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"Sobre aquilo de que não conseguimos falar, é melhor calarmo-nos." (Was sich überhaupt sagen lässt, lässt sich klar sagen; und wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen) - Wittgenstein.

"Sobre aquilo de que não conseguimos falar, é melhor calarmo-nos." (Was sich überhaupt sagen lässt, lässt sich klar sagen; und wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen) - Wittgenstein.

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08
Fev22

A leitura no relatório Estado da Educação

Redes

Este post decorre de uma sessão do Bom dia Portugal da RTP em que, inquirido sobre a leitura no relatório do CNE, Estado da Nação 2020, não tive oportunidade de explicar a minha resposta a uma questão colocada pelo jornalista. O programa é demasiado rápido. O erro de registo é meu. Pensei que era um bom dia mais longo.

O pressuposto da questão era o agravamento do número de casos de alunos com dificuldades de leitura, que foi negado por mim, sem oportunidade de explicar porquê.

O facto é que o dado que me pareceu referido na pergunta dizia respeito aos alunos de 15 anos com graves dificuldades de leitura detetadas no teste PISA que não era uma novidade do relatório e já tinha sido analisado nos media em 2018, data após a qual não há nada a acrescentar. Além do mais, tal facto e a respetiva tendência já tinha sido analisado no Estado da Nação de 2019. O contexto é no presente relatório a meta europeia de diminuir o número até 15%. Verifica-se que Portugal, em 2018, piorou a dita dificuldade de 17,2% em 2015 para 20,2% em 2018. Uma perda de 3 pp, como se pode observar no gráfico incluído (p. 14):

literacia_01.png

 Se observarmos os resultados dos 5 testes, verificamos um melhoramento de 24,9 em 2006 para 20,2 em 2018, isto é, cerca de 5 pp, enquanto a UE27 melhora em apenas cerca de 1 pp. Neste percurso, notamos um progresso extraordinário de 7 pp de 2006 para 2009 e, depois, variações em torno de 1 e 2 pp entre 2009, 2012 e 2015. De 2015 para 2018, temos a queda já referida de 3 pp. Por outro lado, observa-se que a UE27 melhora quando Portugal melhora com um pequeno contra-ciclo em 2012 e 2015 e piora em conjunto com Portugal.

O fenómeno acima referido mereceu uma análise pormenorizada no Estado da Educação de 2019:

literacia_02.png

Que fatores poderão ser atribuídos para a gestação destes fracos leitores? É preciso ter em conta que há mudanças na composição da população, tanto na Europa, como em Portugal, em que a leitura é particularmente atingida por ser uma competência linguística.

Na altura do teste, foi amplamente discutida a responsabilidade política neste resultado. Mesmo que fosse o caso de os efeitos referidos terem uma correlação temporal aceitável com as mudanças programáticas, teríamos de descobrir os aspetos programáticos relevantes que, ao mudar, tivessem contribuído para este resultado. Com efeito, estes alunos estudaram Português com o Programa e Metas Curriculares, a partir de 2015, com as Metas Curriculares, a partir de 2013 e terão entrado no 1.º ciclo com o programa de 2009.

Se a fragilidade advém da aquisição inicial da leitura que jusitifica a inclusão de metas sobre cronometragem da velocidade de leitura em 2013, lembro que o programa de 2009 já insistia na necessidade de trabalho sobre os fonemas e a sua correspondência com os grafemas na aprendizagem inicial da leitura. A cruzada contra os métodos globais feita nas Metas de 2013 não beliscava em nada o programa que se propunha corrigir, embora eu reconheça haver ainda, na altura, professores que insistiam em procedimentos de ensino da leitura que tinham como prioridade a apreensão de unidades significativas que atrasavam em muito a aprendizagem essencial da decifração. É preciso olhar para os resultados do PISA com maior atenção, o que já terá sido feito e verificado que a falha tem a ver também com a capacidade inferencial que acompanha todo e qualquer ato de leitura, com o léxico e com o conhecimento de géneros textuais.

Seja como for, a generalidade dos professores de Português, que inclui também os do 1.º ciclo, sabe o que há a fazer, assim haja os meios para o realizar. Entre outras coisas, trata-se de:

  • Detetar cedo as dificuldades na aprendizagem da leitura e tratá-las de uma forma sistemática, sem esperar que o aluno tenha que ser retido no 1.º ou no 2.º ano (má solução).
  • Dar a alunos com dificuldades textos literários mais acessíveis e mais motivadores para o jovem leitor, se se verifica que não conseguem ler com utilidade os que lhe são impostos programaticamente.
  • Tratar todos as obras literários como textos, que requerem leituras pessoais ainda que partilhadas na aula, e não como conteúdos programáticos.
  • Trabalhar as componentes da leitura cujas falhas podem prejudicar o ato de ler: o léxico, a situação referida no texto (histórica, social, etc.), o conhecimento do género e a complexidade da construção frásica (trabalhada em termos de compreensão no próprio texto), etc.

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