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"Sobre aquilo de que não conseguimos falar, é melhor calarmo-nos." (Was sich überhaupt sagen lässt, lässt sich klar sagen; und wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen) - Wittgenstein.

"Sobre aquilo de que não conseguimos falar, é melhor calarmo-nos." (Was sich überhaupt sagen lässt, lässt sich klar sagen; und wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen) - Wittgenstein.

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04
Jun24

Visões do colonialismo: escravatura e trabalho forçado no Estado Livre do Congo

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Assinalam-se frequentemente os massacres ocorridos no Congo Belga sob o poder do rei Leopoldo II. Dez milhões é o número de mortes dado. As vítimas tinham origem no trabalho forçado e na resistência ao domínio belga. Os seus causadores foram principalmente os congoleses que estavam ao serviço do Estado Livre do Congo. Um dos principais objetivos declarados por Leopoldo II era acabar com o tráfico de escravos que ainda ali se fazia, principalmente, em rotas dominadas por traficantes árabes. Na verdade, o que Leopoldo fez foi substituir a escravatura pelo trabalho forçado, tal como as autoridades coloniais portuguesas do final do século XIX fizeram nos seus territórios.

O artigo "Congolese Genocide: The Overlooked History of the Colonized Congo" tende a colocar toda a responsabilidade sobre Leopolodo II e a sua administração esquecendo a culpa dos executantes africanos. Na história dos horrores do colonialismo, europeus e africanos estiveram frequentemente juntos. Marietta Korfiati, a autora, embora não ilibe estes agentes africanos, vê a origem de todo o mal nos europeus. Assim, para ela, até a atual violência no Congo tem origem em Leopoldo II.

Para fazer história colonial a sério, importa descobrir quem fez o quê e por que condições mentais de africanos e europeus tais atrocidades foram possíveis. Assim, se aqueles europeus se acreditavam superiores ao ponto de não se importarem com as mortes e sofrimentos infligidos às populações congolesas, que dizer do que fizeram africanos, quer os que estavam ao serviço do Estado colonial quer os outros que se lhe opunham?

Um exemplo desta falta de análise crítica está nas imagens retiradas do livro de Stanley - The Congo and the founding of its free state; a story of work and exploration. New York: Harper & Brothers. 1885, pp. 181-182 -, totalmente descontextualizadas para servirem o propósito de expor as crueldades do imperialismo e do colonialismo. Uma que me intrigou foi aquela que exibe a execução de escravos pelos Wakuti. Stanley apresenta essa imagem como ilustração de um facto por ele testemunhado. Os escravos referidos estavam a ser mortos para acompanharem, no funeral, um chefe recentemente falecido. Os europeus presentes na imagem pertencem à expedição de Stanley que explica no texto os motivos da sua não intervenção na copiosa mortandade, que em sua opinião provocaria ainda mais mortes, mas era este tipo de eventos que justificava a sua posição e ação como explorador e agente do rei Belga. 

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Dei com esta mesma imagem a ilustrar o genocídio atribuível a Leopoldo II num artigo do Quora.

Muita da história sobre isto resume-se a incluir factos valorados negativamente numa metanarrativa já feita que tem como personagens principais o imperialismo e o colonialismo. No caso, trata-se de um genocídio que estava a acontecer havia séculos: africanos a capturar e a matar outros para os vender a traficantes europeus e árabes.

Para compreendermos o que estava em jogo no colonialismo do final do século XIX, temos que olhar para os testemunhos contemporâneos. Veja-se, por exemplo, o historiador George Washington Williams que investigou e denunciou a situação de violência e trabalho forçado imposta aos congoleses numa carta dirigida ao rei Leopoldo em que o acusa de toda a violência e falsidade do empreendimento Estado Livre do Congo. Fá-lo em nome dos valores da Conferência de Berlim - que o rei é acusado de infringir - e o que exige é mesmo o cumprimento do que poderíamos chamar "missão civilizadora", portanto, em nome de um colonialismo ideal dirigido ao fim da escravatura, à educação dos "nativos", à criação de hospitais, etc... Assim pensava um historiador afro-americano que lutou na guerra civil contra a confederação esclavagista.

27
Abr24

Pedir desculpas a quem?

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O tema do pedido de desculpas e/ou de reparações coloniais vai e volta. Aqui, analiso a questão a partir de um texto publicado em 2021. 

“Quando há erros históricos devem ser reconhecidos” - afirma Vitor Ramalho no Público . Referia-se aos "crimes do colonialismo". Se se considera o colonialismo um crime ou um erro, não haverá crimes, mas apenas um único grande crime com diversos episódios. Neste caso, teremos que nos questionar a respeito do ethos que nos permite julgar esse período histórico, após o seu fim, na vigência de movimentos ideológicos e políticos que só existem numa realidade resultante da colonização. Descolonização, nacionalismo e socialismo africanos com o seu cortejo igualmente pesado de mortes e sofrimento para vários povos de África radicam precisamente na ação colonial, sem a qual não existiriam mesmo as atuais nações africanas.

Como aparece no plural, "crimes do colonialismo", trata-se não do colonialismo como um todo mas de ações que têm que ser identificadas para se poder fazer a seu respeito um pedido de desculpas, como no exemplo dado da expulsão dos judeus de Portugal em que se pressupõe a existência de uma entidade - o estado português - cuja continuidade é afirmada como uma pessoa supra-histórica, não obstante as revoluções havidas, com muitas guerras e mortes cá em casa, para nos responsabilizarmos agora com toda a história passada. Será que o estado português deverá também pedir desculpa pelos crimes cometidos por cada um dos reis que em dados momentos da história dirigiram este "nosso destino"? Por exemplo, aos descendentes do conde Andeiro, aos dos Távora, etc.

Lamentar que determinados eventos tenham sucedido, condenar os princípios ideológicos que sustentaram ações políticas do passado, mostrar o facto de colonialismo, racismo e semitismo estarem ultrapassados pela história das mentalidades e das ideologias é um imperativo atual, mas tal lamento não justifica a ideia dum "pedido de desculpas", desde logo por não haver destinatário para tal.

Com efeito, não vejo nos países africanos, um processo interno de pedido de reparações ou de desculpas, pelo tráfico de escravos e pelas rapinas que o sustentavam internamente. Inúmeros reinos e impérios africanos beneficiaram com a captura e a venda de escravos aos europeus. No século XIX, muitos dos que resistiram às guerras da ocupação efetiva de África eram líderes africanos que estavam a perder o negócio. Lembremos que um dos objetivos internacionais da dita ocupação efetiva era precisamente acabar com o tráfico.

No caso dos judeus, talvez D. João III pudesse pedir desculpa e indemnizar as vítimas, mas, ele não tinha os nossos princípios morais que derivam de uma longa história que inclui a afirmação dos direitos do homem, após as revoluções dos séculos XVII, XVIII e XIX. Muito pelo contrário, o primeiro tornou ainda mais difícil a vida dos judeus que ficaram com a instauração da Inquisição. Os descendentes desses e de outros judeus viriam ainda a sofrer inúmeros crimes populares e políticos por toda a Europa de que se destaca o do Holocausto nazi.

Identificar atos políticos merecedores desse pedido de desculpas também não é fácil. Para o fazer, temos que identificar as motivações e as opções efetivas que tinham os agentes que terão cometido esses crimes. Lembro-me da minha consciência de jovem português que via nos meus colegas de escola de todas as raças portugueses como eu, de pleno direito, um pensar e sentir que resultou da educação que recebi na escola. Mais tarde, compreendi essa inflexão histórica que aconteceu nos anos 60 em resposta à luta armada e à condenação política internacional, mas essa ideologia foi eficaz internamente e  conduziu à expansão da educação que transformou milhares de africanos em portugueses. Teria de haver liberdade para haver discussão ideológica e formação de consciências pelo debate e pela argumentação. Felizmente, para ele, o caso de Vítor Ramalho que apreendeu aos 18 anos a iniquidade do "regime colonial" nos anos 70, numa altura em que o próprio regime já não se considerava colonial.

É seguramente possível avaliar e julgar como criminosa a decisão do governo português de não aceitar o princípio internacional da autodeterminação e enveredar pela guerra colonial e pela criação do discurso que a sustentou e que minou milhares de consciências sem alternativa, mas não pedir desculpa por a nossa história desde a reconquista cristã, já cheia de cativos, de judiarias e mourarias, até ao 25 de abril, ter sido o que foi.

 

16
Out23

Anti-Semitismo

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A utilização do termo anti-semitismo para referir o sentimento anti-judaico de muitos árabes é problemático porque os árabes são tão semitas quanto os judeus. Em termos mitológicos, ambos os povos são descendentes de Sem, um dos três filhos de Noé. Em termos científicos, a língua árabe faz parte do grupo das línguas semitas, tal como o hebraico. O próprio Antigo Testamento, em Génesis, erra ao considerar os Cananeus como descendentes de Cã, um outro filho de Noé, pois a língua dos cananeus era, de entre as semitas, a que mais se aproximava do hebraico. Cananeus e Fenícios, outro povo semita, legaram-nos os primeiros alfabetos. Um outro povo vizinho destes foram os Arameus, cuja língua se tornou na mais difundida no Médio Oriente, desde os tempos do Império Persa até ao século I. Jesus falaria aramaico.

06
Out23

Presidenciais americanas - os outros

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São habitualmente esquecidos nas notícias o que sugere, aos menos informados, que nos EUA só há dois partidos:

- O Green Party vai fazer campanha para a presidência.

- Sobre os independentes, note-se que Cornel West, que iria disputar as primárias no Green Party,  decidiu ir como independente.

- O partido libertário também costuma ter candidatos à presidência.

- Há outros partidos com menor expressão a nível nacional, como o Alliance e o Constitution.

 

 

28
Mai23

Alguns comentários à margem de Casa Portuguesa de Pedro Penim

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Não pretendo fazer uma crítica teatral da peça que recomendo a todos os títulos no que diz respeito ao valor do espetáculo, atores com brilhante desempenho, belo cenário e um texto com alguns aspetos muito interessantes e outros que me deixam interrogações e suscitam estas reflexões. Advirto que, quando analiso estes enunciados, não pressuponho que a peça os defende, mas apenas que eles ganham alguma preponderância para o espetador (eu) e o interpelam e, por isso, aqui os comento.

Matar o homem

Na peça, introduz-se a diferença entre homem e mulher à luz do paradigma atual que faz do género uma possível opção e não uma fatalidade ditada ao nascimento, como se essa diferença trouxesse alguma compreensão às memórias de um partcipante na guerra colonial. Que em todos os humanos há masculinidade e feminilidade é uma ideia antiga. Veja-se Pierre Daco,  As mulheres, um livro de há várias décadas que aborda a diferença entre homem e mulher numa perspetiva psicanalítica, e que, corrigindo o complexo de castração de Freud, afirma precisamente isso, a masculinidade que existe nas mulheres e a feminilidade que existe nos homens.

Simplesmente, não vejo qualquer evidência de que a mudança de paradigma no poder, do masculino para o feminino, envolvendo queers, trans ou mulheres altere em alguma coisa o exercício da guerra. E, sobretudo, não podemos identificar na guerra colonial, um lado agressor masculino e outro defensivo, feminino. Talvez possamos reconhecer uma masculinidade predominante na gesta heróica dos conquistadores e dominadores, mas nada impede que esse discurso mude e integre homens e mulheres (e outros...) em papéis muito parecidos. Basta dar uma olhada em séries atuais que integram mulheres bem femininas em papéis igualmente violentos. De resto, as mulheres sempre estiveram no poder, por detrás dos homens a exigir-lhes demonstrações de masculinidade e quando o exerceram efetivamente não foram propriamente meigas (Isabel I, de Inglaterra, Maria a sangrenta, Catarina II, da Rússia, Margaret Thatcher, Golda Meir, Benazir  Bhuto, Aung San Suu Kyi, etc.). Veja-se nesta última, apesar de ter sido vítima dos militares, a sua atuação a propósito dos rohingyas.

Parece-me impossível matar o homem e errado colocar na testosterona a culpa de todos os males da humanidade, tanto mais que esta hormona, tal como outras, são essenciais tanto a homens como a mulheres. 

Guerra colonial versus guerra de libertação

No jogo do reverso, em que o mesmo facto é visto de maneira diferente, como no exemplo de "penetração" versus "circlusão", uma palavra inventada no contexto das questões de género, aqui também uma personagem contrapõe ao termo "guerra colonial", o de "guerra de libertação", apesar do lado contrário nesta guerra estar ausente. A este propósito, importa lembrar que "guerra colonial" era um termo da Oposição. O discurso oficial dizia que não havia colonialismo na África portuguesa e que se fazia uma guerra contra o terrorismo nas províncias portuguesas do ultramar. Trata-se pois de dois conceitos complementares e não opostos em nenhuma perspetiva. Curiosamente, nesta página, dedicada ao livro de Joaquim Penim, No planalto dos Macondes, a guerra é designada de acordo com a perspetiva do regime do Estado Novo: "guerra do Ultramar" e não guerra colonial, um termo, então, proibido.

Casa Portuguesa

Sobre "Casa portuguesa" de Reinaldo Ferreira, é justo lembrar que a questão da independência de Moçambique não estava ainda em discussão na praça pública, como veio a acontecer alguns anos depois da sua morte (1959), aos 37 anos. Ele desempenhou o cargo de chefe de posto da administração colonial de Moçambique. Tanto "Casa Portuguesa" como "Kanimambo" são obras encomendadas, coisas menores na poesia de Reinaldo Ferreira que os críticos consideram de elevada relevância na Literatura Portuguesa e que outros reivindicam como parte da Literatura Moçambicana. 

É preciso acrescentar o juízo literário de que constrastar a "Casa Portuguesa" que evoca uma falsa tradição lusa com a sua origem ultramarina e ligar essa oposição à memória da guerra, trazendo-a  para dentro de casa, por assim dizer, é um ponto alto do texto da peça. Digamos que é a memória da guerra a metaforizar as contradições da família, com a figura paternal em ruínas e os papéis tradicionais, mascuninos e femininos, a serem contestados.

Um poema de Reinaldo sobre "herói".

Receita para fazer um herói
Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.


Serve-se morto.

Matar negros

Sujeito ao interrogatório do neto, o ex-furriel responde que esteve numa guerra com tudo o que ela implica. Infere-se que terá morto negros como seria inevitável, pois os adversários seriam isso. Posto que além de mortos em combate de ambos os lados e massacres de populações, alguns dos quais, noticiados, como o de Wiriamu, a pergunta é intrinsecamente racista, pois sabemos que havia muitos negros a combater do lado português, e também destes, foram muitos os mortos causados pelos adversários. A questão sugere que havia uma guerra entre pretos e brancos o que é uma caricatura deplorável. De novo, o lado ausente das memórias da guerra aparece só como vítima em contradição com a reivindicação do termo Guerra de Libertação.

O império de "Minho a Timor"

É um dos mais ridicularizados enunciados do discurso colonial português. Para o Estado Novo de Salazar, no Ato Colonial de 1930, o Império era constituído por colónias. Nestas, os habitantes negros não eram cidadãos de pleno direito, mas, apenas, "indígenas". Só obtinham direitos de ser "assimilados" os que tivessem êxito num exame de cultura e língua portuguesa. Só tinham cidadania sem quaisquer aspas os portugueses originários. Diz-nos Adriano Moreira que, quando foi introduzido o enunciado "de Minho a Timor", se referia a brancos, portugueses que viviam em Portugal e nas colónias e não a toda a população. Na década de 60, o estatuto do indigenato acabou e todos passaram a ser considerados portugueses. Os territórios já eram designados como "províncias" desde 1951 e todos os vocábulos com étimo colonial desapareceram, mas na realidade efetivamente vivida, as relações entre "portugueses" brancos e negros não tinham sofrido uma alteração equivalente à do léxico.

Este estado de coisas foi contestado, primeiro por militantes da oposição que se opunham ao colonialismo e à ditadura e, depois, pelos movimentos de libertação nacional. 

Como vejo as guerras de libertação nacional

Para evitar equívocos sobre a minha posição, esclareço que, para mim, a luta armada por parte da FRELIMO, do MPLA (assim como da UNITA e da FLNA) e do PAIGC foi a única solução para que as elites africanas tomassem os destinos dos seus países contra um governo que mantinha um status quo colonial já ultrapassado, à revelia das decisões da ONU,  e que se recusava a dar aos habitantes das colónias o que fora concedido pacificamente e sem problemas pelas outras potências europeias na maior parte dos países africanos. 

15
Jan23

A dança das cadeiras

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Era dia da escola ir ao teatro. Estava tudo acertado entre o Teatro, a escola e os professores. Infelizmente, já na bilheteira, houve um pequeno problema. Por erro da funcionária, duas turmas estavam a mais. - A culpa é minha, digo-o com toda a franqueza, tenho de me responsabilizar inteiramente pelo sucedido - repetiu a funcionária a sorrir, com tanta ênfase que parecia estar orgulhosa dessa capacidade de admitir os próprios erros. Essa franqueza, essa abertura, não deixava lugar para qualquer crítica. Tornava-a escusada, redundante, inútil, sem força para fazer o seu caminho contra um muro que se desvanecia por si próprio. Ela tinha dado baixa das duas turmas erradamente, por alegadas dificuldades de transporte. O certo é que as duas turmas apareceram com a casa já cheia, a abarrotar, com as que as substituíram. - O problema agora é como pôr os alunos sentadinhos lá dentro. Também não podemos mandar as turmas a mais embora, coitados, pois não têm culpa nenhuma do sucedido, e com cerca de trinta quilómetros de viagem a Lisboa, para nada!? Por isso, tenho solicitado aos professores, se não se importavam de ficar em pé durante o espectáculo. Atenção, não levem a mal, era só um pedido, não era uma exigência. Com cerca de dois professores por turma em pé, haveria lugar para os meninos se sentarem. Os professores são sempre a parte que pode dar um jeitinho, aquela onde ainda existe alguma folga. Os professores ali presentes compreenderam. Uns puseram em questão a medida em comentários laterais, mas não frontais. Certo, certíssimo, é que ninguém se escandalizou com a proposta. Outrora tínhamos um Professor muito bem sentado na Cadeira do Poder. Nesse tempo, os professores ganhavam mal, talvez menos do que hoje. Mas quando alguém falava deles era de "Senhor Professor" para cima. Alguns tinham outros títulos entre "professor" e o nome próprio, mas, para todos, era de professor com P maiúsculo que se tratava. A contrabalançar o montante irrisório do salário, estava o poder pedagógico ou académico e o prestígio da sabedoria, à imagem do Colega que, na sua Cadeira, se mostrava como símbolo da sapiência, do comedimento, da poupança e da austeridade. Um dia, o Senhor Professor caiu da Cadeira e, desde então, vingou o jogo das cadeiras, pois deixaram de estar bem claras as prioridades, as hierarquias que convêm ao acto de bem sentar. A sociedade democratizou-se, os professores descobriram-se e declararam-se trabalhadores, como todos os outros, multiplicaram-se por milhares, reivindicaram e bateram o pé. De "Senhor Professor" ou "Senhor Doutor", personagem tutelar, ao nível do médico ou do padre da aldeia, o professor evoluiu para o "setor", forma envergonhada de dizer a ausência de título adequado. Ali à entrada do teatro éramos o velho com a criança, sem saber o que fazer com o único lugar disponível no burro. Podia ser que pensassem que a idade de vários dos professores suportaria mal uma hora e meia em pé. Haveria que ter em atenção as dores nas costas e nas pernas dos que já ultrapassaram o auge da idade. Então poder-se-ia sugerir que alguns alunos se sentassem nos degraus do balcão ou da plateia, tão habituados estão a sentar-se em qualquer lugar. Mas não, são as crianças, que estão à nossa guarda, que têm a primazia, são elas que devem ter o lugar no burro. Os velhos que sigam a pé.

Publicado a 14 de Maio de 2015.

08
Fev22

A leitura no relatório Estado da Educação

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Este post decorre de uma sessão do Bom dia Portugal da RTP em que, inquirido sobre a leitura no relatório do CNE, Estado da Nação 2020, não tive oportunidade de explicar a minha resposta a uma questão colocada pelo jornalista. O programa é demasiado rápido. O erro de registo é meu. Pensei que era um bom dia mais longo.

O pressuposto da questão era o agravamento do número de casos de alunos com dificuldades de leitura, que foi negado por mim, sem oportunidade de explicar porquê.

O facto é que o dado que me pareceu referido na pergunta dizia respeito aos alunos de 15 anos com graves dificuldades de leitura detetadas no teste PISA que não era uma novidade do relatório e já tinha sido analisado nos media em 2018, data após a qual não há nada a acrescentar. Além do mais, tal facto e a respetiva tendência já tinha sido analisado no Estado da Nação de 2019. O contexto é no presente relatório a meta europeia de diminuir o número até 15%. Verifica-se que Portugal, em 2018, piorou a dita dificuldade de 17,2% em 2015 para 20,2% em 2018. Uma perda de 3 pp, como se pode observar no gráfico incluído (p. 14):

literacia_01.png

 Se observarmos os resultados dos 5 testes, verificamos um melhoramento de 24,9 em 2006 para 20,2 em 2018, isto é, cerca de 5 pp, enquanto a UE27 melhora em apenas cerca de 1 pp. Neste percurso, notamos um progresso extraordinário de 7 pp de 2006 para 2009 e, depois, variações em torno de 1 e 2 pp entre 2009, 2012 e 2015. De 2015 para 2018, temos a queda já referida de 3 pp. Por outro lado, observa-se que a UE27 melhora quando Portugal melhora com um pequeno contra-ciclo em 2012 e 2015 e piora em conjunto com Portugal.

O fenómeno acima referido mereceu uma análise pormenorizada no Estado da Educação de 2019:

literacia_02.png

Que fatores poderão ser atribuídos para a gestação destes fracos leitores? É preciso ter em conta que há mudanças na composição da população, tanto na Europa, como em Portugal, em que a leitura é particularmente atingida por ser uma competência linguística.

Na altura do teste, foi amplamente discutida a responsabilidade política neste resultado. Mesmo que fosse o caso de os efeitos referidos terem uma correlação temporal aceitável com as mudanças programáticas, teríamos de descobrir os aspetos programáticos relevantes que, ao mudar, tivessem contribuído para este resultado. Com efeito, estes alunos estudaram Português com o Programa e Metas Curriculares, a partir de 2015, com as Metas Curriculares, a partir de 2013 e terão entrado no 1.º ciclo com o programa de 2009.

Se a fragilidade advém da aquisição inicial da leitura que jusitifica a inclusão de metas sobre cronometragem da velocidade de leitura em 2013, lembro que o programa de 2009 já insistia na necessidade de trabalho sobre os fonemas e a sua correspondência com os grafemas na aprendizagem inicial da leitura. A cruzada contra os métodos globais feita nas Metas de 2013 não beliscava em nada o programa que se propunha corrigir, embora eu reconheça haver ainda, na altura, professores que insistiam em procedimentos de ensino da leitura que tinham como prioridade a apreensão de unidades significativas que atrasavam em muito a aprendizagem essencial da decifração. É preciso olhar para os resultados do PISA com maior atenção, o que já terá sido feito e verificado que a falha tem a ver também com a capacidade inferencial que acompanha todo e qualquer ato de leitura, com o léxico e com o conhecimento de géneros textuais.

Seja como for, a generalidade dos professores de Português, que inclui também os do 1.º ciclo, sabe o que há a fazer, assim haja os meios para o realizar. Entre outras coisas, trata-se de:

  • Detetar cedo as dificuldades na aprendizagem da leitura e tratá-las de uma forma sistemática, sem esperar que o aluno tenha que ser retido no 1.º ou no 2.º ano (má solução).
  • Dar a alunos com dificuldades textos literários mais acessíveis e mais motivadores para o jovem leitor, se se verifica que não conseguem ler com utilidade os que lhe são impostos programaticamente.
  • Tratar todos as obras literários como textos, que requerem leituras pessoais ainda que partilhadas na aula, e não como conteúdos programáticos.
  • Trabalhar as componentes da leitura cujas falhas podem prejudicar o ato de ler: o léxico, a situação referida no texto (histórica, social, etc.), o conhecimento do género e a complexidade da construção frásica (trabalhada em termos de compreensão no próprio texto), etc.
06
Jul21

Educação para a cidadania em causa

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Não vou analisar os conteúdos da disciplina, mas apenas referir-me aos eventos que aparecem associados à questão.

  • Dois alunos foram impedidos de transitar de ano por faltarem às aulas de Educação para a Cidadania.

Pergunto se a escola, conhecido o motivo por que os alunos faltaram a essa disciplina, não tinha a possibilidade de recusar esta solução?

Como a retenção não é considerada atulamente um castigo, mas sim uma medida pedagógica, muito questionada na sua eficácia, a falta de sucesso apenas a Educação para a Cidadania não deveria resultar na aplicação desta medida que assume aqui contornos disciplinares e não pedagógicos. 

  • Os dois alunos acima referidos faltaram às aulas da disciplina referida por esta incluir conteúdos cuja dimensão ideológica é contestada pelos pais.

Pergunto se não teria sido possível os alunos participarem em aulas em que os referidos temas não fossem tratados, numa negociação entre a escola e a família. Assim, teriam menos faltas e talvez não atingissem o limite. Se isso não foi feito por recusa dos pais, então, parece-me questionável que queiram advogar objeção de consciência. Há alunos que não participam em atividades escolares como o Natal, ou o dia do Pai, por motivos religiosos ou ideológicos sem as consequências que este caso está a ter. Não terão sido estas mesmas consequências as perseguidas pelos pais ou por outros intervenientes para colocar os conteúdos da disciplina na agenda política?

A falta às aulas seria mesmo a única opção? Os pais não poderiam por exemplo,

  • dizer aos filhos para abandonarem a aula sempre que fossem abordados esses temas se não fosse possível agendar a sua participação (o que me parece estranho já que os professores costumam planear o ano com os seus alunos)?
  • fazer com que os filhos levassem para a aula o discurso que eles têm sobre o assunto, fomentando a discussão?

Para compreender isto, tenho que colocar a hipótese de que alguém quis que assim fosse. Não me parece que seja do interesse das autoridades educacionais o curso que o caso está a ter como João Costa, Secretário de Estado da Educação já explicou.

21
Mar21

Rever, refazer e reavaliar o passado - Napoleão e os seus generais

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Temos que refazer continuamente a História, na busca da verdade factual com documentos, provas e avaliações que tenham em consideração o contexto para não cairmos em anacronismos.

Foi Napoleão um herói da revolução? Milhões o seguiram como se fosse um deus. Mesmo Portugal, invadido pelas suas hostes, permaneceu numa atitude dúplice a propósito deste seu inimigo, que, mesmo assim, entusiasmou muitos, como Gomes Freire de Andrade, o mártir do liberalismo, que o acompanhou até à Rússia com mais cerca de nove mil compatriotas da legião portuguesa integrada no exército francês.

Napoleão era profundamente admirado por Hittler. Tanto um como outro foram responsáveis por milhões de mortos, em guerras, provavelmente inúteis. As napoleónicas foram muito além do que a defesa da revolução justificava e terão mesmo precipitado o seu fim, com o regresso da monarquia, se aceitarmos que ela não terá mesmo acabado com o próprio regime napoleónico, ou, mesmo, antes, com os ditadores que o antecederam.

Mas além dessa mortandade de civis e soldados em batalhas infindáveis, há que computar a enorme quantidade de execuções. Pois tudo o que reconhecemos como imagem de marca de Hittler começa agora a ser ligado a Napoleão como uso de câmaras de gás para matar em massa e antisemitismo. Sem querer entrar na polémica aberta em França, por Claude Ribbe, há alguns factos suficientemente seguros para fundamentar uma revisão do papel histórico do Imperador.

Os princípios da revolução tinham conduzido logicamente ao fim da escravatura em 1794. Porém, Napoleão restaurou-a em 1802. Este gesto foi só por si responsável por milhares de mortos nas Caraíbas onde já tinha havido desenvolvimentos na sequência da luta pela independência do Haiti com Toussain Louverture.

Com o Haiti em perda, para repor a situação anterior em outras ilhas, foi necessário uma ação militar de grande escala. Em Guadalupe, o grande general Antoine Richepanse, herói que tem o seu nome no Arco do Triunfo, massacrou homens, mulheres e crianças:

"Napoleon sent him to put down a slave revolt on Guadeloupe, where Richepanse slaughtered all men, women and children that he encountered on his route to the capital" (https://en.wikipedia.org/wiki/Antoine_Richepanse)

Mas, na sua biografia oficial, apenas consta a sua morte por febre amarela, após o regresso de Guadaloupe. As milhares de mortes causadas diretamente pela sua ação pouco ou nada contam.

A atual celebração do Ano de Napoleão, nos duzentos anos da sua morte, deveria servir para analisar e discutir o seu lugar na história e não tanto para o homenagear. Há receios justificados que não seja essa a perspetiva (ver "Napoleon Isn’t a Hero to Celebrate"). Julgo que é preciso distinguir claramente a ação racionalizadora em muitos aspetos da vida quotidiana do período referido, como será o caso do sistema de pesos e medidas, da violência que o império napoleónico gerou. 

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