Quinta-feira, 14 de Outubro de 2004

Na história da revolução russa - determinismo e acaso

O discurso histórico marxista apresenta a revolução bolchevique de 1917 como um evento necessário, que teria de ocorrer como resultado do desenvolvimento do capitalismo. De acordo com a dialéctica do materialismo histórico, o capitalismo continha em si a força que o destruiria - o proletariado. A revolução socialista estava como que antecipadamente inscrita na ordem das coisas, no devir histórico.

De acordo com esta perspectiva, quando o acontecimento se dá na Rússia, é como se este país tivesse sido eleito pela história para dar início a um novo ciclo. No período que antecedeu a revolução, os intelectuais do Partido Operário Social Democrata (POSDR) discutiam a questão do estádio histórico em que o país se encontrava para determinar que tipo de revolução se faria, se a democrática burguesa, se a socialista, proletária. A Rússia estaria ainda dominada por relações de produção feudais e, segundo alguns, ela precisaria de uma revolução democrática burguesa que acabasse com a velha aristocracia caduca e desenvolvesse plenamente as forças produtivas capitalistas.

É verdade que a Rússia tinha tido um desenvolvimento notável com feitos como a construção do trans-siberiano e Moscovo, S. Petersburgo e Odessa eram áreas industriais onde se acotovelava um proletariado significativo. Mas na maior parte do país, predominavam o campesinato e as relações senhoriais tipicamente feudais, na acepção marxista destas expressões, evidentemente. Lenine, impaciente para fazer a revolução, defendia que a classe operária, apesar de minoritária, deveria fazer a revolução socialista. À tese marxista clássica que implicava o pleno desenvolvimento do capitalismo como pré-condição da revolução, defendida pela ala menchevique do POSDR, Lenine impunha a sua, que via o sistema capitalista como um todo internacional, a 1ª Guerra Mundial como uma guerra imperialista, inevitável no estádio mais avançado do capitalismo. Assim, a revolução não teria que esperar pelo desenvolvimento das condições sócio-económicas da Rússia, pois ela enquadrava-se na situação mundial. A revolução ocorreria no elo mais fraco do sistema, que era a Rússia, que se integrava no sistema imperialista com muitas debilidades.

Apesar deste desvio criativo de Lenine, continuamos a ter um esquema determinista: a guerra imperialista é um resultado necessário do desenvolvimento do capitalismo a nível mundial; a revolução socialista é algo que tem que acontecer, a questão é apenas onde, quando e como; a guerra empurra a Rússia para as condições óptimas da revolução. A acção política voluntariosa dos bolcheviques apenas apressa e dá à Rússia a glória de iniciar um processo que a dialéctica histórica inscrevia na história do mundo.

À teoria do elo mais fraco, vou agora trazer uma outra que vi recentemente num programa de televisão sobre a história da hemofilia. A rainha Vitória da Inglaterra teve uma enorme quantidade de filhos, netos e bisnetos. Esses príncipes, princesas e princesinhos casaram-se pela Europa fora, dado o enorme prestígio da Imperatriz e do seu vasto Império onde o Sol nunca se punha. Ao casarem-se espalharam a sua herança genética pela nobreza europeia, com benefícios e prejuízos evidentes, como acontece com todos nós, quando damos e recebemos genes. Na conta dos prejuízos, estava o gene da hemofilia. O Czar Nicolau II casara com a princesa Alexandra Ferodovna, um neta da Rainha Vitória. Alexandra apesar de não sofrer de hemofilia era portadora da doença. Alexis, filho de Alexandra Ferodovna, nascido em 1904, foi sempre uma criancinha doente, com frequentes hemorragias, decorrentes da doença. Foi por causa dos problemas de saúde de Alexis que a czarina Alexandra trouxe para a corte o monge e místico Rasputine que tinha a fama de fazer milagres.

Antes da guerra de 1914, parece que o Czar tinha a situação política e social sob controle. Mesmo na célebre derrota de 1905, frente ao Japão, e nas acções políticas e reivindicativas operárias subsequentes, a popularidade do Czar manteve-se, apesar da violência da repressão e do seu poder autocrático. 1913 fora mesmo um ano de grande sucesso económico, com metas de produção agrícola e industrial que só seriam ultrapassadas na década 30.

Contudo, a guerra de 1914-18 levara o Czar para a frente da guerra contra a Alemanha. A czarina ficara só com o governo nas suas mãos e sob o domínio quase absoluto do iletrado milagreiro Rasputine que substituiu muitos dos responsáveis governamentais por homens da sua confiança. Há quem diga que as medidas governamentais tomadas durante a ausência do Czar foram um verdadeiro desastre e conduziram a uma revolta quase geral contra os Romanov, tanto por parte da nobreza, como da burguesia e das massas populares. O principal alvo destes descontentamentos era Rasputine que acabou assassinado em 1916.

A guerra, as dificuldades de conjuntura económica adversa desses anos, criaram terreno fértil à acção política dos movimentos radicais, entre os quais se encontrava a ala bolchevique do POSDR. A revolução de Fevereiro pôs fim ao czarismo, mas não passou, na terminologia marxista-leninista de uma breve revolução “burguesa”, que uns meses depois cedia lugar à gloriosa revolução socialista.

Certo é que Rasputine tornou-se um tópico obrigatório na história da revolução russa. Falta saber até que ponto a doença do pequeno Alexis foi causadora da ida de Rasputine para a corte e proporcionou a acção deste no catalisar da oposição ao Czar e no eclodir da Revolução de Fevereiro que conduziria à de Outubro.

Os defensores da teoria do caos dizem-nos que o bater de asas de uma borboleta em Pequim pode provocar um furacão na América. Será este caso da hemofilia, o bater de asas de uma borboleta que deu origem à Revolução Russa?

“Dar origem a” parece-me algo exagerado em termos de causalidade. Teríamos que colocar em confronto o factor Rasputine perante o factor guerra e muitos outros na génese desse fenómeno. A importância de tal bater de asas não será com certeza maior do o que a de qualquer outro efeito de conjuntura económica, social ou política que o leitor possa apresentar, mas é, pelo menos, mais um facto a questionar-nos, a nós, que chegámos a ver a Revolução de Outubro como um dos mais gloriosos momentos da história da humanidade.

publicado por Redes às 00:15
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