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Sem Rede

"Sobre aquilo de que não conseguimos falar, é melhor calarmo-nos." (Was sich überhaupt sagen lässt, lässt sich klar sagen; und wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen) - Wittgenstein.

"Sobre aquilo de que não conseguimos falar, é melhor calarmo-nos." (Was sich überhaupt sagen lässt, lässt sich klar sagen; und wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen) - Wittgenstein.

Sem Rede

31
Jul11

De novo: outros predicativos do sujeito?

Redes

​ 

Continuo com o tema do post anterior.

 

  1. O João chegou mais gordo .
  2. O Pedro saiu zangado .
  3. A Maria chegou triste .
  4. O António nasceu português .
  5. Ele começou o trabalho muito contente .

Parece-me que os modificadores do verbo acima assinalados comportam-se da mesma maneira que os casos típicos de predicativos do sujeito:

- predicam algo acerca do sujeito.

- ligam-se ao sujeito por um verbo.

Reconhecendo esse fato, não poderíamos admitir uma classe de verbos que permite modificadores que se reportam ao sujeito? Assim o predicativo do sujeito tanto poderia ser um complemento, no caso de verbos copulativos como um modificador no caso de outros verbos.

Acontece algo similar com grupos adverbiais e preposicionais que se comportam ora como modificadores ora como complementos. Os grupos adjetivais não aparecem no Dicionário Terminológico como modificadores do verbo, motivo pelo qual ficamos com aqueles casos em terra de ninguém.

Podemos averiguar se se trata realmente de adjectivos com função adverbial, substituindo-os por advérbios que tenham o mesmo sentido. Ao tentar fazê-lo, verificamos que não conseguimos encontrar advérbios aceitáveis (talvez só "tristemente"). É que não há de facto uma maneira gorda de chegar ou um modo português de nascer. O que me parece é que co-ocorrem na frase o estado expresso pelo adjectivo e o evento expresso pelo verbo.

O sentido das 5 frases poderia ser assim parafraseado:

  1. Quando o João chegou, estava mais gordo .
  2. Quando o Pedro saiu, estava zangado .
  3. Quando a Maria chegou, estava triste .
  4. Quando nasceu, o António era português .
  5. Quando começou o trabalho, ele estava muito contente .

Estas construções com subordinadas são de facto dispensáveis porque, aos verbos em causa, basta acrescentar os grupos adjectivais.

19
Jul11

Predicativo do sujeito

Redes

É perturbante que o dicionário terminológico, que eu considero um bom instrumento de trabalho, não responda eficazmente a algumas dúvidas elementares colocadas pelas suas definições. O caso que tenho entre mãos é o "predicativo do sujeito" que é assim definido:

"Função sintáctica desempenhada pelo constituinte que ocorre em frases com verbos copulativos, que predica algo acerca do sujeito."

A definição de verbos copulativos é lamentavelmente circular, isto é, leva-nos de novo à entrada de "predicativo do sujeito", facto que foi devidamente assinalado no momento da discussão da Tlebs.

"Verbo que ocorre numa frase em que existe um constituinte com a função sintáctica de sujeito e outro com a função sintáctica de predicativo do sujeito."

Como são interdependentes, ficamos sem saber o que é um e o que é o outro.

É neste enredado que aparecem as dúvidas. No Guião de Implementação do Programa de Conhecimento Explícito da Língua, aparecem, numa das actividades propostas para o assunto do predicativo do sujeito, as seguintes frases:

  • O Pedro saiu zangado.
  • A Maria chegou triste.
  • O António nasceu português.

São frases cujos predicados eram designados por verbo-nominais por conterem também um predicativo do sujeito. Veja um exemplo desta classificação numa entrada da Wikipedia: Predicado (gramática).

Ora, no dicionário não aparece nenhuma solução para designar correctamente a função sintática dos constituintes sublinhados nas frases acima. Como vimos, a classificação de predicativo contradiz as definições do dicionário, pois os verbos das três frases não são copulativos.

Não obtenho uma resposta assertiva e clara por parte dos autores do dicionário: qual é a função sintáctica desses adjectivos.

A minha resposta é: predicativo do sujeito! Mas fico perturbado com a contradição com o dicionário e com a consistência da actividade do GIP que foi precisamente buscar estes casos para mostrar ao aluno que estas frases não têm predicativo do sujeito, pois os grupos adjectivais podem ser excluídos sem que a frase fique agramatical.

05
Fev07

TLEBS: Corrigir e voltar atrás?

Redes
Vem esta questão a propósito da TLEBS, que se diz que vai ser suspensa no próximo ano.
Acontece que, pela leitura da TLEBS, e pela polémica que ela suscitou, encontrei erros no meu ensino da gramática. Confirmei também que algumas das minhas concepções divergentes em relação a vários colegas meus, eram justas.
Vou dar exemplos de apenas três erros (há mais!) que eu não quero fazer.

Sujeito

Diz a gramática do Nunes Figueiredo e Gomes Ferreira (1) que o sujeito é o "o ser ou coisa sobre que se faz uma afirmação". É uma simplificação semântica que se pode eventualmente aceitar como conveniente, em termos didácticos, sobretudo, se depois ensinarmos correctamente como se determina o sujeito. No item seguinte, considera que podem desempenhar a função de sujeito, um substantivo, um pronome, um numeral, ou mesmo, uma frase.
Determinemos então o sujeito nas próprias frases fornecidas pelo autor da primeira gramática que estudei em profundidade (4º ano dos liceus):
1. O cão é um animal doméstico.
O sujeito é "cão".
Se substituirmos o dito substantivo por um pronome a frase fica:
2. Ele é um animal doméstico.
O sujeito passa a ser "ele". Mas repare-se que "ele" substitui o grupo nominal e não apenas o nome.
Vejamos uma frase com atributos e complementos determinativos:
3. O cão do meu amigo parece um animal selvagem.
Neste caso, o sujeito seria igualmente "cão", pois "do meu amigo" seria complemento determinativo. O predicativo do sujeito seria "animal", pois "selvagem"  seria um atributo. Quer dizer, não se considera o sujeito como um grupo de palavras à excepção do caso de uma "oração substantiva".
Esta maneira de considerar a sintaxe da frase, como uma linha sequencial em que os elementos se aglomeram sem qualquer hierarquia que não seja a distinção entre elementos fundamentais e elementos complementares da oração é a que resulta da Nomenclatura de 67 (2) que nunca cumpri no meu ensino.
A maior parte dos professores, suponho, ensina que
- em 1. o sujeito é "O cão";
- em 3.  o sujeito é "O cão do meu amigo".
Esta análise estaria de acordo com a Nova Gramática do Português Contemporâneo de Lindley Cintra e Celso Cunha (3) que está informada com as aquisições da gramática generativa, no que respeita à hierarquia dos elementos da frase, e não é "tradicional" no mau sentido do termo.
Não faz qualquer sentido a utilização da expressão gramática tradicional a não ser para a diferenciar da gramática generativa que se refere à competência linguística do falante. Há uma gramática que se adquire e outra que se ensina e que se estuda e que é uma continuação, um desenvolvimento da primeira e está ligada a usos linguísticos que eu creio mais sofisticados, ligados ao exercício da escrita e da leitura, como preparação para funções sociais cada vez mais exigentes. Ora, a gramática escolar que é uma coisa que se ensina e que é analítica e normativa, nunca foi alheia às aquisições do conhecimento linguístico. Chamar-lhe tradicional pode conotá-la com atraso. A necessidade sentida de criar a Nomenclatura de 1967 e de fazer a TLEBS prova que estamos perante uma realidade dinâmica, em constante evolução.

Predicado

Ainda de acordo com Nunes Figueiredo e com a Nomenclatura de 67, o predicado ou é o verbo ou é o verbo e a qualidade que se lhe acrescenta no caso dos verbos de significação indefinida. Os complementos directo e indirecto, assim como os complementos circunstanciais, são "elementos complementares da oração", não fundamentais, que se acrescentam ao verbo.
Assim:
- em 1., o predicado seria "é animal";
- em 3., "parece animal" (pois todos os outros elementos são complementares).
Vejamos como seria em frases com os complementos acima referidos:
4.  Ele foi para Lisboa.
5. A polícia judiciária do Porto interrogou o presidente do FCP.
6. O escritor dedicou o livro à sua mãe.
Teríamos:
- em 4. "foi" como predicado e "para Lisboa" como complemento circunstancial de lugar;
- em 5., "interrogou" como predicado e "o presidente do FCP" como complemento directo;
- em 6., "dedicou" como predicado e "o livro" e "à sua mãe", como complementos directo e indirecto, respectivamente.
A maior parte de nós ensina que o predicado é:
- em 4., "foi para Lisboa";
- em 5. "interrogou o presidente do FCP";
- em 6., "dedicou o livro à sua mãe".
Note-se que há uma contradição na gramática de Nunes Figueiredo quando reduz o sujeito ao substantivo e, mais à frente, na "transformação passiva" considera como sujeito o grupo nominal inteiro. Creio que foi forçado a isso pela própria lógica da passiva (4). É de acrescentar que esta redução do sujeito ao nome e do predicado ao verbo contradiz a própria definição semântica que dá das duas funções (5).
Conheço colegas que ensinam as duas funções tal e qual como Nunes Figueiredo, com o argumento de que "a gramática generativa acabou".
Para a TLEBS, fazem parte do predicado, os complementos e os modificadores do verbo e do grupo verbal. Antes de ter lido a TLEBS, predicado e grupo verbal eram a mesma coisa para mim, embora sob uma perspectiva diferente. Resumindo: só incluía no predicado os elementos obrigatórios, exigidos pelo verbo.
Alteremos 5. para exemplificar:
7. Ontem, a polícia judiciária do Porto interrogou o presidente do FCP.
Neste caso, eu não incluiria "ontem" no predicado. Com efeito, "ontem"  modifica o grupo verbal, mas não faz parte dele, pois não é exigido por "interrogou" que apenas exige um complemento directo. Depois de analisar a árvore da frase, cheguei à conclusão que a TLEBS estava certa. Em termos didácticos, também é mais simples dizer que é tudo o predicado. Além do mais a TLEBS coincide com Cintra e Cunha (6)

Subordinante e subordinadas

Outra mudança que eu acho que se impõe foi colocada pelo João Peres como uma crítica à TLEBS. Eu considero-a inteiramente justificada. Tudo se resume ao seguinte: as orações que desempenham funções sintácticas fundamentais da subordinante, integram-na.
Vejamos:
8. O Público diz que ontem a polícia judiciária do Porto interrogou o presidente do FCP.
Neste caso, não podemos considerar "O público diz" como subordinante porque esta expressão não é uma frase, pois falta-lhe o complemento directo que é "que ontem a polícia judiciária do Porto interrogou o presidente do FCP".
Penso que, em geral, a lógica está do lado da didáctica. Quanto mais lógico, mais simples. Se distingo frase (ou oração, se quiserem) de não-frase, não vou depois infringir a regra dizendo que uma expressão sem sujeito ou sem complemento directo é uma "oração" ou frase "subordinante". Duma forma geral, a falta de lógica apela ao decorar daquilo que o professor enuncia.
Agora pergunto: que autoridade tem o direito de me obrigar a ensinar coisas erradas que nem didacticamente se justificam? Mais: quem pode exigir aos professores formados pela TLEBS, que voltem a ensinar erradamente?

NOTAS

(1) Nunes Figueiredo, J. M., e Gomes Ferreira, A., Compêndio de Gramática Portuguesa, Porto, Porto Editora, 1975, p. 53.
(2) Nomenclatura Gramatical Portuguesa, Portaria nº 22664, Diário da República, I Série, 28 de Abril de 1967.
(3) Cintra, Lindley e Cunha, Celso, Nova Gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Sá da Costa,1992,  p. 122.
(4) Nunes Figueiredo, J. M., e Gomes Ferreira, A., p. 62
(5) Idem, p. 55.
(6) Veja (3)
Para a análise do João Peres referida acima, por favor, veja  http://jperes.no.sapo.pt/

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