Domingo, 9 de Janeiro de 2005

Comentário a "Pensar o sistema escolar"Educação

Para ver o artigo que comento, clique no título
abaixo:


Pensar
o sistema escolar


Um artigo de fundo, em vez do imediatismo e
fragmentarismo estético e lúdico, típico do
discurso bloguiano! Mas é disto que eu quero! Coisas que se
possam discutir, criticar, rejeitar ou apoiar e não
simplesmente ler para dizer "é giro!" ou "estive
lá".


Trata-se neste caso de apoiar absolutamente o que é
dito sobre a gestão de recursos por quem devia ter os
dados sobre as condições das escolas na mão e
sabemos que podia já ter avançado muito mais,
nomeadamente no que respeita à informatização.


Como professor que está efectivamente em
campo, prefiro ilustrar algumas das consequências pedagógicas
do desnorte da política educativa.


Há anos que sonho com a condição
ideal que é referida, a sala ter um dono: ou o professor ou os
alunos. Alguém tem de ser o anfitrião. Ora o que
acontece actualmente é que o espaço é nosso por
uma hora ou duas; depois, terá outros hóspedes. Um
aluno que tem dúvidas e quer falar com o professor não
sabe onde ele mora na escola. Se quiser, que use o tempo de antena
que lhe é dado na aula. Felizmente, isto será resolvido
quando o número de alunos por sala diminuir. Olhemos para a
curva demográfica e esperemos! É já ali ao virar
da esquina, assim que a curva inflectir para a direita e descer do 27
para o 20.


Não que eu aceite o número de
alunos por turma como desculpa para a baixa qualidade das
aprendizagens! Há países que têm turmas grandes e
ainda assim obtiveram um sucesso tremendo nos testes internacionais
de literacia: Singapura, por exemplo. O relatório do teste
internacional de leitura de 1990 (pode ver o texto em ELLEY,
Warwick,
How
in the world do students read?
,
Hamburg, IEA, 1992)
concluiu
que essa variável não explicava as diferenças de
resultados no teste. Por outro lado, mostrou que a diferença
de rendimento per capita tinha poder explicativo. Atenção
que há países de elevado rendimento per capita e com
muitos alunos por turma.


O problema não será termos turmas
grandes quando prevemos a todos os níveis ter turmas pequenas?
Por exemplo, construímos escolas para 600 alunos e pomos lá
1000. Lá está, construímos as escolas a pensar
na previsão da curva demográfica. Toda a nossa
legislação fala em diagnóstico, avaliação
formativa em detrimento da sumativa, individualização,
inclusão, etc., e cada professor tem 27 alunos por turma e, no
melhor dos cenários, dois tempos de 90 minutos por semana para
fazer isso tudo! A prova está no facto de eu ter alunos que se
sentam na secretária do professor ou numa bancada com um
ângulo de quase 180º em relação ao quadro! A
sala não está preparada para esse número de
alunos.


Precisamos de saber tirar as conclusões
necessárias das condições materiais de que
efectivamente dispomos. Se queremos combater o abandono escolar, é
preciso que haja medidas claras sobre o que fazer com os alunos que,
em turmas de 27 alunos, não têm um aproveitamento
aceitável. Baixar os níveis de exigência a fim de
que todos os alunos “passem de ano” ou manter os padrões
de exigência e “chumbar” os alunos que não
os conseguem atingir?


Criar sistemas ineficientes como “compensação
educativa” ou “apoio pedagógico acrescido”
que se reduzem a “explicações” de uma ou
duas horas por semana, a determinadas disciplinas, enquanto o aluno
continua no “main stream” sem compreender quase nada dos
programas tem sido a solução proposta ou, em casos
extremos, catalogar o aluno de “PEI” ou “NEE”
e reduzir as exigências programáticas. O resultado desse
tipo de medidas e do “PEI” (plano educativo
individualizado) acabam por ser, a maior parte das vezes, a confissão
da nossa incapacidade para tornar a escolaridade um tempo realmente
útil para muitas das nossas crianças. Estamos sempre
entre a espada e a parede, entre o objectivo de oferecer qualidade de
ensino e incluir todos nesse sucesso.


Penso que a resposta para todas estas questões
está em nós, professores. Temos que reconhecer e
aceitar as condições que temos e organizar o
ensino-aprendizagem de acordo com os nossos valores pedagógicos.
Portanto, se aceitamos a inclusão e a qualidade
da aprendizagem
como valores que temos que conciliar, não
podemos definir os mesmos objectivos para alunos com grandes
dificuldades de leitura e para alunos extraordinariamente fluentes.


Quando há alunos que chegam às nossas
mãos sem os pré-requisitos do nosso programa que
podemos fazer, se não nos é dado o poder de os reenviar
para o nível de ensino anterior? Fazer a média é
cilindrar os alunos mais fracos, confirmar a mediocridade de muitos e
reafirmar a excelência de alguns, sem que estes se tenham de
esforçar muito. Enfim, a curva de Galton! Ficaremos
satisfeitos com o sucesso destes que confirmam a excelência do
nosso ensino e esqueceremos o desperdício que vamos deixando
pelo caminho. Ignoraremos triunfalmente Bernstein, Labov, Bourdieu,
Mel Ainscow e outros que provaram que a escola premeia a origem
social, as famílias que têm condições
económicas e culturais elevadas, reproduzindo essas
desigualdades.


Sim, aceito que sou eu que tenho que saber o que
posso ou não fazer e o que devo ou
não fazer em função das condições
existentes. Mas o que acho insuportável é que as
autoridades educacionais passem a mensagem de que as condições
são outras e ponham no professor a responsabilidade de
conciliar o impossível.

publicado por Redes às 01:07
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