Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Sem Rede

"Sobre aquilo de que não conseguimos falar, é melhor calarmo-nos." (Was sich überhaupt sagen lässt, lässt sich klar sagen; und wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen) - Wittgenstein.

"Sobre aquilo de que não conseguimos falar, é melhor calarmo-nos." (Was sich überhaupt sagen lässt, lässt sich klar sagen; und wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen) - Wittgenstein.

Sem Rede

01
Set10

Teacher Man de Mc Court

Redes

Teacher Man de Frank Mc Court é um delicioso registo autobiográfico que muito tem a dizer àqueles dos seus leitores que também foram ou são professores. É de um percurso problemático e não de uma história de proveito e exemplo que o livro trata.

Com a sua narrativa, Frank conduz-me à ideia de que façamos o que fizermos, quaisquer que sejam as teorias psico-pedagógicas que adoptemos, o que fica são fatias de vida únicas, de professores e alunos. Quer me parecer ser essa a principal lição dos professores que se podem classificar como pertencentes ao paradigma afectivo, caso de Mc Court e do nosso Sebastião da Gama.

Mais do que a conformidade a um programa ou a um ideário técnico-pedagógico, eles buscam uma relação significativa. Apercebem-se da realidade existencial e única do encontro pedagógico. O aluno deixa de ser um elemento sujeito a um processo padronizado, cujos resultados se podem avaliar e comparar para se tornar numa pessoa com quem o professor tem de estabelecer uma relação que é sempre de ordem afectiva.

Se um aluno está fora da situação da aula, há sempre um problema que tem necessariamente contornos afectivos. “Dar matéria”, neste âmbito, é o que menos importa, sobretudo em disciplinas, como a leitura e a escrita em língua materna, oficial, para ser mais preciso, pois muitos a têm como castelhana, chinesa, coreana ou vietnamita e não “standard english”.

Não se trata, como já disse, duma apologia duma certa maneira de estar na profissão docente, embora muitos leitores o leiam assim. Se o fosse, o valor literário do texto perdia-se em muito. Nesta recensão, não posso também acusar, criticar ou defender a orientação pedagógica do professor Mc Court, “tout court”, pois o que aqui está em causa é precisamente uma experiência de vida, com que se pode aprender mais do que em muitos compêndios de psicopedagoia.

O professore Mc Court começa precisamente por ser, como muitos outros professores, alguém que tem que sobreviver e não alguém que escolheu ser professor por vocação. O seu objecto era desde o início o trabalho literário ou sobre a literatura.

O seu texto parece-me um inventário das situações vividas pela generalidade dos professores, pois reconheço nas suas histórias muito do que vejo acontecer na carreira de muitos professores.

Começou a dar aulas em escolas secundárias técnicas que nós hoje em Portugal resumiríamos com a sigla “CEF”, isto é, tinha que leccionar inglês a rapazes que tinham como horizonte de vida ser canalizadores. Por isso, o título do primeiro capítulo é significativo: “It´s a long road to pedagogy”. Mc Court tenta sobreviver como professor o que implica conquistar os seus alunos, o que não é feito sem vítimas e sem retrocessos, pois acontecem inúmeros incidentes, por exemplo, conflitos pessoais com alunos que o levam a não ter o seu contrato renovado no ano seguinte.

Mc Court lastima a sua necessidade dessa conquista afectiva, desse reconhecimento perante a turma. O “novo professor” é o bombo da festa a ser testado pelos jovens alunos. Quando consegue ter a turma quase toda na mão, encontra o último obstáculo, um aluno que desafia a sua autoridade. O professor está no bando e tem de conquistar a liderança contra um rival. Aqui surge a panóplia de truques – cada tem os seus – e Mc Court limita-se a narrar os factos, de como obteve o reconhecimento.

Para dominar a assistência, Mc Court descobriu uma receita notável: narrar histórias comoventes da sua infância em Limerick, na Irlanda. Os alunos também aprenderam a distrair o professor com perguntas sobre o seu passado na Irlanda. Depressa Mc Court compreendeu a estratégia: evitar as lições de “spelling” e os exercícios, distraindo o professor com a sua “miserable childhood”. Entre professor e narrador, Mc Court viveu uma missão difícil nestas escolas, onde, parece se ter tornado numa referência na biografia dos seus alunos.

Facto exemplar desta situação é o passeio de Mc Court com vinte e cinco raparigas negras na baixa de Nova Iorque. O professor atrevera-se a levar ao cinema as alunas de uma certa turma que mais nenhum professor da escola arriscava. A narrativa é de um humor irresistível. Um professor branco, um sobrevivente, leva 29 meninas negras ao centro de Nova Iorque. As meninas também eram sobreviventes e conhecem todos os truques, como saltar a barreira do Metro para não pagar bilhete e deixar o professor sozinho na bilheteira a pagar o cinema para ficarem com dinheiro para outras coisas, etc.

Da carreira de professor, ficamos com o retrato que os portugueses têm da coisa. Tudo se resume a uma máxima: “professor bom é demasiado bom para ensinar”. Muitos estudam de tudo o que serve para subir na carreira e dar menos aulas ou delas fugir para sempre, tornar-se “principal” ou “supervisor”, isto é cargos não docentes, melhor remunerados.

Mc Court conseguiu finalmente, o seu Eldorado, dar aulas numa escola, cujos alunos afluem a Harvard e a outras das melhores universidades.

Aqui a problemática muda: professor de “creative writing”, tem de conduzir meninos com uma vida rotineiramente satisfatória a ganhar ideias para escrever. Se nas escolas profissionais, foram as justificações de faltas e atrasos – “excuse notes” - que serviram de desencadeador da escrita, na escola da elite, foram as receitas de culinária a desempenhar esse papel.

Revelou-se também a contradição entre a expectativa das famílias centrada na ideia da nobreza do acto de escrita e o facto de à genialidade não corresponder qualquer padrão moral supostamente elevado na mesma medida. Por isso, Frank relata as objecções de encarregados de educação à presença do vagabundo, ladrão, proxeneta, traficante e escritor Herbert Huncke numa das suas aulas. Ora, Huncke era um figura central do movimento Beat, companheiro de Kerouac e de Ginsberg e uma presença constante nos cafés daquela zona de Nova York. Mas nem a biografia de Hemingway seria recomendável neste aspecto. Na escrita, risca-se e arrisca-se muito.

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Wikipédia

Support Wikipedia

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2016
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2015
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2014
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2013
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2012
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2011
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2010
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2009
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2008
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2007
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2006
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D
  248. 2005
  249. J
  250. F
  251. M
  252. A
  253. M
  254. J
  255. J
  256. A
  257. S
  258. O
  259. N
  260. D
  261. 2004
  262. J
  263. F
  264. M
  265. A
  266. M
  267. J
  268. J
  269. A
  270. S
  271. O
  272. N
  273. D