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"Sobre aquilo de que não conseguimos falar, é melhor calarmo-nos." (Was sich überhaupt sagen lässt, lässt sich klar sagen; und wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen) - Wittgenstein.

"Sobre aquilo de que não conseguimos falar, é melhor calarmo-nos." (Was sich überhaupt sagen lässt, lässt sich klar sagen; und wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen) - Wittgenstein.

Sem Rede

08
Nov11

Paradise Lost and Regained

Redes

Este post resulta do comentário a http://correntes.blogs.sapo.pt/1216240.html.

Paradise Lost and Regained é o título do célebre poema de John Milton que aponta para uma concepção circular da história que foi consagrada em alguns dos textos escatológicos da Bíblia. A história começa com uma perda no pecado original que tem que ser recuperada no fim dos tempos para dar lugar a um novo começo, um novo mundo sem pecado, em beatitude e felicidade plenas.

A ideia de que tem de haver um fim "do mundo", ou "do sistema de coisas" como dizem alguns grupos religiosos milenaristas está funda na nossa mentalidade e passou para sistemas ideológicos que aparentemente tinham pressupostos muito diferentes.

No Manifesto Comunista de Marx e Engels, por exemplo, sugere-se que, tendo por base a dialéctica da luta de classes, a história da humanidade seguia etapas precisas designadas por "modos de produção" - comunismo primitivo, esclavagismo, feudalismo, capitalismo, socialismo e comunismo, de novo. Temos de novo um ciclo que vai do comunismo primitivo ao comunismo avançado, em que o pecado inicial é representado pela "exploração do homem pelo homem".

Marx era herdeiro da conceção hegeliana segundo a qual a história tem uma direção e um fim. A ideia de que a história acaba num novo sistema que deve ser a sua suprema razão está impregnada na nossa cultura. Em particular, existe a obcessão de que os tempos que vivemos são de decadência do nosso actual sistema quer lhe chamemos "capitalista", quer "ocidente". Assim, temos uma concepção triunfalista da história no Fukuyama hegeliano que elige a democracia atual como o sistema final da história do mundo (cf. O fim da história e o último homem). Isto parece ser o contrário da decadência de Spengler, na sua obra A decadência do Ocidente.

Creio que estamos armadilhados não só pela escatologia bíblica, mas por uma particular interpretação que radica em vários dos primeiros padres da igreja, entre os quais, Santo Agostinho que, vivendo, no final do império romano, profundamente impressionado pelo saque de Roma pelos germanos, via no fim do império cristão, o início da Jerusalém espiritual profetizada em Apocalipse. Portanto, ao fim do império suceder-se-ia um novo mundo espiritual. Esse fim terreno resulta dos pecados dos homens. Cai a cidade de Deus terrena - Roma, capital do império cristão - para dar lugar à cidade celestial.

O império romano é uma das fases da história do mundo conformes às leituras que se fazem das profecias de Daniel (Cf. o livro de Daniel da Bíblia) - primeiro seria o egípcio, depois o assírio, o babilónico, o persa, o grego e, finalmente, o romano, aquele que, na leitura cristã, veria chegar o novo rei de um novo reino celestial, Jesus Cristo.

Esta conceção histórica está presente sob formas diferentes em muitos dos que procuram interpretar os sinais da história e o caso do império romano aparece como a grande lição com que importa comparar o nosso tempo. Os pecados variam consoante a variante ideológica em causa. Se for um conservador, acusará o fim das virtudes morais da família tradicional romana e colocará como paralelo, o casamento homossexual, a liberalidade sexual atual e a falta de respeito pelas hierarquias etárias e sociais. Se for um radical marxista, será o fim do sistema capitalista que acabará numa crise tal como acontecera com a crise do esclavagista império romano. Se é um liberal, procurará no império, o poder do Estado a asfixiar a economia, a subsidiar plebeus improdutivos, a impedir as virtudes do mercado, a torpedear a relação sagrada entre preço, oferta e procura.

Todas estes discursos resultam numa falsificação da história do império romano, numa dificulade em referir concretamente os tempos, por exemplo, o apontar com exatidão do início da dita decadência e as mudanças, as novidades históricas que justificam essa tese.

Ao fim e cabo, desembocam sempre num anacronismo, num presentismo inevitável.

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