Inglaterra a liderar.

De facto, antes da revolução industrial do século XVIII, houve nos dois séculos anteriores, na Inglaterra, uma revolução na escolarização da população. No tempo que vai de Henrique VIII à rainha Isabel I, criaram-se inúmeras escolas independentes da igreja quando os mosteiros acabaram. Eram de acesso fácil, especialmente para as corporações de artesãos, pois, muitas dessas escolas lhes pertenciam. É por isso, que vemos nas biografias dos intelectuais da época, filhos de pessoas analfabetas do mundo dos ofícios, a frequência de escolas onde imperava a aprendizagem da leitura e da cultura clássica do latim e do grego.

É, por exemplo, o caso de Shakespeare, Christoffer Marlowe (outro dramaturgo, muito importante) e Robert Greene, um crítico, novelista e dramaturgo. O primeiro era filho de um luveiro, o segundo, de um sapateiro e o terceiro de um seleiro, pessoa que fazia acessórios de couro para cavalos. Podíamos referir outros, filhos de analfabetos que chegaram à maior notoriedade intelectual, graças à popularização da escola. Marlowe frequentou o Kings College de Canterbury, em cujas páginas podemos revisitar uma história de cerca de cinco séculos.

Do período isabelino ao arranque protagonizado pela máquina a vapor, vão cerca de duzentos anos. Poderíeis dizer que o desenvolvimento que referi é humanista e literário, ao passo que a revolução industrial tem a ver com capital, mercado, indústria e máquinas. Quando me lembrei de Carlos Fiolhais dar o exemplo de Michael Faraday, lembrei-me de pesquisar a formação individual dos protagonistas do arranque do final do século dezoito. Faraday foi o grande cientista que criou a base da segunda revolução industrial, aquela que nos trouxe a lâmpada e o motor elétrico. Foi a leitura, a escrita e a aritmética, aprendidas na escola que lhe permitiram o primeiro emprego num livreiro que o havia de conduzir ao conhecimento científico e ao lugar de ajudante de Humphry Davy, o inventor da uma lâmpada de segurança para os mineiros. Mas Faraday foi o desbravador de um novo continente científico, o da eletricidade e do magnetismo, mas não um inventor. Então que dizer dos inventores que o precederam?

Pela primeira vez, tive curiosidade em saber mais sobre James Watt, além da referência à sua invenção da máquina a vapor. Figurava-o junto de máquinas e não no campo das humanidades, um engenheiro da prática, ignorante do que se passava nas academias. Não, nada disso! O inventor da máquina a vapor teve uma educação clássica, com latim, grego e matemática. Interessou-se por máquinas, talvez por causa da oficina de construção de barcos do pai. Melhorou a máquina a vapor de Thomas Savery que servia para tirar água dos poços das minas. Para isso, obteve ajuda da Universidade de Glasgow, em cujas oficinas, desenvolveu o seu projeto que deu origem à máquina que movimentou o mundo na era do vapor e do carvão. Ao contrário do que hoje nos parecem fazer crer, a universidade está presente na indústria desde o seu início e não só na atualidade. Os antecessores de Watt são também produto da escolarização: Thomas Savery (1650-1715) foi um engenheiro militar que modificou a máquina do francês Dennis Papin (1647-1712). Este teve uma educação inicial jesuíta, era licenciado em medicina e tinha colaborado em trabalhos científicos sobre o vácuo com Huygens e Leibniz.

Os grandes protagonistas da revolução industrial e científica dos séculos XVII, XVIII e XIX passam pela educação escolar. Estão também ligados, de uma forma ou de outra, à universidade. Não são pessoas formadas pelo mundo do trabalho. A academia precedeu a sua entrada em contato com a economia. Portanto, a inovação depende da escolarização, a escola precede a economia. Não é condição suficiente, mas é provavelmente condição necessária.

Quando se diz que a educação não é um fator do desenvolvimento, não pensamos na inovação, pensamos apenas em expansão da produção industrial e do rendimento. Nesse tipo de desenvolvimento subordinado, em que as ideias vêm do exterior, plasmadas em máquinas e, por vezes, em fábricas inteiras, bastam-nos operários mediamente formados que não saibam demais e que cumpram a sua função da forma mais silenciosa possível. Se pensarmos em locais de trabalho onde a inovação acontece, em empresas que surgem nos bancos das universidades como a Aple e a Microsoft e muitas outras que também temos por cá, o investimento na educação é o fator primordial. Steve Jobs e Bill Gates deixaram a universidade precocemente quando já tinham ideias para avançar, mas foi no ambiente universitário que geraram essas ideias.

Também não devemos confundir educação com número de diplomados, pois sabemos que estes se podem criar facilmente sem o correspondente saber técnico e científico.

A defesa da escola para todos não depende da sua importância para o desenvolvimento económico. Funda-se num conceito de libertação e desenvolvimento do homem que vem do iluminismo. Libertação da opressão religosa e supersticiosa, dos poderes que impedem a sua mente de pensar e que limitam a sua faculdade de julgar. Muitos dos que amam a ciência e a cultura sabem que importa partilhá-la com os seus concidadãos. Importa gritar-lhes que é a terra que anda à volta do sol e não o contrário que a chuva não vem com procissões, mas que depende de múltiplos fenómenos atmosféricos, que pode haver muitas razões para vermos uma senhora no alto duma árvore antes de pensarmos logo que tem que ser a nossa, que uma estátua da dita pode lacrimejar pelos mais variados motivos de ordem físico-química, antes de julgarmos que ela está a chorar pela morte do filho há dois mil anos ou por alguma coisa indecente que lhe tenham feito. 


Bibliografia

 

Recurso a artigos da Wikipedia: Education in England, Public school (United_Kingdom)William ShakespeareChristopher Marlowe, Robert GreeneMichael Faraday, James Watt e Denis Papin.

"Thomas Savery" in Encyclopaedia Britannica.

"Máquina a vapor" in Infopedia.

Kings School - "A brief history" in Kings School

Gillard, Derek (2011) "Education in England: a brief history" in Education in England

publicado por Redes às 21:50
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