Sábado, 12 de Maio de 2018

Advérbio ou quantificador

Num manual escolar[1], apresenta-se um exercício gramatical que consiste em sublinhar os advérbios em várias frases, entre as quais a seguinte:

"Há pouco sal no saleiro"

A única palavra que poderia ser eventualmente um advérbio seria "pouco". Para decidir se é um advérbio, temos que perguntar a que elemento da frase está ligada, ao nome, "sal", ou ao verbo, "há".

Se substituirmos "sal" por "pimenta", teremos:

"Há pouca pimenta no pimenteiro"

Verificamos assim que "pouco" varia em género com o nome. Com um nome contável, também flexiona em número:

"Há poucos saleiros na mesa"

Assim se comprova que os alunos não teriam nenhum advérbio para sublinhar naquela frase.

“Pouco” é de acordo com o Dicionário terminológico, um quantificador existencial[2]. Há alguns anos, seria um determinante indefinido[3]Se recuarmos a 1974, vemos "pouco" como um "pronome indefinido adjunto"[4] ou como um pronome adjetivo para Lindley Cintra e Celso Cunha[5].

A distinção entre advérbios, por um lado, e quantificadores, determinantes ou pronomes adjuntos, por outro, sempre esteve muito clara e sempre se soube que “muito” e “pouco”, podiam ser uma coisa ou outra, conforme a posição que ocupassem, se junto de verbos, advérbios ou adjetivos se junto de nomes.

Assim, não há dúvida que, nas seguintes frases, pouco é advérbio.

(1) Ela achava a gravata pouco colorida.

(2) Ele estuda pouco.

Em ambas as frases, "pouco" carateriza a intensidade da qualidade referida pelo adjetivo ou da atividade referida pelo verbo.

Em (1), “pouco” não acompanha o género do adjetivo o que é próprio dum advérbio que não flexiona nem em número nem em género.

Casos difíceis ou ambíguos

(3) Ela chegou há pouco.

Se compararmos (3) com (2), encontramos uma diferença: em (2) a pergunta "Ela estuda pouco quê?" não tem resposta enquanto em (3) "Ela chegou há pouco quê?" tem uma resposta óbvia: tempo.

(3') Ela chegou há pouco tempo.

Assim, é possível considerar "pouco" como um quantificador tanto em 3 como em 3' de acordo com o DT. Pois trata da quantidade de “tempo”.

Mas imaginemos que consideramos as “horas” e não o “tempo”, sem que, contudo, o nome "horas" tenha sido referido antes:

(3'') *Ela chegou há poucas.

Assim dita, esta expressão seria considerada agramatical, exigindo a especificação do nome. Em vista deste facto, talvez se possa considerar que “pouco” em (3) deixou de necessitar da explicitação do nome (“tempo”) e passou a valer sozinha e, nesse caso, temos um advérbio.

O excelente Dicionário Verbo[6] apresenta na entrada "pouco" o seguinte exemplo de advérbio:

(4) "O motor gasta pouco"

Seguindo o raciocínio anterior, poderíamos considerar pouco como quantificador de "combustível", mas como não é referido, "gasolina" não funcionaria por causa do género, temos de novo o advérbio. Para comprovar mais uma vez esta possibilidade, imaginemos um caso com contradição de género, por exemplo um motor de água dum poço:

(4') Este motor puxa pouco.

Se perguntarmos "pouco quê?" a resposta é "água" que não concorda com "pouco", comprovando que esta palavra está ligada a "puxa" e não a qualquer nome que possamos retomar.

(5) Ela come pouco.

Não faz sentido explicitar "comida" ou "alimentos" o que implicaria a flexão de "pouco" em género e número. É que "comida" não acrescenta nada ao verbo "comer". Portanto "pouco" parece estar mesmo a definir a intensidade da atividade "comer" sem se referir ao objeto como acontece em expressões do género:

(6) Ele corre pouco.

(7) Este clube joga pouco.

[1] Rocha, Maria Regina e Maria Helena Marques (2016). A Gramática - Exercícios (4.° ano). Porto: Porto Editora, p. 33.

[2] Cf. "Quantificador existencial" in Dicionário Terminológico.

[3] Cf Azeredo, M. Olga et alli (1995), Gramática Prática de Português - 3.º Ciclo do Ensino Básico e Ensino Secundário. Da Comunicação à Expressão. LisboaLisboa Editora, p. 160.

[4] Figueiredo, J. M. Nunes de e A, Gomes Ferreira (1974). Compêndio de Gramática Portuguesa. Curso Geral do Ensino Secundário. Porto: Porto Editora, p. 219.

[5] Cunha, Celso e Lindley Cintra (1984). Nova Gramática do Português Contemporâneo. Lisboa: Sá da Costa.

[6] Vaza, Aldina e Emília Amor (2006). Dicionário Verbo de Língua Portuguesa. Lisboa: Verbo.

publicado por Redes às 15:56
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