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Sem Rede

"Sobre aquilo de que não conseguimos falar, é melhor calarmo-nos." (Was sich überhaupt sagen lässt, lässt sich klar sagen; und wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen) - Wittgenstein.

"Sobre aquilo de que não conseguimos falar, é melhor calarmo-nos." (Was sich überhaupt sagen lässt, lässt sich klar sagen; und wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen) - Wittgenstein.

Sem Rede

20
Abr20

Coronavírus - Portugal no concerto das nações

Redes

Pedro Caetano, auto-reputado epidemiologista, critica uma qualquer glorificação do caso português e mostra que Portugal é um dos piores países do mundo no que a esta doença diz respeito (Cf. "Visão Factual Epidemiológica: Portugal é um dos países mais perigosos do mundo na Covid-19"). Pareceu-me que o ponto tratado - a proporcionalidade dos dados relativamente à população - era demasiado elementar para ser apontada aos outros epidemiologistas e jornalistas que, em sua opinião, faziam o panegírico do caso português. Pus-me então a analisar os dados presentes em vários artigos que tenho lido e apresento aqui esse trabalho.

A validade dos dados sobre o número de casos depende do número de testes realizados. Nas últimas conferências, à data deste "post", o secretário de estado da saúde tem referido o aumento do número de testes e esclarecido que o crescimento relativo do número de testes feitos é superior ao do número de novos casos. De acordo com Ana Suspiro e Catarina Santos no Observador de 21 de Março, "Covid-19. Como Portugal se compara com outros países em número de casos, mortos e testes", Portugal é talvez o país ou pelo menos um dos países que faz mais testes por cada milhão de habitantes.

O número de mortos é talvez o elemento mais seguro do desenvolvimento da epidemia. A 2 de Abril, o Sábado apresenta um gráfico sobre a taxa de aumento do total de mortes que seria, então, mais favorável que a dos países com maior número absoluto de infetados. Contudo, o que se diz no texto não coincide com o gráfico e este é de todo inconsistente. Mostraria que no 27.º dia após a 10.ª morte, Portugal duplicava o número de mortes a cada 4 dias, os EUA, a cada 3 dias, a Itália, a França e a Espanha, a cada 2 dias, mas os dados certos, presentes nos pontos da curva, desmentem a sua inclinação! ("Um mês depois como se compara Portugal na luta contra a covid-19").

No Expresso de 17/04, num artigo de David Dinis, "Infografia, covid-19. «Num planalto que desce, mas não cai. Quatro gráficos que nos comparam com o mundo»" compara-se a taxa de crescimento diário de novos casos contados 35 dias após o 100.º caso, que cai, por acaso, num dia em que a taxa é excecional (1%) com um reporte de 181 novos casos que diverge dos anteriores. Para ver a consistência da observação, fiz a média das médias dos 3 dias anteriores e verifiquei que é de 2,8%, portanto, distante da dos casos dos outros grandes países  já referidos - Itália, Espanha, França, Estados Unidos - , assim como da Suécia e da Holanda que se situam no intervalo entre os 5 e os  7%. Para validar esta observação teria que despistar a possibilidade de que o 35.º dia após o 100.º caso tivesse sido especialmente negativo para esses países. Há aqui um reparo que tem de ser feito ao autor do artigo: falta de tratamento estatístico. Importava colocar os dados de todos os países em médias de intervalos de 2 ou 3 dias para eliminar flutuações pouco significativas. Apesar de, neste artigo do David Dinis, figurarem ainda outros gráficos comparativos questionáveis, por compararem dados absolutos, o gráfico referido, mesmo com o reparo feito, é elucidativo da evidente diferença para melhor dos dados de Covid-19 portugueses.

Pedro Caetano elege como especiais alvos da sua crítica o Expresso e o New York Times. De facto, os media portugueses noticiaram um elogio do grande jornal americano à luta contra o coronavírus em Portugal. Em três artigos publicados sobre o assunto, na segunda semana de Abril, refere-se apenas a comparação da mortalidade, de Portugal com Espanha. É que, tendo em conta a população dos dois países, a desporporcionalidade era evidente: 504 mortos contra 16972 (Cf. "One in Eight of Portugal's Coronavirus-Related Deaths in Care Homes as Outbreak Spreads", NYT, 12 de Abril). É preciso informar que a responsabilidade deste artigo referido é da Reuters e não da redação do jornal.

Mas, já uns dias antes, a 7 de Abril, o NYT publicava um outro artigo a desenvolver a comparação entre Portugal e o país vizinho, (Raphael Minder "Spain’s Coronavirus Crisis Accelerated as Warnings Went Unheeded)":

“Despite sharing a 750-mile border with Spain, Portugal passed 200 coronavirus deaths last week just as Spain reached 10,000.”

A 9 de Abril, foi publicado outro artigo da Reuters, "As Contagion Slows, Prudent Portugal Won't Ease Lockdown":

“Portugal has 13,956 confirmed coronavirus cases and 409 fatalities, while in Spain more than 150,000 people have been diagnosed and 15,000 people have died.

"The massive gap in the number of cases and mortality rate between the neighbours sharing a 1,200-km border is hard to explain. Some experts and doctors have pointed to the fact that Portugal restricted movement of people early on, when cases were still in their hundreds and with just two deaths.”

Comparam-se as estratégias: quando tinham ocorrido ainda apenas duas mortes em Portugal, a 18 de março, foi declarado o “lockdown”; em Espanha, a ocorrência das primeiras mortes foi a 3 de março, mas o “lockdown” só foi declarado 11 dias depois. 

Não me vou debruçar sobre a leitura do NYT pelos jornais portugueses. Verifico, por exemplo, que ignoram o facto de dois dos artigos serem da agência Reuters e não da redação do jornal. Em todo o caso, não vejo nenhum artigo a evidenciar qualquer suposto sucesso português que não se fundamente na surpresa dos resultados serem devidos à expetativa de que Portugal deveria ter uma situação bem pior, dada a falta de resposta hospitalar equivalente à de outros países mais ricos, a elevada idade da sua população – a terceira mais velha da Europa - e a proximidade relativamente a países que têm cenários muito mais graves.

De resto, é impossível fazer estas comparações sem ter em atenção muitos fatores. Por exemplo, a Suécia tem uma baixa densidade populacional que não favorece a expansão do vírus para além de Estocolmo. Nem sequer a eficácia das estratégias adotadas pode ser comparada – pois muitos suecos fizeram o seu próprio “lockdown” apesar de o governo não o ter ordenado.

Portanto, Pedro Caetano parece estar a contestar teses que os seus oponentes referidos não defenderam. Além disso, parece que mesmo o núcleo da sua demonstração é contestável, como mostra este artigo de Teresa Gago: "Carta aberta a Pedro Caetano" in Jornal Online Tornado, de 18 de Abril.

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