Terça-feira, 25 de Janeiro de 2005

A febre do código Da VinciCrítica

Finalmente, li O código Da Vinci! Um pouco
forçadamente, é certo, para saber do que se trata,
quando, no café ou em reuniões de família,
alguém fala dele. Isso acontece tão frequentemente, que
a leitura se tornou obrigatória. As referências não
vêm geralmente a propósito da história contada no
livro, mas sim das teses históricas que constituem o seu
material. Para muitos leitores, o romance vale como ensaio, síntese
ou mesmo documento histórico.


É, contudo, um romance policial. No início,
somos colocados perante o mistério de um homicídio e
com duas personagens que se envolvem no caso. A progressão
faz-se por meio de charadas, mensagens cifradas que se trata de
descodificar. O mistério para o leitor é apenas o
seguinte: aquilo que o narrador não nos revela e adia.
Portanto, nem sempre coincidentes, são vários os
mistérios que se desenvolvem, o do leitor e os das
personagens. O narrador, omnisciente, mesmo que quisesse não
nos poderia nunca dar tudo de uma vez, pois o tempo do contar tem de
alguma maneira de se corresponder com o tempo do acontecer romanesco.
As próprias sincronias romanescas resolvem-se, necessariamente
em diacronias discursivas.


Além disso, o contador quer deixar-nos em
pulgas, ansioso pelo próximo capítulo e doseia
intencionalmente a informação para obter esse efeito. O
romance apresenta-se como uma trança que se vai fazendo.
Larga-se uma sequência espaço-temporal para acorrer a
outra que, mais à frente se vai encontrar com a primeira. E de
várias sequências e de várias pontas se faz este
jogo.


Logo de início, assistimos ao assassinato do
conservador do Louvre. Enquanto morre numa dolorosa morte lenta, o
conservador defronta-se com um problema: como deixar o seu segredo
apenas a certas pessoas e não a outras. Temos o pensamento, a
perspectiva da personagem, mas não o próprio segredo.
Desconfiados - então se temos o pensar do homem para umas
coisas porque não a temos para outras? -, aceitamos o contrato
e prosseguimos ou fechamos o livro. Aceitei e fui de sequência
em sequência, de capítulo em capítulo, tenso, com
os nervos à flor da pele, até ao fim.


De enigma em enigma, seguimos as duas personagens que
tentam descobrir a mensagem da vítima. A esta sequência
acrescenta-se a da polícia que tenta descobrir o assassino e a
deste que pensa deter finalmente o segredo de que era detentor o
conservador e comunica com o seu mandante.


O desenvolvimento destas três sequências,
os enigmas a resolver, as aproximações da polícia,
as decepções dos criminosos vão-nos criando
indícios a respeito de quem é o mandante do crime e
qual o móbil do seu crime. Este problema só existe
porque o narrador dá-nos perspectivas interiores incompletas
das personagens. Assim, a respeito dum tal misterioso Professor
que se corresponde com o chefe da Opus Dei e com o executante do
crime, adensa-se - na mente deste leitor -, a suspeita à volta
do chefe da polícia, devido às suas tentativas de
incriminar, perseguir e prender os nossos dois heróis. Esta
suposição é, a seu tempo, desmentida pelo
próprio curso dos acontecimentos.


A matéria histórica aparece através
do móbil do crime. O conservador fora assassinado por ser
chefe duma sociedade secreta, o Priorado do Sião,
e detinha o segredo do Santo Graal que era, nada mais nada menos que
a verdadeira história do cristianismo. Era do interesse do
Vaticano que os documentos que os templários detiveram, antes
da sua destruição no século XIV, fossem
destruídos, pois eles contavam uma história de Jesus
contrária aos seus ensinamentos.


Toda
a história da igreja primitiva, assim como as suas crenças
originárias teriam sido modificadas no tempo de Constantino,
mudanças que foram consagradas no Concílio de Niceia.
Jesus é apresentado como um jovem homem assexuado, pois, em
nenhum momento, nos é mostrada nos evangelhos, a ventura dum
encontro afectivo e sexual que dê um pouco de cor à sua
breve vida terrena. Na verdade, há outros textos que nos
contam a história de maneira diversa. Maria Madalena era, na
verdade, a companheira de Jesus e não a prostituta arrependida
de que os evangelistas nos falam.


Madalena
correspondia ao modelo das deusas antigas que representavam a
fertilidade e a capacidade criadora da natureza. Deus, de acordo com
o Priorado do Sião, deveria dar lugar à Deusa; o amor
sexual verdadeira força genesíaca de toda a natureza
deveria ser santificado e não repudiado como coisa impura a
que os santos deviam renunciar. Haveria então uma linhagem que
ia de Jesus até à dinastia dos merovíngios, os
célebres reis taumaturgos que precederam Carlos Magno e a sua
dinastia.


Então,
o segredo incluiria também o nome dos herdeiros do santo
matrimónio entre Jesus e Madalena. Entre os grão-mestres
do Priorado do Sião incluíam-se nomes como Da Vinci,
Isaac Newton e Jean Cocteau. O primeiro teria nas suas próprias
obras cifrado alguns dados da história de Cristo. Por exemplo,
a androginia de Mona Lisa é tido como exemplo do sagrado
feminino. Na última ceia, os traços femininos de uma
das personagens permite-nos identificá-la como a companheira
de Jesus. Mas são poucos os factos iconológicos
tratados no livro e não apresentam de modo nenhum uma
evidência que se possa considerar esmagadora.


Dan
Brown afirma referir-se a factos e documentos históricos, mas
um documento histórico só prova alguma coisa num
contexto de análise e crítica documental que não
é nem pode ser de modo nenhum o caso de um romance policial. O
Priorado do Sião é
apenas uma organização criada no século XX e que
inventou a sua própria história, com uma sucessão
de grão-mestres que remontam a Da Vinci e Newton.


Apesar
dos documentos citados, são muitos os analistas que contestam
a validade. Quanto aos merovíngios, não há
ninguém que consiga provar que é seu descendente. Eles
eram cristãos, pelo que suspeito que não se tenham
considerado eles próprios descendentes de Cristo.


Encontrem-se
ou não os herdeiros dos merovíngios, ou mesmo os de
Cristo e Madalena, e apenas constataremos a sua comum humanidade. Se
é interessante a história de Cristo e Madalena, claro
que é, mas é uma história que não é
mais nem menos válida da que nos é contada pela Igreja.


publicado por Redes às 01:22
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1 comentário:
De Lus Filipe Redes a 8 de Fevereiro de 2005 às 17:52
Olá,
Já ouvi alguém comparar o Código da Vinci com O Pêndulo de Foucault de Umberto Eco. Acho que é o mesmo comparar a catedral de Notre Dâme de Paris com a igreja principal de Cuba do Alentejo. De facto, ambas são igrejas e, se quisermos, encontraremos muitas outras semelhanças. Mas as diferenças quanto à dimensão, à sofisticação arquitectónica e ao valor artístico são de tal modo sobrepujantes que nos fazem esquecer o que têm em comum.
Entre o Código... e O Pêndulo..., as diferenças encontram-se precisamente na técnica da narração, na gestão do ponto de vista do narrador perante a matéria apresentada. Acompanhamos Belbo nas suas aventuras e, praticamente, não sabemos mais do que ele. Há uma ironia em relação ao valor de verdade dos factos relatados que põe a nu os mecanismos do raciocínio esotérico sem se comprometer com ele. No fim, Belbo, acaba por cair na armadilha desse raciocínio e como a narração está dependente dele, ficamos sem saber o que vai suceder a seguir. O texto dica em aberto.
Pelo contrário, no texto do Código..., a narração adere acriticamente ao discurso do Priorado do Sião e deixa abundantes marcas disso. O leitor vê-se forçado a seguir essas narrações para-históricas como se eles fizessem parte da trama romanesca.


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