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"Sobre aquilo de que não conseguimos falar, é melhor calarmo-nos." (Was sich überhaupt sagen lässt, lässt sich klar sagen; und wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen) - Wittgenstein.

"Sobre aquilo de que não conseguimos falar, é melhor calarmo-nos." (Was sich überhaupt sagen lässt, lässt sich klar sagen; und wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen) - Wittgenstein.

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29
Abr06

A borboleta de Popper e o insucesso escolar

Redes
Ao ler hoje o artigo de António Costa Silva, "A economia não resolve tudo", no Expresso, lembrei-me das teorias sociológicas que imputam à Escola a responsabilidade pela exclusão, isto é, pelo insucesso escolar. António Costa Silva referia-se às teorias de gestão que se restringem ao facto económico e ignoram todos os outros factores que intervém no mundo em que a empresa se encontra e que conduzem à configuração possível de cenários contrários aos esperados. A tendência para olhar o mundo a partir da teoria económica pode levar a ler os dados como confirmando as nossas concepções prévias. Costa Silva refere a este propósito o entomologista de Popper que vai à caça de borboletas já com um conceito que será confirmado pelas suas experiências. Pensei, então, nas teorias da exclusão que imputam à escola, e, indirectamente, aos professores, a responsabilidade do insucesso escolar. Neste âmbito, há várias propostas, umas que operam pela positiva, outras que optam pela negativa. As primeiras são as que propõem alterações na prática pedagógica e na organização escolar para impedir a exclusão (o grande nome destas teorias parece-me ser o de Mel Ainscow). As segundas têm um recorte mais crítico e menos pragmático e acusam o sistema escolar como um todo como gerador de desigualdade, ou como reprodutor da desigualdade social. Uns têm uma perspectiva marxista e althusseriana e continuam a ver a Escola como parte do sistema ideológico do capitalismo, outros, mais ecléticos, reportam-se a outras correntes da sociologia (Marx, Durkheim Weber) para dizer mais ou menos o mesmo (veja-se, Pierre Bourdieu). A questão é se os dados não permitem outras leituras, e se não há dados recusados que suportariam outras conclusões. Não sendo este o lugar para pormenorizar e discutir em particular teorias sociológicas - este artigo não tem pretensão científica, nem académica -, cumpre-me apenas observar que a prática pedagógica tende a revelar a acção de múltiplos factores no insucesso escolar. E, portanto, como nem o professor nem a escola, se vê na realidade como responsável, tendem a atirar as culpas para o seu exterior: carências económicas, a marginalidade, a família e a diversidade genética, entre outros factores. A responsabilização da escola e do professor continua, no entanto, a ter efeitos: para eliminar a culpabilidade no insucesso, os professores tendem a considerar as desculpas da falta de rendimento escolar acima mencionadas como argumento válido para esconder a amplitude das diferenças individuais de rendimento escolar ou para diminuir as exigências da aprendizagem a fim a poder atribuir mais sucesso a mais alunos. Essas práticas recebem depois o nome de facilitismo. Os professores começam então a ser acusados do inverso: de não seleccionarem os alunos, quando o deveriam fazer. De facto, qualquer actividade humana, faz aparecer diferenças de rendimento e de mérito, desde os caçadores do Paleolítico. Os motivos por que uns conseguem ter mais sucesso do que outros são os mais diversos. De facto, há um continuum de graus de sucesso na aprendizagem. As medidas que colocamos como nível de rendimento aceitável é que permitem criar descontinuidades, fracturas, e formas de selecção. Neste sentido, o que está em causa é a definição desses níveis de rendimento e as soluções a adoptar para os que não os conseguem realizar nos tempos e nas condições que temos para lhes oferecer. A sociologia da educação tem horror à genética, precisamente, porque elimina os factores sociais que são o seu objecto. Por exemplo, é com algum desprezo que Bourdieu fala da teoria dos dons, que põe liminarmente de parte, ao verificar que os alunos que conseguem concluir o ensino superior são maioritariamente das classes altas. Concordo com ele, no aspecto em que as capacidades intrínsecas dos jovens foram frequentemente utilizadas como único argumento justificativo do seu insucesso escolar. Mas, a verdade, é que o professor está constantemente a encontrar casos em que jovens das classes altas têm resultados pobres, por causa de dificuldades intrínsecas e de jovens oriundos de famílias com poucos recursos que obtêm elevados rendimentos escolares. Mas acredito que há e continua a haver mecanismos de selecção social a operar no sistema de ensino, mas esse facto não é de modo nenhum, hoje em dia, o factor fundamental do insucesso e da exclusão. Penso que a maioria dos factores económicos, sociais e culturais precedem a Escola. Constituem dificuldades da acção do professor de quem os poderes públicos tudo esperam: que criem élites intelectuais e, simultaneamente, integrem toda a gente, no sistema de ensino. Embora não faça aqui uma crítica fundamentada da sociologia, deixo bem claro a minha impressão de que a atitude de responsabilizar a escola e o professr pela exclusão e pelo insucesso, é um daqueles casos, como o do caçador de borboletas de Popper, que faz investigação para confirmar os seus prévios pontos de vista.

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