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Sem Rede

"Sobre aquilo de que não conseguimos falar, é melhor calarmo-nos." (Was sich überhaupt sagen lässt, lässt sich klar sagen; und wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen) - Wittgenstein.

"Sobre aquilo de que não conseguimos falar, é melhor calarmo-nos." (Was sich überhaupt sagen lässt, lässt sich klar sagen; und wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen) - Wittgenstein.

Sem Rede

08
Jan11

Luta de classes ou de corporações?

Redes

Todos conhecemos a frase célebre do Manifesto Comunista: "Proletários de todo o mundo, uni-vos"

O mito de uma história feita de classes a lutarem umas com as outras numa polarização que põe dum lado os dominadores e do outro os dominados ainda prevalece no âmago da mentalidade da esquerda.

Essa concepção atingiu o máximo de risibilidade na última manifestação liderada pela CGTP com os juízes ao lado dos "outros" trabalhadores, unidos contra o governo. Com os patrões alheados da coisa, parece que o governo é que é a classe dominante. Só lá faltavam os deputados e os ministros que, salvo erro, não têm cortes salariais inferiores aos dos magistrados, mas infelizmente como protagonistas das leis não podiam dar voz pública ao desagrado que lhes ia na alma. Se lá estivessem, teríamos provavelmente o país unido numa manifestação contra... os mercados.

A verdade é que nem aqui nem em nenhum outro lado estiveram os proletários do país ou do mundo unidos contra a burguesia. Quem seria o proletariado ou quem seria a burguesia não é um problema fácil. Para Estaline, um pobre camponês ucraniano seria um burguês em potência. Por isso, tratou de eliminá-los aos milhares.

O que é de facto visível é que pessoas com interesses comuns se unem em defesa dos seus interesses. Trata-se essencialmente de profissões. E a sua luta tem, na verdade, do outro lado, os patrões, nuns casos, noutros, o governo, ou ainda, a sociedade inteira.

Álvaro Santos Pereira diz a respeito das lutas dos dentistas contra a invasão brasileira:

"Isto é, os protestos contra os imigrantes são muitas vezes impulsionados pelas nossas classes profissionais que frequentemente advogam restrições à chegada dos seus congéneres provenientes de outros países. Afinal, se estas mesmas classes profissionais tiverem um monopólio a proteger ou estiverem em situação privilegiada no mercado nacional (angariando rendimentos ou cobrando preços acima dos praticados internacionalmente), é claro que essas mesmas classes profissionais terão todo o interesse em tentar impedir a entrada de concorrentes estrangeiros que levarão a uma baixa dos preços dos seus serviços" (Os mitos da economia portuguesa, Lisboa, Guerra e Paz, 2007, p. 158)

Neste caso, os dentistas brasileiros fizeram de facto os preços descerem tornando menos interessante a profissão de dentista.

De modo similar, os advogados unem-se sob a direcção da sua ordem contra uma nova invasão não do estrangeiro, mas dos jovens licenciados. Essa invasão tornará a breve trecho a justiça mais barata. É evidente que isto não interessa a quem a vende. Interpuseram um exame à entrada na profissão que foi considerado inconstitucional, agora vão exigir o mestrado como habilitação mínima para exercer a advocacia. Não é possível entre lutas de interesses definir uma moral que nos permita decidir quem tem razão. O que podemos fazer é ver quem é que ganha e quem é prejudicado. Há, contudo, valores que podemos ler nas opções tomadas. Por um lado, o direito de jovens formados exercerem a profissão e concorrerem com os mais velhos. Por outro, o direito da ordem defender critérios de qualidade à entrada na profissão. Pois que tirem o mestrado e apareçam.

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